A vida dos musseques tem particularidades com sabores extraordinários. Tem enredos da vida real que levados ao texto poderiam resultar em obras literárias fadadas para uma aceitação bombástica.

O carisma dos personagens de cada banda, as inusitadas situações de disputas ou desforras entre becos e terrenos baldios, as travessuras dos petizes que enguiçam a tranquilidade dos mais velhos, os códigos verbais que nascem com o fito de esquivar- se do controlo dos pais, a beleza dos passos de dança paridos da espontaneidade e dom artístico dos jovens, a coragem de enfrentar a escuridão para fazer luz nos grandes salões de farras e bodas rijas, os namoros fervorosos e sempre muito carnais mas também românticos com juras falidas e traições múltiplas, o temor pelos grandes maiorais e protagonistas de batalhas viscerais, mas sobretudo o amor incontido e verdadeiro pelo localchão cenário de todos esses episódios.

A dimensão cultural desta realidade dos subúrbios, independentemente da província a que nos estivermos a reportar, é cimentada por princípios de respeito à história produzida ao longo dos tempos por diversos actores, entre heróis e vilões, sinceros e planistas, destemidos e cobardes, temperamentais e apaziguadores.

No fundo, não é difícil identificar ou separar o trigo do joio quando buscamos a caracterização fundamental dos nossos núcleos populacionais. Pois, as atitudes, comportamentos e práticas reiteradas de determinadas figuras produzem efeitos na memória de um número considerável de pessoas criando rapidamente sentimento de aceitação ou de repulsa, transcorrendo essa herança de geração em geração, sobrevivendo a contextos e aos tempos, dada a profundidade das marcas deixadas pela sua acção. É assim que se molda a consciência das sociedades.

É assim que se perpetuam os rótulos e estigmas. Enaltece-se os bons e reprime-se os maus. Para a memória colectiva conta tudo mas, nem todos podem ser tidos como elementos para granjear um estatuto especial.

A amnésia colectiva não se aplica quando, obrigatoriamente temos que revisitar as consequências trágicas de um acto irreflectido praticado em prejuízo da moral e da paz de uma comunidade. Sobra espaço para o perdão e para aceitar a reintegração social destes protagonistas quando se nota uma clara tendência para a alteração comportamental orientada para o bem comum, para a harmonia e estabelecimento de um estado de espírito saudável.

É bom, quando na comunidade notamos que um potencial delinquente se regenera. Já os que teimam em seguir para comportamentos desviantes, espalhando terror e temor, angariam rapidamente reprovação e afastam qualquer tipo de simpatia da comunidade. Há também aqueles que, não sendo marginais, agem em certas situações e deixam um rasto agridoce.

Os homens que resolvem contendas alheias pelo punho ou buscam razão por via de discursos agressivos e pouco cordatos, fazem lembrar aqueles miúdos irrequietos cuja virtude era “fufular” os menos afoitos para o confronto físico, garantido assim a fama de valentão e assegurando talvez umas poucas miúdas para o seu leque de admiradoras. Mas, sabem estes garotos que esfregar o rosto do seu contendor na areia, aproveitando a sua distracção, não lhe dá prestígio. Torna-o um ser inferior por não ter capacidade de diálogo e por fomentar a violência sem pudor.

Habituam-se a ganhar preponderância com recurso a uma postura inflamada e alimentada por factores subjectivos. São na verdade perdedores por não terem “fair play” e estarem constantemente a esconder as suas fragilidades em argumentos eivados de equívocos, buscando razão em contramão a uma realidade que a maioria constata e se pode comprovar. Infelizmente, até quando há festa eles querem dar um ar da sua graça. Não fica bem ser brigão a todo momento!

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