Sendo a consciência literária e o texto literário, dois pressupostos nucleares no processo da escrita literária, em cuja extensão o escritor se deve assumir como o agente central, a novíssima juventude literária angolana deve inaugurar o seu labor artístico legitimando-se a esses dois pressupostos essenciais.

A consciência literária e o texto literário constituem elos interdependentes na rota de estruturação da escrita e representam o relevo estruturante de um exercício que requer introspecção semântica e dimensionamento textual permanentes – numa dialéctica em que o texto e o contexto sejam o esqueleto do texto nos seus diversos relevos, variantes e dinâmicas, para que resulte um nicho de viva e conseguida intertextualidade.

A criação literária deverá sempre timbrar a sua acção através de uma escrita criativa sedutora, – se duplique e se retransfi gure, preenchendo um terreno em que a palavra/ signo, sob forma de ente íntimo da escrita, simultaneamente elo e energia decisivos na acção de construção do texto literário, na senda do belo, deverá constituir-se um privilegiado gerador, tendo em consideração o exercício da mensagem literária enquanto veículo da realidade social de qualquer povo – e logo, uma ampla placa ou plataforma articuladora de toda uma conjuntura criativa potenciada em diversidade discursiva que estética e dialecticamente se desdobra em valores, vivências e símbolos dimensionados em identidade que se estrutura em pertença colectiva e desígnio identitário, resultantes de aquisições existenciais em que paixões e amores, direitos e deveres sem hierarquias, coexistem no terreno diverso da plena objectivação cultural do povo – nesse plano, pela via da expressão das suas potencialidades estruturantes, aqui referindo- nos às artes e a criatividade cultural costumeira como uma prática popular rotineira mas que obviamente obedece a uma dialéctica cultural cujos códigos e signos se demonstram aparentemente indecifráveis.

A literatura angolana constitui, neste breve apontamento, o assunto fulcral de uma “assanhada e recorrente” inquietação que vem ganhando foco assinalável na maré das letras angolanas da actualidade, – produzida por alguns cultores da novíssima geração de cultores literários, cujos contornos se “miram” incisivamente preocupantes no quadro das suas potencialidade artísticas, salvo honrosas excepções que carecem de um “honesto” reparo valorativo, mesmo esse “reparo” correr o risco de ser mal interpretado e eventualmente recebido como uma espécie de atoarda viral contra os nossos mais novos cultores da nossas letras, alguns dos quais até bastante promissores, – se continuarem a abraçar a sua conduta literária numa perspectiva responsável e paciente, intelectualmente humilde e despretensiosa.

Tal porque “a res literária angolana” , embora jovem, já é detentora de um simbolismo e dimensão sufi cientes cuja singularidade e dimensão não podem cair em objectivações caracterizadas por um diletantismo decorrente de indulgências que só derivam numa pobreza artística que danifi ca a sua própria imagem – que já é internacional – graças a grandiosos autores das nossas letras.

Disse-me uma vez, por outras palavras, um falecido escritor angolano que “a literatura constitui um exercício semelhante a um sacerdócio incessante que decorre de duras batalhas íntimas e que resultam sempre em grandiosas descobertas colectivas” – que, aviso à navegação, requer humildade (rigor e auto-disciplina individuais).

A isto podemos chamamos responsabilidade intelectual. Pois, é consabido que a criatividade literária de qualquer geração, movimento ou grupo de cultores das letras só poderá resultar num exercício fecundo e com recursos para potencialidades para amadurecer e reproduzir-se artística, caso seja assumido por jovens criadores que tenham identificado os pressupostos semiológicos e outros da sua própria literatura, respeitando desde logo a lógica da criatividade visando a sua diversificação e maturação constantes, mantendo-se um elo de inter-relação constante com a sua trajectória, que assenta em percursos, temáticas, universos e fisionomias (estéticas e estilísticas). Porque é através da identificação sua feição diversa se pode configurar as suas peculiaridades literárias– entre outros traços que urge conhecer e dominar – mesmo que sintética e superficialmente, desde que tal exercício não ocorra de um modo imediatista. Tal desiderato exige que as novas gerações de criadores literários e não só, estão obrigados a conhecer/ler as mais importantes produções tanto da literatura internacional e do seu país – permitindo-se criticamente detectar as marcas e traços passíveis de contribuir para o enriquecimento da paisagem geral da literatura e esboçar, com sustentabilidade, as ondas longas da sua continuidade mais homogênea, sem se correr o risco de cair em roturas/ rupturas (?) comprometedoras do seu amanhã.

Portanto, as novas gerações devem fazer um levantamento cronológico do acervo literário nacional – procedendo a uma consulta sistémica às obras literárias mais dignas de referência, fazendo dessa acção um investimento tão imperioso como uma rampa de lançamento para um salto de dimensão cultural – num exercício que também reverencie o seu percurso compenetrado na história e na anatomia do próprio texto.

Um texto literário com diversas formulações estéticas – resultando numa percepção mais dinamicamente comparativa das textualidades que enformam o seu corpus, sempre sujeito ao debate que podendo não ser aparentemente essencial porém é benéfi co – com interlocutores da geração anterior, estudiosos não só, estará garantida uma transição literária geracional sustentável e qualitativa para as letras angolanas que privilegie uma conjuntura literária que inquiete a arte na sua perspectiva mais académica e essencial, em cujo processo a criação literária se transforme num autêntico auto de sensibilidade humana despoletada pelo vigor da inovação simultaneamente redescobertos pelo gosto pela leitura e pela genuina vocação para uma escrita em prol do belo enquanto categoria maximal de toda e qualquer forma de expressão artística – sem desencontros entre novidade e inovação, sem apressamentos estilísticos nem perspectivações fragmentárias que não se articulam como um todo sistémico coerentemente interdependente…

Fugindo da tentação da banalização literária e desencorajando absolutismos literários – os actuais desafi os e necessidades estruturais da literatura angolana, dependem de condutas pilares como o ensino universitário de qualidade – a promoção de políticas que incentivem a criação literária, a leitura e a circulação do livro; uma maior abrangência e apoio institucional aos estudos sobre literatura angolana; são imperiosos conselhos de veridição que inibam o sensacionalismo artístico que ganha feições cada vez mais ousadas na praça literária angolana, através de uma escrita que se vale pela mera escrita – serva assumida da mera ostentação narcísica, sem endereço nem paladar literário, – salvo excepções dignas de encorajador enaltecimento – angola já possui um punhado jovens promissores.

Porém, vai emergindo alguma literatura em desobediência aos requisitos da literariedade e da lógica da criatividade artística, em claro desrespeito ou desatenção ao que já foi publicado pelos “mestres” cujas obras, de geniosa e generosa valia, superabundam – nas prateleiras também ao descaso, ostracizadas sabe-se lá sob que pretextos. Veteranos ou Jovens, é preciso beber-se do passado e não seguir rota sem pedir autorização à mister responsabilidade intelectual. Antes de criar, importa mesmo beber com sábia sede.  A realização é mesmo colectiva.

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