O Carnaval de Luanda integra em todo o seu manancial de informações históricas registos sobre personagens que em diferentes períodos se destacaram pela sua áurea, comprometimento e desempenho. Geraldo Morgado é um dos nomes incontornáveis ao revisitarmos este espólio e ao estudarmos as diversas correntes evolutivas dos movimentos culturais autóctones que emergiram ainda na era colonial. Tem particular relevância a sua intervenção na constituição dos grupos de Rebita por conta da sua destreza como acordeonista, impondo na sua execução rítmica variantes sonoras construídas com base numa estrutura enraizada em tradições seculares dos axiluandas.

Teve a sua iniciação musical seguindo os passos do pai, afamado reparador e tocador de concertina, mas guiado por uma espiritualidade cultural inexplicável. Geraldo Morgado reuniu à sua volta outros jovens amantes das tradições dos seus antepassados e deu consistência aos seus dotes naturais exercitando com muita persistência os laivos musicais que inspiravam a composição das suas canções. Sabia com muita habilidade desenvolver temáticas do seu quotidiano e transformava-as em mensagens dignas da atenção dos apreciadores da música feita nos musseques mas, que já viajava para outros ambientes.

Foi essa acutilância que levou o então Centro de Informação e Cultura de Angola (CITA) a cooptá-lo como um dos principais animadores e aglutinadores de foliões para os desfiles de carnaval que, nos idos anos 60, decorriam na Avenida Paulo Dias de Novais, actual Marginal 4 de Fevereiro.Ao lado dos Corsos Carnavalescos, uma tradição europeia consubstanciada no desfile de carros abertos e ornamentados com foliões fantasiados que jogavam confetes, serpentinas e esguichos de lança-perfumes aos ocupantes dos outros veículos, estavam os grupos carnavalescos compostos por angolanos e com a representação das variantes artísticas que personificavam as tendências de danças, ritmos e canções mascarando a vontade da conquista autonomia da auto-determinação.

A notável trajectória artística de Geraldo Morgado e do seu Grupo de Rebita motivou um outro convite no ano de 1969, agregado a uma caravana artística que participou de um Festival Folclórico em Santa Marta Portuzelo, Portugal. Foi nesta altura que Geraldo Morgado faz a gravação do single que incluiu o seu grande sucesso intitulado Mini-saia. Uma crítica social a forma como as meninas daquele tempo se vestiam e ao mesmo tempo, uma justa homenagem a bessangana. Ao lado da sua esposa, Dona Sofia, mobilizou a juventude do Morro da Kinanga, local onde tinha a sua humilde residência, do Bairro da Coreia, dos Onze Bravos da Samba Pequena (Prenda) e de outras povoações circunvizinhas a integrarem os Feijoeiros do Ngola Kimbanda.

Nesta altura, Geraldo Morgado fazia recurso a sua polivalência artística e empreendia o seu vivo desejo de recuperar a Cidrália, um dos mais antigos estilos praticado pelos grupos carnavalescos de Luanda. Foi com os Feijoeiros do Ngola Kimbamda que conquistou o primeiro lugar das edições do Carnaval da Vitória em 1979 e 1981. Provavelmente, naquela época, Geraldo Morgado já estava, anos luz, mais avançado em termos de visão de sustentabilidade para o nosso carnaval. Até mesmo na forma como integrava as temáticas das canções aos cenários alegóricos e aos movimentos dos figurantes o mestre Geraldo denotava ciência, paciência e brio artístico. Os Feijoeiros do Ngola Kimbanda, deixaram de existir após a histórica deslocação ao Brasil, em 1983, no âmbito do projecto cultural O Canto Livre de Angola, promovido pelo cantor e compositor Martinho da Vila. Nesta sua passagem pelo Brasil, Geraldo e os Feijoeiros do Ngola Kimbanda, abriram o desfile oficial da Escola Unidos de Vila Isabel que, arrebatou o título de campeão do famoso carnaval do Rio de Janeiro.

Infelizmente, mesmo tendo procurado passar o seu legado antes de falecer aos 82 anos de idade, Geraldo Morgado não conseguiu materializar o sonho de assegurar a sobrevivência da Cidrália. Ela desapareceu do Cenário do carnaval de Luanda. Boa parte dos jovens oriundos dos Feijoeiros do Ngola Kimbanda fundaram, ainda em 1983, o Grupo Carnavalesco União Amazonas do Prenda e derivaram para o estilo Semba/Varina. Este grupo, que venceu a edição de 1992, sofreu sérias influências na sua estrutura rítmica de outros grupos das cercanias e preferiu não enveredar pelo traço deixado pelo incansável mestre Geraldo.

Talvez porque era necessário incorporar o fervor da competição bairrista como essência material da sua constituição. Em 2004, foi empreendida uma tentativa de recuperação do núcleo duro dos Feijoeiros do Ngola Kimbanda, por via de uma homenagem feita pelo Ministério da Cultura mas, não resultou frutífera. É tempo de rebuscar a história e aproveitar os traçados originais para arreigar a importância do nosso Carnaval e perpetuar os desígnios promovidos ao longo de décadas de persistência e trabalho pelos nossos mais velhos.

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