O dia seguinte à OPEP ter relançado o preço do petróleo

Ao fim de oito anos a OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo, voltou a definir um limite à sua produção (agrega 15 membros, entre os quais Angola). Ou, mais precisamente, anunciou que irá fazê-lo dentro de cerca de dois meses. Tudo o que se sabe sobre o inesperado acordo, anunciado após um encontro informal dos membros da organização, que participaram em Argel num fórum internacional sobre energia, é que há um entendimento quanto à fixação de um tecto entre 32,5 milhões e 33 milhões de barris por dia à produção do conjunto dos seus membros, menos 750 mil barris que a produção actual.

O anúncio de um corte na produção fez os mercados reagir de imediato e o preço do petróleo fez a recuperação mais rápida dos últimos anos num só dia. Ameaçava descer da fasquia de USD 45 por barril e passou meteoricamente para um valor próximo de USD 50 por barril. Hoje, Quinta-feira, 29 de Setembro, os progressos foram muito menores, chegando mesmo a recuar face a conquistas da véspera. Ao início da noite em Luanda o barril de petróleo tipo Brent, referência para as ramas angolanas, cotava a USD 49,17, com um ganho que não chega a um por cento, quando ontem havia disparado mais de 5%.

A pergunta que se faz é: quanto é que fará subir o preço o acordo anunciado? Há já quem arrisque. É o caso do grupo financeiro Goldman Sachs, que antecipa que a concretização do acordo, no primeiro semestre de 2017, irá fazer subir o preço do barril entre sete e dez dólares. A previsão do Citigroup é de que o preço do barril de petróleo andará entre USD 45 e USD 50 no final deste ano, com o Brent a subir para um preço médio de USD 60 em 2017. É provável que o barril de petróleo se fixe no próximo ano num valor em torno de USD 60. É uma previsão que, contudo, depende de muitos e complexos factores.

Estima-se existir um excesso de 2 milhões de barris diários no mercado. Ora, a OPEP dispõe-se a retirar entre 700 e 750 mil, ou seja, enxugar menos de 40% da oferta em sobra. A eficácia do acordo, se vier de facto a fixar-se no corte anunciado, dependerá do apoio de outros grandes produtores, com a Rússia à cabeça.

Ora, os russos estarão disponíveis para um acordo, mas procurarão assegurar a melhor posição. Em plena reunião da OPEP, Moscovo divulgou números que apontam para que tenha atingido a produção recorde em Agosto de mais de 11 milhões de barris por dia. O que foi uma forma de pressionar a Arábia Saudita, como quem diz ‘se vocês se ficarem pela estratégia da fuga em frente através do aumento incessante da produção nós estamos na corrida’. E os russos sabem ao ponto a que está debilitada a economia saudita, a apresentar o maior défice fiscal entre os 20 países mais ricos do mundo (13,5% do respectivo PIB este ano) e a cancelar gastos sociais e investimentos de biliões de dólares.

O tempo que medeia até 30 de Novembro, dia em que OPEP iniciará a sua reunião regular em Viena, Áustria, onde tem a sua sede, será de conversações difíceis e muita pressão negocial. Quer dentro da OPEP, quer entre esta e grandes produtores que se encontram fora da organização, como a Rússia, a Noruega ou o Brasil.

Para já, não há qualquer acordo formal, haverá apenas um memorando com as intenções que se conhecem, ficando a redacção do compromisso final a cargo de um comité. Que não terá tarefa fácil na individualização da parte que cabe do corte global a cada membro. O cumprimento dos limites fixados nunca foi tema pacífico no interior da OPEP. E se o anterior acordo que punha um tecto à produção do grupo em 30 milhões de barris por dia, um acordo pulverizado pelos sauditas em Dezembro de 2014 ao optarem pela estratégia de pôr a concorrência fora de jogo, excluía apenas o Iraque, que procura sobreviver aos estragos da invasão do país e a posteriores guerras civis internas, este novo acordo poderá deixar de fora do regime de quotas mais países. O que argumentará a Nigéria que tem visto a sua produção declinar devido aos ataques dos rebeldes do Delta do Níger? E os líbios, com o país partido por três facções beligerantes, entre as quais o Daesh?

Todos os países quererão que a sua produção actual seja contabilizada ao nível mais elevado possível, para que o ‘tecto’ que lhes for fixado vá também o mais longe possível. O Iraque já veio reclamar publicamente que a sua produção está acima do que consta nas estatísticas. Que acordo vai surgir daqui a dois meses? O diabo normalmente está nos detalhes…

Mas o que se passar entre os produtores fora da OPEP será decisivo para que um limite de 32,5 milhões de barris fixado à produção da OPEP comece a surtir efeitos no início do próximo ano, ou que um tecto de 33 milhões de barris produza resultados a partir do primeiro semestre de 2017, como calcula o Morgan Stanley, citado pela Bloomberg.

Para já não falar de produtores que irão argumentar com a necessidade de recuperar as suas produções, atingidas por estados de guerra, no Cazaquistão vai arrancar o mais caro projecto petrolífero de sempre (USD 50 mil milhões), o projecto de Kashagan e os produtores de xisto norte-americanos, que a Arábia Saudita tinha na mira e que conseguiu, em parte mas não na totalidade, liquidar, irão retomar a produção. Quanto tempo demorarão a bombar novamente mais óleo? Imagina-se que demorarão alguns meses, sabendo-se que existem USD 100 mil milhões disponíveis para investir na actividade. E a produção de xisto norte-americana, a principal responsável pela queda vertiginosa do preço do petróleo, seguramente não aderirá a qualquer acordo de contenção da oferta. Os Estados Unidos, um dos três maiores produtores mundiais, ficará sempre de fora. Como é improvável que o Canadá adira a qualquer acordo deste tipo.

O dia de ontem, Quarta-feira, 28 de Setembro, fica na história do petróleo como aquele em que a OPEP anunciou que reassumia o seu papel tradicional, intervindo no mercado para assegurar preços equilibrados. Foi também uma vitória para a posição angolana. Angola desenvolveu diplomaticamente esforços para que se voltasse a um corte na produção, apoiando as iniciativas argelinas e venezuelanas e procurando agregar os membros da OPEP em torno de uma estratégia de intervenção no mercado. O ministro dos Petróleos, Botelho de Vasconcelos, que já presidiu à OPEP, e com sucesso, conseguindo manter a coesão dos seus membros em torno da questão das quotas de produção, disse há meses, em declarações a OPAÍS, defender uma redução da produção até 5%.

O preço do petróleo irá subir, só não se sabe em quanto, permitindo, em todo o caso e pelo caminho, que o preço médio deste ano fique acima do preço de referência orçamental, aquele em que se baseiam as estimativas das importantes receitas petrolíferas do país, criando uma maior folga do ponto de vista fiscal e também aliviando a pressão sobre as divisas disponíveis.

Foi dado um passo decisivo. A Arábia Saudita entendeu que a alternativa era o caos. E era, olhando para a tendência de queda do preço do petróleo nos dois últimos meses. Mas é ainda muito cedo para ‘deitar foguetes’.

 

 

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