Raúl António Francisco Gaspar conhecido na lide artística como “Raúl Negro”, em entrevista a OPAÍS, faz uma breve abordagem do movimento artístico-musical de Malanje e do seu próximo trabalho discográfico.

Como caracteriza o movimento dos artistas e da música que é feita em Malanje?

Falando, propriamente, da música produzida localmente, tem tido o seu espaço, embora acredite que a sua expansão não tenha o corpo que gostaríamos que tivesse, se calhar fruto da falta de alguma qualidade, para então poder alcançar o mercado nacional e internacional. Ainda assim, algumas vozes têm dado um ar da sua graça, os novos valores têm envidado esforços para trazer ao de cima tudo quanto constitui o mosaico cultural de Malanje, mas a única coisa que me preocupa é o facto da essência de a nossa tradição ir se degradando, à medida que o tempo passa.

Essa tendência de degradação a que se refere deve-se a quê?

Por um lado à falta de transmissão de valores, à falta de transmissão de conhecimentos, da nossa parte como adultos, para os mais jovens. Por outro lado, existe também a falta de alguma competência, a falta de alguma capacidade, ou seja, em uma só palavra, digo que existe um pouco de preguiça mental da própria nova geração, que ao invés de recuar no passado, buscar bases para melhor fazer o presente, simplesmente, mergulha naquilo que são as influências da globalização e lá vai fazendo alguma coisa de forma imediatista, pondo deste modo, as nossas raízes musicais em risco.

Então, admite que os adultos também têm meia-culpa?

Sim. Em parte!… Afinal, nós os adultos temos a responsabilidade de transmitir valores e passar o testemunho à juventude. Mas o principal problema consiste no facto da juventude, na busca do ter, esquece-se do ser e, quando isso acontece, as coisas tomam outro rumo que nada tem a ver com a nossa essência cultural.

A experiência adquirida ao longo dos teus anos de carreira, associada ao seu estilo musical virado para o folclore, o que é que tem feito junto dos artistas jovens no sentido de incentivá-los a enveredar pela música folclórica?

Para os poucos que estão inclinados para a vertente da música folclórica, tenho conversado com eles e sempre que posso, transmito-lhes os meus conhecimentos. Sei que têm recebido de bom grado. Mas, como disse, a maior parte não está virada para o estilo de música tradicional. Está mais inclinada para o kuduro, o house, hip-pop, R&B, estilos que não são a minha praia, nem o meu rio. Até aí, só vejo! Se der para ficar com o pé no ar, fico, se não der, sento e vou simplesmente acompanhando.

Além do Mito Gaspar, uma referência inquestionável da música nacional e do próprio Raúl Negro, que também já tem o seu espaço no mercado; no plano artístico os malanjinos residentes, pouco ou nada fazem para gravar os seus nomes nos meandros da música nacional. Afinal o que é que se passa?

A tua observação é uma realidade. Nós chegamos aonde estamos, fruto de muito esforço, porque vivemos numa cidade do interior. Malanje é uma das 18 províncias de Angola, onde se formos a fazer uma análise daquilo que são as potencialidades, daquilo que são os elementos que devem se constituir para fazer com que os projectos e os programas, do ponto de vista artístico, tenham corpo ou que ganhem alguma dimensão, no actual estado como as coisas estão, não é nada fácil. Nós, ao nível em que nos encontramos (Mito e Raúl) tivemos que envidar esforços maiores para atingir outras províncias, concretamente Luanda, já que é a sede económica do país, e a partir daí podermos disseminar os nossos trabalhos musicais aos quatro ventos. Localmente, é preciso que os artistas definam bem os objectivos se quiserem fazer alguma coisa, em prol das suas carreiras. É através dos objectivos que vão poder juntar métodos e técnicas para o alcance dos seus intentos.

Quer com isso dizer que os jovens artistas malanjinos não têm definido os seus objectivos para pisarem os grandes palcos da música nacional?

Sim. Não basta apenas vontade de fazer apenas por seguidismo ou, se calhar, para trazer ao de cima alguma manifestação emocional, sem um objectivo concreto do que se quer com a música e o ser cantor. Assim não se vai mesmo a lado nenhum! Também, por outra, tenho a ideia de que têm faltado algumas políticas por parte, digamos, da própria área da governação, que tem a responsabilidade de criar premissas para o desenvolvimento da cultura local e, quiçá, nacional. Pois uma vez que houver políticas consentâneas estarão abertas oportunidades àqueles músicos que estiverem organizados com objectivos bem definidos, que sabem para onde pretendem ir e saberão, sim senhor, salvaguardar tais oportunidades para fazerem com que os seus trabalhos sejam vistos a nível nacional e, quiçá, internacional.

Como encontrar saída para tornar o movimento artístico pro-activo?

Parece-me simples. Cabe a nós, artistas, desenvolvermos ideias, sentarmo-nos em torno dos nossos objectivos, delinearmos estratégias de como vamos salvar a música local, que quase cai na letargia por falta, acredito, de esforço de quem tem a responsabilidade de criar políticas para tal.

Com que então, está a querer dizer que falta interacção entre os artistas locais?

Eu acho que sim. Nós temos, em Malanje uma organização que salvaguarda os direitos de autores. Acredito que existe, localmente, um núcleo da União Nacional de Artistas e Compositores (UNAC). A UNAC, no caso, é parceira da Direcção Provincial da Cultura, bem como outras associações do ramo. Se estas por sua vez forem promovendo colóquios, realizando encontros, no sentido de identificar as causas que estão na base da estagnação do movimento artístico da música de Malanje, penso que vamos encontrar caminhos e poder criar premissas para, gradualmente, irmos nos levantando da sonolência em que nos encontramos.

Raúl Negro, tens dois álbuns no mercado discográfico e há onze anos que desapareceu da praça pública. Os teus fãs não sabem do teu paradeiro enquanto artista. Ora, o que é que se passa?

Disse e muito bem, inicialmente, que já temos um espaço no mercado local e nacional. O patamar em que a gente se encontra, quando digo a gente me refiro também ao Mito Gaspar, uma pessoa a quem tiro o chapéu, uma fonte minha de inspiração da música tradicional angolana e, particularmente, malanjina. O Raúl Negro não está desaparecido, digamos assim, do cenário musical. Na verdade tenho tido poucas actividades músico- culturais. Tenho tido poucos espectáculos, mas muito por conta da minha actividade profissional. Como funcionário público e militar que sou, não tenho tido espaço suficiente para poder conciliar a música e a minha actividade laboral. Mas de quando em vez tem havido algumas actividades, sim, onde tenho dado um ar da minha graça. No entanto, as músicas existem. Elas estão aí e tocam em todos os cantos de Angola. O que falta, acredito, é trazer novidades, gravar um novo disco.

Por acaso já tem esboçado a produção de um novo disco para presentear aqueles que gostam da sua música?

Isso é um projecto que já tenho desde 2011. Infelizmente o disco não saiu ainda porque me faltam os apoios requeridos e enquanto o país estiver a lutar para sobreviver na sua situação económica, nós também vamos lutando para sobreviver na nossa condição financeira. Senão, enquanto isso não acontecer vamos continuar a aguardar a gravação desse novo disco, até que as condições estejam criadas ou que caia algum anjo do céu que traga boas novidades, bons ventos, e que consigamos gravar o disco. Ora, nesta altura se aparece alguém disponível para patrocinar, entramos em estúdio e gravamos o disco.

Pode avançar algo sobre o conteúdo do disco?

O disco até já tem um nome. O título é “Iá Ngongo”. Em outras palavras quer dizer que “É do Mundo”. Tudo que é do mundo fica. Quando a gente morre não leva nada e voltamos de mãos vazias como nascemos. Significa que pelas coisas do mundo não devemos maltratar, enganar, matar. Pelas coisas do mundo devemos sempre viver na irmandade, na urbanidade, na amizade, no amor, no prazer e, acima de tudo, na responsabilidade.

Quais são os estilos que vão constar do álbum?

A linha é mesma: o semba, a rumba, o katolo. Tem também algum mbweze e alguma kizomba, mas vai predominar o semba e o katolo.

Onde será gravado e quantas faixas musicais o disco vai ter?

Vai ser gravado em Luanda. Existem vários estúdios disponíveis e o número de músicas vai depender do valor financeiro. Só para teres ideia: só a gravação de uma música não fica em menos de 2500 dólares, ou seja, falando em moeda nacional fica por aí em 300 mil Kwanzas.

Ainda assim, dá para obter rendimentos? Ou o rendimento maior está apenas na fama?

Parece que não!… Quem vive da música como profissional, tem rendimentos, sim. No meu caso pessoal, a gravação do primeiro disco (É Tempo de Crer) foi experimental. Tirei apenas 500 exemplares e não vendi. Ofereci a pessoas próximas. No segundo álbum (Hadi) tive rendimento, sim. Não só tive rendimento com a produção do álbum, mas também com os espectáculos. Pois, em função da concorrência, as vendas podem até terminar seis ou doze meses depois. Mas o rendimento pode ser obtido anos depois. Pelo menos, mesmo passados dez anos desde que coloquei o último disco no mercado, ainda continuo a obter rendimento.

Numa das faixas do “Hadi” fez um dueto com o malogrado Bangão. No próximo trabalho poderá contar com alguma participação?

Eu já tenho alguns nomes seleccionados para fazerem dueto comigo. Preciso de fazer dueto com essas pessoas, porque gosto imenso da sua forma de cantar. Então, gostaria que eles emprestem todo o conhecimento que têm, todo o gabarito que ostentam, para fazer com que o meu pouco mais o que eles trouxerem, façamos uma história, única, de que o público venha a gostar.

Será Mito Gaspar, enquanto sua fonte de inspiração consta da selecção?

Não quero ainda divulgar o leque de nomes que eu tenho. Mas se tiver que ser, será uma mais-valia. Mas também não tem como deixar de ser! Pois, na devida altura poderão saber. Normalmente, quando faço música e escolho alguém para fazer dueto, tenho de perceber que a forma de cantar daquele indivíduo, se assemelha ou vai de encontro ao estilo de música, em como o sentimento desperta o seu íntimo, pela forma como entoa a voz e articula as palavras e assim determino: tem de ser o fulano.

Pessoalmente, que futuro almejas para o movimento artístico musical de Malanje?

A única coisa que eu peço é que, nós, os fazedores da cultura, no caso da música, sejamos responsáveis, organizados, disciplinados e que saibamos definir os objectivos, porque só assim saberemos o que poderemos fazer. De contrário tudo que se fizer cairá em saco roto! Portanto, temos de trabalhar em parceria com as autoridades culturais, a todos os níveis, para que em conjunto possamos desenvolver a arte de cantar e, mesmo a condição do artista.

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