(Actualização) Marcelo Rebelo de Sousa é o novo Presidente da República Portuguesa, sucedendo a Aníbal Cavaco Silva.

O professor de Direito, ex-líder do Partido Social Democrata (PSD) de centro-direita e comentador político televisivo de largas audiências, foi este Domingo o vencedor de um sufrágio marcado pela abstenção muito elevada e pela fraca qualidade dos opositores de esquerda, área política que se repartiu entre vários candidatos.

Os socialistas apoiaram dois: Sampaio da Nóvoa, actual reitor da Universidade Técnica de Lisboa, e Maria de Belém, ex-presidente do Partido Socialista e que integrou o gabinete de António Guterres, actual candidato a Secretário-Geral das Nações Unidas, como ministra da Saúde.

O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista, de cujo apoio o governo do socialista António Costa depende para se manter no poder, optaram por candidatos próprios. Os bloquistas candidataram Marisa Matias, uma jovem eurodeputada (mantendo-se assim na senda de promover jovens mulheres a candidatas a altas funções) e os comunistas lançaram na corrida presidencial um dos seus, Edgar Silva, um ex-pároco e deputado do partido na Assembleia Legislativa da região autónoma da Madeira.

A vencedora clara das eleições presidenciais portuguesas foi a abstenção, que foi superior a 51%.

Entre os votantes,  52,15%  preferiram Marcelo Rebelo de Sousa, afastando assim a hipótese da realização de uma segunda volta, Sampaio da Nova, o candidato de esquerda mais bem colocado recebeu apenas entre 22,78% dos votos, uma hecatombe para as suas pretensões. Desastre maior atingiu a outra candidatura socialista, a de Maria de Belém, que ficou, com escassos 4,24% dos votos, atrás da candidata do Bloco de Esquerda, Marisa Matias, claramente uma das vencedoras da noite eleitoral, conseguindo fixar a votação do seu partido. O contrário aconteceu ao candidato comunista que obteve o pior resultado do seu partido em eleições presidenciais e quase não conseguia superar o candidato independente conhecido como ‘Tino de Rans’.

A novidade destas eleições presidenciais, a que concorreram nada mais nada menos que 10 candidatos, foi o surgimento de candidaturas ‘estranhas ao regime’ instituído e que o puseram frontalmente em causa.

Os candidatos que mais se evidenciaram na denúncia do actual ‘status quo’ luso foram Paulo de Morais, um matemático de formação que se vem destacando na denúncia da corrupção que mina, segundo afirma (e dá exemplos) a elite da classe política e corrói o regime português. É vice-presidente da associação cívica Transparência e Integridade e foi vice-presidente da Câmara Municipal do Porto entre 2002 e 2005, de onde saiu por se recusar a pactuar com a corrupção que lhe passou pelo olhos.

Outro dos candidatos anti-sistema, Henrique Neto, é um militante socialista de longa data, tendo sido deputado entre 1995 e 1999. Henrique Neto apresentou-se como independente a estas eleições e não poupou críticas ao nepotismo reinante na classe política e à ausência de estratégia que vem caracterizando a governação do país. É um empresário de sucesso, conhecedor da realidade económica portuguesa e fez-se valer disso nas suas intervenções.

Também Jorge Sequeira, psicólogo, investigador e professor universitário não foi parco nas denúncias que fez à classe política que domina o país e reparte a mesa do orçamento, acusando-a de incompetente.

Candidataram-se ainda Cândido Ferreira, médico e antigo presidente de uma federação distrital do Partido Socialista, mas que se apresentou como independente, e Vitorino Silva, mais conhecido como o ‘Tino de Rans’, uma figura cómica e popular, que foi presidente de uma junta de freguesia socialista e que alcançou os seus minutos de glória ao intervir de uma forma picaresca num congresso socialista. Curiosamente foi o candidato independente mais votado, superando Paulo Morais e Henrique Neto, o que expressou naturalmente um voto de ‘protesto’ ou de ‘indiferença’ perante os candidatos com hipóteses na compita presidencial por parte de muitos eleitores.

O novo Presidente português, Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa, é filho de um ex-político do antigo regime (Baltazar Rebelo de Sousa, que exerceu, entre outros cargos, o de Governador-Geral de Moçambique e ministro das Colónias) recebeu o nome Marcelo em homenagem a Marcelo Caetano, o último chefe do Governo colonial, padrinho de casamento de seus pais e que esteve para ser também seu padrinho de baptismo.

Antes do 25 de Abril aproximou-se da ala liberal do regime, figurando entre os elementos fundadores do semanário Expresso, ao lado de Francisco Pinto Balsemão, primeiro director do jornal, e de Francisco Sá Carneiro. Aderiu ao Partido Social Democrata (PSD) logo após o 25 de Abril.

Exerceu vários cargos governativos, chegando a ser ministro dos Assuntos Parlamentares no tempo em que Balsemão foi primeiro-ministro.

Após o consulado de Cavaco Silva e a demissão do sucessor deste, Fernando Nogueira, assumiu a liderança do PSD entre 1996 e 1999. Isto depois de, em 1990, se ter candidatado à Câmara de Lisboa, num pleito em que foi derrotado pelo futuro Presidente socialista Jorge Sampaio.

Licenciado em Direito e doutor em Ciências Jurídico-Políticas pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, é o jornalismo e, sobretudo, o papel de comentador televisivo em ‘horário nobre’, desfrutando de grandes audiências, que o catapultam para o galarim da popularidade.

Este Domingo, à saída de uma assembleia de voto, OPAÍS interpelou algumas das pessoas que haviam exercido o seu direito cívico. Nas que confessavam ter optado por Marcelo, e eram a maioria, o mediatismo televisivo do político preponderava. ‘Ele fala tão bem com aquelas meninas na televisão…’, dizia-nos uma eleitora de avançada idade.

Marcelo Rebelo de Sousa, que recebeu a recomendação de voto do centro-direita (formado pelo seu partido, o PSD e o CDS-PP de Paulo Portas que, entretanto, renunciou à liderança da formação), afastada do poder após as eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015, terá de se entender com António Costa, que preside a um governo socialista que depende do apoio do Bloco de Esquerda (de raiz fundamentalmente trotsquista) e do Partido Comunista.

Daí que tenha feito uma campanha assente na simpatia, definindo-se como de centro-esquerda e dispensando a presença nas actividades de campanha dos seus ‘apoiantes naturais’.

A sua eleição é mais um triunfo dos media, pois o professor sabe que teria muito mais dificuldade em impor-se se não tivesse acedido, graças às televisões, ao estrelato do comentário político.

Como será a sua relação com socialistas e seus apoiantes, num momento em que estes procuram cumprir as promessas feitas de devolução de rendimentos e em que a União Europeia não deixa cair as metas orçamentais fixadas ao país?

Marcelo já antecipou que não irá vetar este primeiro orçamento apresentado pelo governo de Costa. E mais à frente, quando as coisas começarem a não correr bem, qual será a posição do novo Presidente português? O tempo responderá.

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