O mundo acordou esta sexta-feira, 24 de Junho, perante uma surpresa: o Reino Unido, a 2ª economia europeia e a 5ª a nível mundial, decidiu, através de referendo, deixar a União. O primeiro-ministro, David Cameron, ainda não eram 09h00 da manhã, anunciou, numa curta intervenção feita frente à sua residência oficial, que vai renunciar ao cargo.

A surpresa teria sido menor se as sondagens de quinta-feira à noite, dia da votação, não apontassem para uma vitória da permanência na União Europeia (UE). Ao longo de semanas as sondagens deram uma vitória ao ‘Brexit’ (associação das palavras ‘Britain’ e ‘exit’, saída), mas, após o assassinato de uma deputada por um elemento nacionalista, favorável à saída da UE, os ventos (das sempre falíveis sondagens) tinham mudado a favor do sim.

Por outro lado, a pressão internacional, os alertas, ou ameaças, vindos dos meios económicos e financeiros levaram grande parte dos analistas a prever que o voto britânico seria ‘sensato’, ou seja, no sentido da permanência na União.

Assim que se soube do resultado, na manhã desta sexta-feira, os mercados foram abaixo, com os índices bolsistas a desabar, o preço do barril de petróleo (Brent) a descer para menos de USD 47,5 (uma queda de 6,5%) e a libra a desvalorizar face ao dólar, atingindo mínimos de três décadas. O euro também caiu e o dólar, por sua vez, depreciou-se face ao iene, a moeda japonesa, o que contraria o esforço das autoridades nipónicas de travar a valorização da sua moeda para que os produtos japoneses não percam competitividade nos mercados internacionais. Como, de repente, tudo pode mudar…

O preço do petróleo Brent, referência das ramas angolanas, para entrega em Agosto encerrara na quinta-feira no mercado de futuros de Londres em alta, a valer USD 50,91 o barril. No entanto, após a quebra verificada esta sexta-feira, na abertura dos mercados, já recuperou entretanto para USD 48,55 por barril (às 17h35 de sexta-feira em Luanda). Se a saída da Grã-Bretanha da União Europeia (um processo que pode consumir dois anos de negociações até se efectivar) pôs em sobressalto os mercados, fez baixar o preço do barril de petróleo, e poderá mesmo, atendendo às incertezas que introduz, abrandar ainda mais o crescimento da economia mundial, não deverá afectar directamente a economia angolana.

O Reino Unido foi o 8º fornecedor de Angola em 2015, tendo Angola reduzido em 32,74%  as suas importações do país europeu – uma quebra acima da média pois, no seu conjunto, as importação caíram 29,41% no último ano . Quanto às exportações de Angola para o Reino Unido, estas foram as que mais aumentaram (cerca de 230%), mas continuam a ter um peso reduzido no total das exportações, sendo o Reino Unido o 12º destino dos produtos nacionais. A perda de valor do euro traduz-se, por outro lado, numa valorização do kwanza face à moeda única europeia, embora o Banco Nacional de Angola mantivesse inalterada, na sexta-feira, a sua cotação de referência. Devido à forte presença da petrolífera BP no país, o Reino Unido é um dos mais fortes investidores no sector petrolífero, uma situação que não depende da sua presença  na União Europeia.

Vitória de efeitos imprevisíveis

Face aos resultados do referendo, em que os britânicos deram 52% dos votos à saída da União, o primeiro-ministro David Cameron, que teve, por razões de política interna, a iniciativa do referendo e fez campanha pela permanência na União, além de anunciar a sua renúncia ao cargo, adiantou que a sua substituição deveria ser assegurada no próximo conclave do seu partido, o Conservador, o qual terá lugar em Outubro. Um calendário que teve a aprovação de Boris Johnson, antigo presidente da câmara de Londres e um seu possível sucessor e que esteve, na questão do ‘Brexit’ do outro lado da barricada, protagonizando uma fervorosa campanha a favor da saída da União Europeia.

O que significa que o Reino Unido não tem pressa e que, muito possivelmente, não preparou um ‘plano B’, a executar no caso de uma vitória do ‘Brexit’.

Acontece que os resultados do referendo britânico, além de colocarem sérios problemas à construção europeia (a chanceler alemã Angela Merkel não hesitou em classificá-los como ‘um duro golpe para a Europa’), reacende divisões no interior da própria Grã-Bretanha. O sim ao ‘Brexit’ apenas contou com 44% dos votos na Irlanda do Norte e 37% dos votos na Escócia, o que significa que estes dois países do Reino Unido desejam ficar na União Europeia. E a Irlanda do Norte conta com uma longa, e violenta, história de separatismo contra o ‘domínio inglês’. A Escócia já realizou mesmo um referendo, em 1974, sobre a sua independência do Reino Unido.

Nigel Farage, líder do partido eurocéptico Ukip e um dos rostos do ‘Brexit’, celebrou a manhã de hoje dizendo que até o sol se abriu para a independência do Reino Unido. Farage e  Boris Johnson são inequivocamente os vencedores da histórica consulta ao povo britânico, mas eles, ou quem venha a liderar o Reino Unido, tem pela frente duras negociações com Bruxelas para definir o processo de retirada da União, à luz do artigo 50 do Tratado de Lisboa, e enfrentar reclamações internas de…independência por parte da Escócia e da Irlanda do Norte, ou seja, a desunião do Reino.

As forças que na Europa combatem o ‘centralismo’ de Bruxelas, eurocépticas ou de direita, saudaram a decisão britânica e exigem referendos para os seus próprios países. Para a francesa Marine Le Pen ‘não é a Europa que morre, é a União Europeia que treme e as nações que renascem’. Na Holanda, o líder do Partido da Liberdade, Gert Wilders, confessou ‘ter inveja’ da recuperação da soberania pelos britânicos e promete tentar fazer o mesmo no seu país no próximo ano. Na Áustria e na Itália ergueram-se as vozes de novas forças políticas, que já possuem significativa expressão eleitoral, a alinhar pelo mesmo tom. A questão da realização de um referendo para decidir da permanência na União Europeia pode mesmo alastrar à Suécia ou à Finlândia.

Irá a Europa da moeda única, da livre circulação e do estado social fragmentar-se aos poucos ou conseguirão os líderes da União convencer as populações de que o chamado ‘projecto europeu’ de integração ainda é o que serve melhor os membros do clube da moeda única? Agora serão os líderes de 27, e já não 28 Estados, a fazer esse esforço num contexto internacional muito difícil. O que se ouviu dos diferentes líderes da União Europeia não augura uma saída fácil do Reino Unido. Todos deram a entender querer ver os britânicos, que deverão ficar com um acordo de associação semelhante ao da Noruega ou ao do Canadá, o mais depressa possível fora da União. Todos com excepção de Angela Merkel, que se mostrou muito mais prudente quanto ao prazo para a negociação da saída britânica. É que, além de tudo mais, a Alemanha é o segundo parceiro comercial da Grã-Bretanha, logo a seguir aos Estados Unidos. Não é por acaso que o índice bolsista mais atingido pelo ‘Brexit’ foi o alemão.

A convocação, antes da reunião dos (ainda) 28 na próxima semana (a que se seguirá uma reunião já só a 27), de um encontro de ‘países fundadores’ da União Europeia, poderá indiciar que, com o ‘Brexit’, se intensificou a tentação de dar corpo à construção de uma Europa a ‘duas velocidades’, em que os países mais desenvolvidos, com a Alemanha à cabeça, se procurariam integrar mais rapidamente do que os restantes.

O destino da União Europeia, desenhada para trazer prosperidade e paz a um continente que viveu as duas maiores guerras da história no último século, e que se confronta com novas condições de competitividade no quadro da globalização, é uma das grandes questões contemporâneas. O ‘Brexit’ é um acontecimento que a marca decisivamente, podendo pronunciar o esfarelamento da integração europeia, complicando ainda mais a situação internacional, já marcada pela forte desaceleração das economias emergentes, queda do preço das matérias-primas, fragilidade do mercado financeiro, crescentes desigualdades, instabilidade geopolítica e ameaça terrorista.

 

 

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