Como o tempo nos transcende a todos, sejamos hoje velhos, jovens ou crianças! É que por mais anos que eu ainda viva neste mundo, nunca me hei de esquecer daquele Cacimbo escaldante de 1975. Mal tinha eu acabado de viver a primeira década das cinco que agora conto com os dedinhos da mão, cujos nomes (polegar, indicador, maior, anelar e mendinho) aprendi na turma da professora tuga – uma grande ensinadora, sem dúvida, mas perdulária na distribuição de reguadas como a «Bate-Muito» do Pedrito do Bié – que minha mestra foi na primeira e segunda classe, ali na Escola Primária nº 294, na rua do Lobito, no Bairro do São Paulo, na Luanda dos tempos que já lá se foram e nunca mais hão de voltar. Mais tarde baptizaram-na Escola 1 de Dezembro, isto já no pós-Independência.

Mas a minha primeiríssima Alma Mater era, pelo menos quando lá me foram matricular em 1971, vulgarmente conhecida por «Escola da Praça», pela proximidade, há pouco mais da distância dum lanço de pedra, da Praça de São Paulo, a herdeira da mítica Quitanda do Xamavu, que vai resistindo ainda, de cal e pedregulho, às investidas demolidoras do Betão-Dilaji-Safoda-AMemória. Desculpem-me por tanto «São Paulo» badalado neste início de crónica. E não é que na Cédula Pessoal da época, que por milagre consegui conservar ileso das calemas e tsunamis existenciais por que marinhei, ainda reza, embora já numa tinta meio exangue: «Fulano de Tal, filho de Adão Kamundanda e de Agustina Kabolokoso, nascido a x de maio de 1960 e Tanto… NATURAL DA FREGUESIA DE SÃO PAULO».

Juro que isso dava-me cá uma gana brava de berrar, batucando o peito de tremenda exultação: «Sou Mussampolo pá! E a sê-lo, de clara e de gema, hei de morrer um dia». Mas alto aí – um grito sem preconceitos nenhuns, nem pretensões ou quaisquer azos de discriminação conterrânea contra os patrícios ou adventícios de todas as idades, raças e patoás que, tal como poetou Filipe do Lado Gumbe, embarcaram em kupapatas, kangulus, camiões, canoas, Baleias de Jonas, Antonovs, e até mesmo a bute, de todas as longitudes e pelas mais insondáveis motivações, mandando-se embora rumo à acolhedora Luanda – a terra minha, terra tua, terra nossa, por Damásio trovada – a ver se, em definitivo, a vida lhes andasse para melhor.

Como dizia no início, o Cacimbo se tinha escaldado por Angola inteira, na segunda metade de 1975; e tudo pelo fiasco em que se havia saldado o Governo de Transição, um «ménage à trois» político-administrativo parido dos entendimentos do Alvor entre Portugal e os Movimentos de Libertação. É que na história dos povos e das nações, quer se queira quer não, ocorrem sempre anos tumultuosos. Como aquele que Víctor Hugo, grãoduque da literatura francesa, imortalizou num capítulo de «Os Miseráveis», seu romance monumental.

De facto, o ano de 1815 destacou-se por uma série de eventos de relevância histórica tanto na Europa como na França, entre eles a derrota de Napoleão em Waterloo. E assim também o foi, cá para nós, 1975, o ano do novembro inaugural, em que garoto adventício, natural de São Paulo de Assunção de «Loanda», desembarquei em São Salvador (do Congo), como era então conhecida Mbanza Kongo, a actual capital da província do Zaire. Um Mussampolo no terreiro dos Bassânsala! Comparado a Luanda cosmopolita do final da colonização portuguesa São Salvador era de longe um autêntico lugarejo. Uma pequena aerogare, cuja pista mais parecia uma vasta picada poeirenta correndo por detrás do edifício da missão católica, fazia de contas de aeroporto local.

Vivia-se um ambiente urbano-rural temperado com ingredientes de dia-a-dia exótico, próprio dum recanto do país a escassos quilómetros da fronteira com o então Zaíre nos postos do Luvo e do Nóqui. A tal ponto que era usual alguém em viagem para a República vizinha, ao ser questionado sobre o dia do seu regresso, responder animadamente: «Muna Lúndi», ou seja, na segunda-feira! Sendo o Lúndi nada mais senão a corruptela kikongo para o Lundi (lêndí) francês. Por esses dias pairava sobre a cidadezinha do noroeste angolano um ar de derrota anunciada.

A marcha indolente dos soldados pressagiava os lodos dos pântanos onde muitos deles iriam atolar as botas em novembro, no «Waterloo do Quifangondo», às portas da capital. Mas havia também notas de alegria naquele cenário, pacato e recatado, à distância dos tiroteios da guerra civil que ensombrava o país de lés a lés, a poucos meses da sua ascensão à soberania internacional. Por essa altura fazia furor em São Salvador o refrão lamurioso dum hit do VéVé, renomado saxofonista e empresário musical zairense, intitulado «Ndona», estória da mulher amada que tendo abandonado marido e filho embrenha-se nas teias lúdicas da infidelidade conjugal.

Era comum ver soldados e populares em bar ou tasca dançando e cantando em coro: «Ndona eh Ndona…/ Ndona nani kudila Ndona / Ndona mama Ndona, nani kusansila mwana… / Ndona, Ah Ndona… Tala mwana ta ndila…», afogando tristezas e incertezas sobre o futuro nas rodadas apetitosas da Primus, a cerveja trazida por camiões em proveniência de Matadi e Kinshasa…

E o tempo passou, pois já lá se foram quarenta e dois anos; e com eles, na minha cabeça os cabelos brancos chegaram. E ao ruminar agora essas minhas velhas reminiscências, assalta-me a vontade ingénua de perguntar: Terá havido naqueles dias, no meio da barafunda toda, em Paris, Roma, Libreville, Lisboa, Huambo, Moxico, Luanda, Havana e seja mais onde for, alguém com cabeça para cismar que nas entranhas das subterras de São Salvador/Mbanza Kongo jazesse alguma cidade-fóssil por desenterrar das cinzas da memória para o Panteão Universal da História? Quem diria, hein?! Bem-aventurados os que por lá estão sepultados! Honra e glória aos seus valorosos feitos. É coisa para gritarmos hoje em uníssono, a plenos pulmões, para a África e o Universo inteiro à nossa frente: «Salve, Mbanza Kongo, o Património Histórico da Humanidade! » E que bem haja Angola, nossa Mãe Pátria: unida, pacificada e reconciliada!

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