Cerca de quatro horas e meia após ter sido desencadeado um golpe de Estado na Turquia para afastar do poder Recep Tayyip Erdogan, uma rebelião que o mundo inteiro acompanhou em directo através da televisão e da Internet, o Presidente turco desembarcou em Istambul onde, ainda no aeroporto Ataturk, classificou a rebelião como ‘uma prenda de Deus para limpar o Exército’.

Os autores da fracassada tentativa de golpe vão pagar caro a sua iniciativa. ‘Esta tentativa de golpe de Estado é um acto de traição, uma rebelião e, é claro, aqueles que traíram este país, vão pagar um preço muito alto pela sua traição. Esta é uma rebelião que levará a uma purga no exército turco, que deve permanecer livre de traidores. Vamos realizar uma reunião do Conselho Supremo Militar, no início de Agosto. Estas iniciativas, estes actos, serão devidamente avaliados por este conselho’, afirmou Erdogan.

O Presidente turco responsabilizou ainda um líder religioso  que se encontra no exílio, e que já foi seu apoiante, pela tentativa de golpe, que terá, segundo algumas fontes, partido de um núcleo da força aérea turca conhecido como ‘Batman’.

Antes, populares e polícia haviam retomado o controlo da televisão turca e, nas ruas, a população parecia ter a movimentação militar golpista  bloqueada. Isto, após um apelo feito pelo Presidente Erdogan através da CNN turca para que a população saísse à rua em defesa do governo e das redes sociais terem accionado um autêntico ‘contra-golpe’ popular. Erdogan, que utilizou o ‘Face Time’, uma aplicação da Apple, para comunicar com a imprensa, dizia-se preparado para voltar à capital da Turquia e restabelecer a autoridade.

Um golpe de Estado a que o mundo assistiu em directo, quer através das televisões quer através da Internet e também uma tentativa de golpe cujos autores subestimaram o poder da comunicação no século XXI. A Turquia, que conta com um vasto registo de golpes de Estado na sua história recente, protagonizou o seu primeiro golpe dos tempos modernos.

Tudo começou esta sexta-feira, por volta das 20h50 (hora de Luanda), quando forças do exército passaram a controlar as principais zonas de Ancara e Istambul e ocuparam o palácio presidencial turco. Os revoltosos eram chefiados por cerca de 40 altos comandos militares , denominado ‘Conselho para a Paz na Pátria’, que exigia a demissão do Presidente antes de declarar um cessar-fogo e impôr a lei marcial no país. Os militares afirmaram querer repor a laicidade do Estado turco e preparar uma nova constituição.

Helicópteros e aviões militares  sobrevoaram as principais cidades turcas, nomeadamente Ancara e Istambul, tendo disparado contra a sede da polícia, fiel a Erdogan. Um helicóptero militar atacara o edifício da Direcção de Segurança na capital, antes de dois bombardeamentos atingirem o parlamento e as imediações do palácio presidencial em Ancara.

Os voos com partida marcada no aeroporto de Istambul foram cancelados e tanques ocuparam a aerogare.

O primeiro-ministro, Binali Yıldırım, confirmou a tentativa de golpe de Estado. ‘Esta é uma tentativa de golpe de Estado. Estamos a considerá-la como um levantamento militar, que não vamos deixar ter sucesso. Aqueles que fazem esta tentativa vão pagar um preço pesado’, disse o líder do Executivo aos jornalistas, citado pela imprensa turca.

A maioria dos canais de televisão turcos foram fechados e os que se mantiveram em funcionamento veiculavam informações favoráveis aos militares revoltosos. Na televisão pública turca (TRT) uma apresentadora lia repetidamente um comunicado das forças insurrectas. A Internet estaria, segundo as primeiras informações  fortemente condicionada e as redes sociais teriam sido bloqueadas, o que não se veio a confirmar e terá sido fatal para os revoltosos. O Facebook funcionava. No You Tube sucediam-se vídeos em que helicópteros disparavam e aviões militares sulcavam os céus de Ancara. E, curiosamente, as redes sociais, antes perseguidas por Erdogan acabaram por constituir o seu maior trunfo. As forças favoráveis ao Presidente turco utilizaram-nas para mobilizar a população contra os revoltosos.

As coisas mostravam-se bastante confusas, havendo relatos de que uma explosão violenta ouvida em Ancara teria sido originada pelo abate de um helicóptero alinhado com os insurrectos por um jacto tripulado por militares favoráveis ao governo de Erdogan.

Milhares de apoiantes de Erdogan ocupavam as principais artérias de Istambul e Ancara correspondendo ao apelo do Presidente turco. Ouviram-se disparos em Istambul, havendo a registar vítimas civis na sequência de disparos de um helicóptero revoltoso que procurava afastar populares de uma ponte sobre o estreito do Bósforo.

A verdade é que milhares de apoiantes de Erdogan conseguiram bloquear a mobilidade dos militares revoltosos. Avançavam para os insurrectos lançando apupos, brandindo smartphones e não resistindo a umas ‘selfies’. Às 00h40 de Luanda já os pratos da balança se inclinavam para o lado das forças leais ao Presidente Erdogan, indiciando que a tentativa de golpe desencadeada ao princípio da noite de sexta-feira poderia abortar.

E, de facto, fracassou, com um saldo de, pelo menos, 204 mortes, entre as quais a do general que supostamente liderou o golpe. Mais de 1.150 pessoas ficaram feridas.

Na manhã se sábado, em Istambul, as televisões mostraram a rendição de dezenas de militares próximos dos golpistas e as autoridades anunciaram  ter libertado o chefe do Estado Maior do Exército, o General Hlusi Akar, que tinha sido sequestrado ao início da noite pelos golpistas. O primeiro-ministro turco publicava o vídeo do general Akar, após ter sido resgatado dos sequestradores.

Os principais líderes ocidentais mostraram-se prudentes face à situação na Turquia, mas não condenaram veementemente o golpe, apelando a que se evitasse um ‘banho de sangue’. Só em Damasco, capital da Síria, se tomou explicitamente posição, festejando-se o golpe contra o governo turco.

Os analistas revelaram alguma surpresa com o facto de a rebelião militar desencadeada ao princípio da noite de sexta-feira ter escapado ao controlo da polícia secreta turca. Um lapso a que se seguiu um outro, cometido pelos golpistas, que subestimaram o poder da comunicação, acabando por não conseguir, após ocupar as ruas das principais cidades, impor politicamente os seus objectivos em tempo útil.

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, encontrava-se de férias no sul do país quando foi desencadeado o golpe, uma oportunidade que os militares rebeldes procuraram aproveitar.

Informações recolhidas por OPAÍS permitem afirmar que todos os elementos da Embaixada de Angola em Ancara se encontram bem.

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