Já foi um dos mais respeitados comentaristas desportivos do país. A sua voz ecoava pelos quatros cantos do país, primeiro através da Rádio Cinco, da Rádio Nacional de Angola, e, posteriormente, por outras emissoras particulares.

Zeca Martins pode estar de regresso para analisar a vida dos clubes, as selecções nacionais, o Girabola e os meandros da Federação Angolana de Futebol (FAF), que elegeu recentemente Artur Almeida e Silva como novo presidente.

Mas, antes do retorno, se se vier a consumar, é nas páginas deste diário que este apaixonado pelo Petro Atlético de Luanda apresenta os seus pontos de vista sobre o futebol angolano, o dirigismo e o desaparecimento das infra-estruturas. E não se esqueceu do CAN de 2010, que para ele foi ‘um mal para o país’.

 

Tem dito de forma recorrente que está reformado. O que quer dizer com isso?

Estou reformado do jornalismo desportivo que fazia e também da empresa onde eu trabalhava, que é a Sonangol. Então estou duplamente reformado. Já não faço nada na Sonangol e no jornalismo desportivo desde 2006, que foi o último ano em que tive actividade na Rádio Eclésia.

Desliguei-me do desporto angolano. Também só traz tristeza! Não traz alegria. O meu clube, que é o Petro, está no chão. A selecção está aquela miséria que toda a gente sabe. O futebol angolano não evolui, os problemas que deixei persistem. Portanto, estão enraizados. Preferi não ouvir mais nada, não saber de mais nada e levar a minha vida.

Não acompanha o futebol angolano há quanto tempo?

Desde 2006.

Quais foram as razões?

São estas que mencionei. Nada muda e está tudo igual. Os clubes não têm qualidade, estão sem dinheiro, os jogadores não são pagos e as idades continuam a ser viciadas. A selecção é aquela miséria, a federação outra, então está tudo igual.

O que é que se vai dizer ou fazer de jornalismo numa situação destas? Já falei demais durante muitos anos e não gostaria de ser repetitivo. Por outro lado, como não gosto destas situações – e por isso é que as criticava- já não me interessa inteirarme delas. Preferi acompanhar e fazer outras coisas.

Quais são as últimas boas referências que tem do futebol angolano?

Acho que já se apagaram, inclusive da minha memória. Mas, a única grande e boa referência que tenho do futebol angolano remonta a 2006, que foi quando estivemos na Alemanha.

A nossa qualificação para o Mundial foi, para mim, o maior feito, a maior conquista do futebol angolano. Neste aspecto, tenho que pôr o nome do autor, que foi Oliveira Gonçalves, que fez um trabalho sensacional. Ele vai ficar para sempre nos anais do futebol angolano.

O seu nome ficará gravado para sempre por este aspecto, embora, na minha opinião, ele tenha outras coisas que eu também muito censurei e que muito prejudicaram o futebol angolano. Portanto, em termos de bom, a melhor coisa do futebol angolano, para mim, foi a nossa ida ao Mundial.

Que coisas terão sido feitas por Oliveira Gonçalves a ponto de ter prejudicado o futebol angolano, tendo em conta que existem muitas pessoas que defendem o seu regresso à selecção nacional de honras?

Já disse que ele está no melhor. A melhor coisa que aconteceu tem a chancela, a assinatura e a mão do Oliveira Gonçalves. A pior foi aquele nosso campeonato de sub-20 de 2001, que foi uma das coisas que mais ajudaram a enterrar o futebol angolano.

Ganhamos este título ou tivemos este êxito assente em idades viciadas e isso convenceu muita gente, incluindo o próprio Oliveira Gonçalves, de que estava a fazer um bom trabalho, quando estava a matar definitivamente o nosso futebol.

A partir daí achouse que cortar cinco, seis, sete ou oito anos nas idades dos nossos jogadores é que era mesmo o caminho certo para o êxito e para o sucesso. Mas, para mim, sempre foi o grande problema do nosso futebol. Consta que Carlos Alhinho também teve esse tipo de procedimento.

E todos os treinadores angolanos que treinaram as camadas de formação do futebol angolano são cúmplices desta parte negativa que enterrou até hoje o futebol angolano. Tudo tem solução, só é preciso que haja vontade.

Quando é que começamos a perder os escalões de formação?

Não faço ideia, mas há muitos e muitos anos. Já estou a falar em Carlos Alhinho, em Oliveira Gonçalves, mas antes já havia essa adulteração das idades, só que talvez não com essa acutilância. Mas sempre houve. Aliás, nós vemos os nossos fenómenos, os nossos grandes jogadores, como Akwá, Mantorras, que nunca foram a lado nenhum. Talvez, o que esteve mais próximo de ir a algum sítio tenha sido o Mantorras, mas com muitos anos cortados na idade.

Pode explicar?

Eram jogadores que jogavam em todos os sub e também na selecção principal, o que é impossível. Os Messi, Cristiano Ronaldo e outros nunca fizeram isso. Só nós aqui é que tínhamos estes fenómenos? Quem quiser que pense com a sua cabeça.

O caso da adulteração das idades levou-o à então Direcção Nacional de Investigação Criminal (DNIC). Ainda se lembra muito bem disso?

Lembro-me. Sei que foi uma fantochada montada pelos elementos da Federação Angolana de Futebol (FAF). Só posso dizer que foi uma tentativa de me intimidar e coagir. Mas, como sempre tive a certeza da minha verdade, desafiei todos eles e gostaria muito que este processo tivesse ido até às últimas consequências. Seguramente que eu teria tido a capacidade de trazer para cá a CAF e a FIFA para acompanharem este processo e verem como é que se manipulava as idades em Angola. Depois iriam seguir para África, porque é tudo igual.

Terá sido a adulteração das idades que fez com que não houvesse êxito nas competições como os iniciados (vulgo caçulinhas), juvenis e juniores?

Nos caçulinhas começou o vicio da falsificação. Havia a psicose de ganhar a qualquer preço. O objectivo de quem pensou e organizou estas competições era de dar a oportunidade ao aparecimento de novos valores, que houvesse competição para os miúdos, garotos ou crianças, mas depois os mais velhos tomaram conta da situação e foi a psicose de ganhar a qualquer preço. A partir dai matou-se tudo.

Acompanhou as eleições na Federação Angolana de Futebol?

Soube que ganhou a lista do Artur de Almeida e Silva inesperadamente. Mas não acompanhei, nem de perto nem de longe.

Porquê acha que foi inesperadamente?

Porque, sinceramente, não apostava no Artur (de Almeida e Silva).

Por quê?

Não sei. Nunca me inspirou grande confiança como líder. Acho que o (José Luís) Prata tem mais nome e expressão no futebol angolano. É a minha opinião, mas como estou a afastado há 10 anos, não sei…

E o que pensa de Osvaldo Saturnino de Oliveira ‘Jesus’, o concorrente da lista C?

Nunca foi, na minha opinião, elemento de trabalho. Foi um grande jogador, mas no resto não, pelo menos ao nível do futebol. Ele tem outras prioridades na vida e não sei porquê que se meteu nisso.

Artur Almeida e Silva, que já foi vice- presidente da FAF, venceu de forma convincente nos dois principais círculos eleitorais, nomeadamente Luanda e Benguela. O que se poderá esperar dele?

O facto de ter dito que não contava, ou não acreditava muito no Artur não quer dizer que não lhe reconheça trajectória no desporto angolano, especialmente no futebol. Conheci o Artur no Vitória do Sambizanga. Espero que ele tenha a capacidade de liderar este barco e ajudar a crescer o futebol angolano, porque acho que será uma das últimas esperanças de regeneração do futebol em Angola.

Os clubes estão moribundos, não existem, nas províncias não há competição. Vamos pôr isso como pirâmide: as selecções e o Girabola são o topo. E a base? O que é que existe nas províncias? Há campeonatos provinciais? Há campeonatos de formação? Aliás, tanto quanto sei, para se jogar no Girabola, no tempo em que ainda comentava, era obrigatório ter escalões de formação.

Será que isso ainda existe? Será que esta prerrogativa ainda é cumprida e exigida? Voltando ao Artur, espero que ele tenha capacidade de liderar. Acredito que seja um homem dedicado, empenhado e que quer, de facto, ajudar o futebol angolano. O futebol angolano está moribundo, precisa mesmo de ajuda.

 

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