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Proliferação de seitas religiosas merece avaliação de causas sócio-psicológicas

“O fenómeno religioso não deve ser analisado apenas na óptica jurídica, mas também na psicológica, sociológica e antropológica, bem como na teológica, psiquiátrica, histórica, política e sócio-cultural”, diz académico

Por: Alberto Bambi

O psicólogo Carlinho Zassala defende atenção urgente e necessária para as motivações sociais e psicológicas que considera estarem na base da natureza de muitas investidas, oportunamente invocadas como causas religiosas ou divinas, protagonizadas por indivíduos que se fazem passar por pastores, sacerdotes, profetas, diáconos ou evangelistas, que, segundo ele, se vão tornando comuns no país.

“Tendo em conta que o comportamento social tem como base as atitudes que o cognitivo é a mola impulsionadora e a componente mais forte das atitudes sendo que os conhecimentos que são transmitidos pelos agentes de socialização, como os pais, determinam o comportamento social dos angolanos, é necessário que a questão dos actos com impacto negativo supostamente religiosos mereçam um estudo aprofundado de causas sociais e psicológicas”, sugere o académico, tendo reforçado o facto de a família ser a célula da sociedade, seguida pela escola e as organizações partidárias, religiosas, além de outras forças que interferem no comportamento social. Servindo-se do preceito segundo o qual Angola se afirma como um Estado laico,

rapidamente emendou dizendo que a sociedade angolana não se revia em tal condição. Para dar sustentabilidade às suas alegações, referiu-se ao recente acontecimento insólito tornado público pelos órgãos da comunicação social, sobre os pastores que pretendiam ressuscitar uma mulher de 28 anos, na cidade do Lobito.

“Quando o director do Gabinete Jurídico do Ministério da Cultura foi questionado, deu uma resposta do cunho jurídico em termos de igrejas reconhecidas e não reconhecidas”, lembrou Carlinho Zassala, acrescentando que, se estivesse no lugar do referido dirigente, evitaria o termo igrejas, porque nem todas as confissões religiosas são igrejas.

O entrevistado fez ainda alusão às estatísticas difundidas pelo Ministério da Cultura de Angola, que dão conta da existência de 81 igrejas reconhecidas e mil e 200 não reconhecidas. Alertou aos membros do nosso Governo e à sociedade angolana sobre o fenómeno religioso dizendo que o mesmo não deve ser analisado apenas na óptica jurídica, mas também na óptica psicológica, sociológica e antropológica, bem como teológica, psiquiátrica, histórica, política, além da sócio-cultural.

Carlinho Zassala sugere que se constitua, com urgência, uma Comissão Técnica Multidisciplinar destinada a analisar os critérios de avaliação e de acreditação, e o impacto das mensagens dessas confissões religiosas no comportamento dos angolanos.

“Na nossa opinião, devem integrar essa comissão os ministérios da Cultura, Família e Promoção da Mulher, Juventude, Justiça e Direitos Humanos, da Saúde, o Instituto Nacional de Assuntos Religiosos (INAR), a Ordem dos Psicólogos de Angola, assim como a Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST), o Conselho das Igrejas Cristãs de Angola (CICA) e outras especialidades que se achar convenientes”, aconselhou o doutorado em Psicologia Social e da Personalidade, que disse ter muita informação sobre as denominações e o fenómeno religioso.

E considerou que só as designações das confissões religiosas já suscitam algum conflito, citando como exemplo, as igrejas evangélicas de louvor, de unidade, igreja de salvação, bem como a evangélica mensagem do último tempo e da verdade, classificando- as como sendo da mesmíssima linhagem, conforme deixou bem claro.

Pastores actuam isolando as vítimas

O aviso é dos psicólogos que trabalham nas psiquiatrias, nos serviços de psicologia de várias instituições de Saúde, que têm consultórios, e estão a testemunhar um aumento alarmante de alterações de personalidade, problemas mentais caracterizados por alterações do sistema cognitivo (perda ou ausência do raciocínio lógico) de espírito crítico, de isolamento social, de espírito de revolta e de rebelião no seio da família, suscitando uma forte inclinação de fuga da família, tendência de hostilização dos pais e outros familiares e logorreia ou diarreia verbal, que consiste em falar demasiadamente sob forma de discurso sem conexão, pronto a sofrer em nome do profeta ou do pastor.

“Os pastores enganadores utilizam a astúcia de um predador que isola a presa para melhor atacar”, alertou o académico, uma prática que considera como bastante grave, porque está a conduzir o país à desagregação social. Finalmente, apelou para que o Estado proteja os membros da sociedade angolana, principalmente os adolescentes, jovens, as mulheres e crianças que caem facilmente nas garras desses predadores, devido ao seu estado de baixa auto-estima.

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