O angolano e o – não – hábito de poupança

Falar de poupanças no contexto Angolano remete-nos a avaliar às quantas andamos nesta matéria. Estaríamos de todas as formas a tentar valorizar a participação do cidadão no desempenho da Economia. Estaríamos de igual modo a estimar como as famílias se organizam para responder a arte de guardar hoje o que pretendem beneficiar amanhã e responder ao sábio ditado; ‘é no poupar que está o ganho’.

POR: Lauriano Tchoia

Diante de um pressuposto simples de abordagem das ciências económicas, não podia deixar de aferir o inverso da nossa acção enquanto poupadores, se olharmos para os países que perfilam em primeiro plano nas reservas, com a participação activa do seu cidadão no celeiro financeiro, dando a ver os exemplos dos principais cinco países cuja quota percentual das poupanças intervém no seu PIB: 1. Qatar 59%, 2. Kuwait 55%, 3. China 51%, 4.

Arábia Saudita 48%, 5. Guiné Equatorial 46%. O que ocorre na verdade nos contextos acima mencionados é a participação activa das populações no espólio financeiro, procurando ajudar na mitigação dos diversos riscos e tornar a sociedade mais estável e robusta do ponto de vista de activos financeiros e reservas. Contudo, voltando para o nosso circuito questionamos: onde andamos nós os Angolanos? Acredito que ainda estamos sitiados do lado inverso da roda, se verificarmos os diversos relatórios da nossa banca quanto à distribuição de recursos por segmento e buscarmos dois exemplos típicos: Salta-nos à vista como primeiro cenário os atropelos que damos próximo dos ATMs, os famosos multicaixas desta era digital, no período temporal entre finais e princípios dos meses, assistindo à disputa de quem vence no sprint de espremer todo o salário num único click e, se possível espreitar no orifício da máquina mágica, a ver se por algum bruxedo ou distracção do seu software ainda sobeja algum tostão encravado para retirar como bónus desmerecido.

Outro espectáculo à luz natural (e passível de gala) rija é observar como nos atiramos, quais acrobatas em aranha céus de Hong Kong, quando se anuncia uma campanha qualquer de crédito. Corremos como endemoniados para o endividamento, sem no mínimo medirmos as consequências que advêm da nossa pouca perícia em gerir passivos. Os cenários acima sugeridos, a serem aceites pela maioria de nós, levam-nos a anuir que estamos feitos autênticos instrumentos de consumo, sem receio do amanhã porque o que conta para nós é apenas o hoje, o agora, o resto não passa mesmo do resto. Claramente podemos concluir que o Angolano poupa pouco, também não se sente incentivado a fazê-lo e se o faz, na maior parte das vezes fá-lo mal, muito mal.

Infelizmente é este o angolano que salta à vista e é este que deve ser ajudado a mudar? O exercício primário passa por fazer que as poupanças façam parte da cultura do individuo e das famílias como núcleo social. Pelo sim ou pelo não, felizmente, na primeira oportunidade esta (família) aconselha-nos a poupar, mas quase nunca elucida como fazê- lo de maneira certa, mostrando caminhos, apresentando soluções. Temos de reconhecer que também acontecem iniciativas colectivas de grupos consanguíneos, mas quase todas morrem durante o parto ou com o andar do tempo, por pecarem nos objectivos e na gestão. No entanto e de forma contrária ao propósito, é a mesma família que se junta bastante para apelar a despesas e dívidas com actos pontuais como organização de casamentos, aniversários, funerais festivos e almoços com esbanjamentos infindáveis.

O quadro pode não parecer assim tão grave, porque reconhecemos o uso dos métodos tradicionais de poupanças. Aliás, o mais usado, que se resume em investir em bens como gado, terreno, casa etc., cujo método ajuda num determinado contexto, mas com diversas limitações de crescimento. Na lógica em assumir que “o país que não poupa não cresce”, precisamos rever com urgência a nossa inteligência financeira, aprimorar a nossa maneira de contribuir para o funcionamento do sector económico e isso passa por poupar, para que este recurso se transforme no sangue que bombeia os órgãos vitais e possa levar oxigénio ao cérebro da nossa economia.

Apela-se o surgimento de intervenientes devidamente orientados, para timonar a temática junto de núcleos de especializações financeiras, áreas de formações e do saber, escolas, igrejas, grupos de interesses etc, com vista a treinar o cidadão com o ABC da poupança, faze-lo perceber a riqueza por detrás disto, fazendo que se deixe de pensar que o exercício da riqueza depende da sorte grande que nos faça cair em mãos valores apetecidos para a realização do sonho milionário. Precisa-se desenvolver esquemas de poupanças individuais e colectivas, necessitamos de orientar o cidadão, as comunidades e os empreendedores a errarem de maneira mais reduzida, porque a continuar assim, estaremos condenados a irmanar a cigarra que cantarolava de galho a galho durante o verão e sentir depois o terrível e implacável abono da fome, enquanto a formiga trabalhadeira sorria de fartura durante toda a estação do inverno. Voltamos a sugerir que “é no poupar que está o ganho”.