Cultura combate proliferação de igrejas com plataformas

Trata-se de grupos congregacionais de diferentes confissões religiosas que se propõem ter apenas uma legalização. a adesão à CiRa, uiESa, iCCa e CONiCa depende única e simplesmente de cada congregação

Por: Alberto Bambi

A directora do Instituto Nacional dos Assuntos Religiosos (INAR), Josina de Carvalho, informou a OPAÍS que o Ministério da Cultura(MINCULT) encontrou na criação das plataformas um instrumento de controlo, regulação e orientação de inúmeras igrejas espalhadas um pouco por todo território nacional.

“A ideia dessas plataformas é congregar um número considerável de denominações religiosas, a fim de se instituir uma legalização colectiva que não fira as convicções particulares de cada confissão, daí que o apelo do Governo vai no sentido de estas denominações se organizarem em plataformas”, disse Josina de Carvalho, tendo revelado que cada um dos referidos quatros agrupamentos contém mais de cem igrejas.

O Conselho de Igrejas de Reavivamento de Angola (CIRA), as Igrejas de Coligação Cristã de Angola (ICCA) e a União das Igrejas do Espírito Santo de Angola (UIESA) constam na lista do quarteto das plataformas, que fica completa se se tiver em conta a Comunidade de Igrejas Cristãs de Angola (CÓNICA).

Esta última era, há algum tempo, a que agregava mais confissões religiosas, devido à liderança do invocado pastor Antunes Huambo, actualmente administrador do Distrito da Cidade Universitária, de quem os filiados esperavam facilidade de legalização devido ao seu novo estatuto na cena política. Entretanto, hoje, regista-se uma dispersão constante de uns grupo para outros, segundo apurou a reportagem deste jornal a partir de alguns líderes religiosos que estiveram no INAR, na manhã de Quinta-feira, 8, os quais advogavam vantagem actual do ICCA, a plataforma encabeçada pelo reverendo Luís NGuimbi.

Josina de Carvalho reconheceu que a proliferação de igrejas e das consideradas seitas religiosas é imparável, sendo que, por essa e outras razões, o Ministério da Cultura, por via do instituto que dirige, está a registar tais denominações. A directora do INAR confirmou o alegado facto segundo o qual os bairros Golfe I e II e Palanca, localizados no município do Kilamba Kiaxi, constituem as zonas com mais confissões religiosas, tendo, na ocasião da entrevista, mostrado a intenção do Ministério de reforçar o controlo das igrejas emergentes.

Aliás, a classificação que dá conta dessas congregações como não legalizadas foi refutada pela responsável, que emendou dizendo que se tratava de igrejas em via de legalização.

Devotos desmentem acusações A reportagem de OPAÍS visitou, na última semana de Janeiro, algumas zonas de concentração massiva de congregações religiosas no Palanca, município de Kilamba Kiaxi, saltando à vista a preocupação de moradores e crentes de diferentes igrejas, em relação à tão invocada Mensagem do Último Dia ou seguidores de William Branhan. Seguem os ensinamentos de William Branham, o cidadão americano que dizem ter recebido o sinal de Deus e tê-lo interpretado da melhor forma possível.

Os fieis desta confissão religiosa, no entanto, são acusados de terem um comportamento adverso às normas religiosas, ao ponto de rejeitarem a integração no mercado de trabalho oficializado, negarem a trindade e rejeitarem a convivência com pessoas de outras religiões. Em defesa da sua confissão religiosa, os Irmãos Lutumba e Mendes começaram por assegurar que a igreja Mensageiros do Último Tempo e os seus tabernáculos eram reconhecidos pelo Estado Angolano, algo que, segundo eles, se podia confirmar pelo Diário da República.

Adiantaram que, além de Luanda, a referida congregação se encontra disseminada em províncias como o Zaire, Bengo, Cuanzas Norte e Sul, bem como Huambo, Bié e Huíla, sendo que a mensagem atingia outras nações africanas da região sub-sahariana, como era o caso de São Tomé, onde foi enviado um pastor que saiu da Sede dos tabernáculos de Angola, localizada no bairro Palanca, em Luanda. “Toda a pregação aqui é feita na base da Bíblia Sagrada, como está escrito em Amós, Capítulo 3, Versículo 7”.

Convivência preocupa psicólogos Vale lembrar que, no final de Janeiro último, a Ordem dos Psicólogos de Angola (OPsA) teve um encontro com o Ministério da Cultura, no qual o seu Conselho Nacional manifestou profunda preocupação com a proliferação de igrejas ou seitas religiosas, tendo recebido a promessa de se agendar um programa de actividades que encerre avaliações de legalidade e acreditação que será levada a cabo pelo ministério em causa.

Antes disso, a ordem tinha remetido uma carta aberta à Assembleia Nacional, a cujo teor OPAÍS teve acesso. Referia-se sobre dados oficiais das confissões religiosas existentes em Angola, segundo os quais, mais de mil e 200 eram ilegais e apenas 81 estavam legalizadas. A extorsão de dinheiro e de outros bens de valor considerável é apontada na missiva como factor do desrespeito dos preceitos básicos e espirituais da igreja cristã, bem como de interesses políticos não confessos e desestruturantes da família angolana.

“Intrometer-se na Cultura angolana, por exemplo, ao ponto de as seguidoras não poderem cuidar do seu corpo, da beleza feminina, além de as proibir de usar brincos e outras joias, levandoas a um teórico envelhecimento precoce, o que pode resultar numa subjugação da mulher”, vem expresso no documento entregue às entidades supremas de Angola, que ainda se preocupam com o facto de tais doutrinas poderem criar um clima de conflitos, desobediência e revolta entre filhos, país e outros integrantes de família.

Outra situação que veio plasmada no documento em causa tem a ver com a suposta incitação por parte dos líderes de certas confissões religiosas aos seus correligionários para estes não poderem partilhar a vida com aqueles que não são da mesma seita, promovendo, desta forma, processos malignos de socialização.

O elevado nível de desestruturação familiar e social, a crença na feitiçaria no seio da família e o crescente nível de patologias do fórum mental provocadas pela incapacidade de absorção de conceitos e preconceitos dessas novas confissões religiosas, muitas vezes dissonantes do sistema cognitivo existente, que chegam ao ponto de provocar a perda da capacidade de um raciocínio lógico do espírito crítico do fundamentalismo religioso, do fanatismo em torno do pastor ou profeta, ou seja, à despersonalização, são analisados nesta epístola e classificados como sendo sua consequência.

INAR sem competência de legalizar
apesar de o instituto Nacional para os assuntos Religiosos não ter competência para legalizar as igrejas, conforme deixou bem patente a directora, que apresentou o seu papel de registador, a instituição não deixa em mãos alheias nenhuma solicitação. Por via de tais petições, o iNaR inteira-se sobre as doutrinas defendidas pelas congregações para poder perceber e orientar melhor as igrejas a pautarem por uma postura social e religiosa que promova uma boa convivência, contribuindo para a educação e valorização dos princípios morais e éticos, de acordo com Josina de Carvalho. “Em suma, o iNaR não tem competências para legalizar as igrejas, essa função cabe ao Ministério da Justiça”, reforçou, acrescentando que o MiNCuLT não trabalhava isolado, mas está em colaboração com os ministérios do interior e das Relações Exteriores.

Um dos critérios da necessidade de congregação dessas forças religiosas tem a ver com a doutrina da fé. À organização preocupa ainda o atentado à boa convivência social, que tem constado nas queixas de muitos moradores dos Golfe i e ii e do bairro Palanca, que, além de reclamarem ocupações de ruas e poluição sonora. a igreja Mensagem do Último do Tempo é a mais citada entre moradores e até fiéis de outras denominações como perturbadora da convivência normal do bairro.