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Yuri Quixina: “Os problemas ‘prementes da população’ só serão resolvidos se tivermos uma economia decente”

Acompanhe os temas macro-económicos da semana passada que mereceram análise no espaço Economia Real da Rádio Mais, com o economista Yuri Quixina. Transporte de minérios da RDC, as mais de 12 mil empresas que não pagam a segurança social e outros destaques

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

No passado dia 8 foi comemorado o Dia Internacional da Mulher, o que lhe diz a data?

Infelizmente as civilizações sempre subestimaram as mulheres, pelos vistos a nossa civilização é a que está mais aberta às mulheres, e atingem por o próprio mérito os grandes níveis de desenvolvimento no país e no mundo em geral.

São gestoras por natureza…

Pois é, as mulheres dominam a economia doméstica e é essa que os governos deviam levar em consideração. Elas sabem calcular quanto de óleo alimentar devem gastar, massa tomate… isso é economia geral. Penso que os presidentes da república deviam aprender muito com gestão da economia doméstica.

Quer dizer que é o modelo de economia real…

É o modelo de economia real, é aquilo que as pessoas sentem, não é número. É vida, é choro, é sentimento e sobrevivência. Quem é gestor de equipa económica deve saber coordenar como as donas de casa. Portanto, elas merecem e gostaria de ver, em Angola, uma ‘presidenta’, como dizem os brasileiros.

Ok, bem-haja a todas as mulheres! No plano macro-económico foi destaque a criação da autoridade reguladora, baseada na lei da concorrência. O que pensa?

Continuo a pensar que devemos desregular o mercado, abrir as portas para atrair investimentos, depois disso é que podemos regular aqueles que estão a manipular o mercado. Ainda assim, espero que não se crie mais uma instituição, aproveite-se um departamento ministerial para encaixá-la, porque já não temos dinheiro para satisfazer mais PCA’s, carros, casas e empregadas. Isso tem custos, o país deve viver dentro das suas posses.

Mas o argumento é o facto de vir a promover competitividade entre os agentes económicos.

Para promover a competitividade, é preciso fazer surgir competidores. O fundamental é liberalizar o mercado, de modo a que as energias produtivas internas e externas surjam. Quando comprar e vender é objecto de regulação, o primeiro a ser comprado é o regulador, porque ele não é Jesus Cristo, também tem os seus propósitos e pode ser capturado.

Passados 34 anos reiniciou o transporte de minérios da RDC, via ferroviária, por Angola. Que ganhos isso pode gerar?

Vi os governantes felizes, com discursos, como é hábito.

O senhor não ficou feliz?

A felicidade é se esse fenómeno vai trazer pão para a mesa das famílias. Aumentou o emprego? Esse é o elemento número um, porque o objectivo da economia é trazer bem-estar.

O ministro dos Transportes garante que isso torna o país ‘forte e competitivo’ na SADC.

Se for efectiva e continuar com o processo de trânsito, será interessante. A questão que se coloca é se isso vai ter impacto na vida das pessoas. O mais importante, na economia, é a sustentabilidade e não ficar feliz um dia apenas. Que estratégia existe para que os caminhos-de ferro de Benguela sejam sustentáveis no longo prazo? Isso é que é fundamental saber.

O continente africano continua a exportar matérias-primas brutas. Que consequências trazem?

Acho que os africanos não estão interessados no sector industrial. O que acontece é que exportamos matéria- prima e compramos produtos acabados a preços altos e a balança de pagamento dos países africanos continua negativa. Infelizmente, o africano gosta do mais fácil para crescer de forma artificial.

O que se pode esperar do inquérito que o Instituo Nacional de Estatística promove sobre despesas,  receitas e emprego? Arrancou em todo o país?

Primeiro, devo felicitar o Instituo Nacional de Estatística que tem feito um trabalho interessante, mesmo com poucos recursos. Agora faz um inquérito para perceber as despesas das famílias e o seu poder de compra, no sentido de ajudar o governo a traçar melhores políticas. Isso é brutal. Sem informação estatística, do ponto vista macro-económico, as políticas dos agentes económicos não têm efeito.

Foi ainda destaque a ‘denúncia’ do ministro do Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, sobre mais de 12 mil empresas que não pagam segurança social. Que futuros pensionistas esperamos ter?

Quando a economia está em prejuízo, as empresas não têm como pagar segurança social nem outras obrigações fiscais. A economia angolana precisa de reorganizar-se para tornar-se decente. Inflação alta, imposto alto, empresas a “morrerem”, naturalmente elas não conseguem pagar. A solução é fazer que a economia cresça e temos recursos humanos suficientes que, bem explorados, podemos fazer isso. Desde que tenhamos uma economia liberal e de livre mercado, em que as pessoas explorem o talento e o Estado que se preocupe apenas com os ‘anzóis’ de que as famílias vão precisar para poderem pescar.

O Bureau Político do MPLA reuniuse ontem, tendo um dos assuntos abordados sido a estratégia para a materialização do programa de dinamização das exportações e substituição das importações, plasmada no Plano Intercalar do Executivo. O que lhe parece?

O partido que está no poder, pelos vistos, tem duas velocidades, é assim que posso entender, enquanto técnico de economia. Há uma Angola do Presidente João Lourenço que traça uma estratégia de exportações e substituição das importações, e numa outra velocidade, há a Angola do Bureau Político, que é liderado pelo presidente Eduardo dos Santos, que quer contribuir nesse sentido. Mas a tendência parece contribuir depois de aprovado o mesmo plano, penso que seria no início. Nas economias, quando há duas lideranças do ponto de vista das ideias, entram quase sempre em rota de colisão.

Quer explicar-se melhor?

Partamos do pressuposto de que os deputados na Assembleia Nacional do partido que venceu as eleições têm de apoiar o Governo. Se a estratégia do Bureau Político for diferente da estratégia da liderança do país, então aí há colisão e os próprios processos podem esbarrar e não atingir os grandes objectivos preconizados nos programas eleitorais sufragados nas eleições. O que devo aconselhar, é que antes de o Presidente da República ter essa ideia, que antes conversasse com o partido e depois a levasse a público. Angola está a duas velocidades. E qual será a velocidade que vai trazer desenvolvimento? É só esperarmos para ver.

Ainda no Plano Intercalar, na edição de hoje vamos começar a abordar o tema sobre “Problemas sociais mais prementes da população”. Quais são, a seu ver, esses problemas?

O primeiro é o desemprego, que é um flagelo. Hoje há pessoas que acordam e não sabem o que comer. Pessoas morrem em valas de drenagem, mais de 2 milhões de crianças estão fora do ensino. Estávamos a crescer de forma artificial e gastávamos mais em despesas correntes do que na produção. Portanto, ‘os problemas mais prementes da população’ só serão resolvidos se a economia funcionar.

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