o homem do pedal

Não tive a sorte de privar com ele um minuto que fosse na vida, mas é como se nos conhecêssemos de há muito.

POR:José Kaliengue

Cresci a ler e a ouvir falar de Pepino. Tanto que, muitos anos passados, quase duvidei da forma como Luís Fernando o apresentou neste jornal, creio que em 2009. O homem apresentou ao jornalista o seu próprio caixão, como que a dizer que convivia muito bem com a ideia da sua própria morte, apesar de toda a vitalidade e de continuar a pedalar a sua bicicleta como que querendo chegar a um mundo longínquo onde apenas a imaginação fértil das crianças chega. Pepino manteve sempre a esperança de chegar a algum sítio que ninguém imagina onde fica. Terá lá chegado agora, na noite de Sábado, quando se esgueirou do mundo em que nos deixou apenas com o seu sorriso como memória. Mas na noite de Sábado, lendo o excelente texto de Lilas Orlov publicado ontem, também neste jornal, aí quase duvidei que Pepino havia partido. Liguei à Rafaela que lhe era algo próxima, por ligações familiares, ouvi a voz embargada e encurtei a conversa. Mais do que confirmado. E, de seguida, a dúvida maior: o que sei eu sobre Pepino? Nada. E este nada tinha-me sido gritado pelo Lilas Orlov. Para começar, Pepino não era nome de registo. Tem mais, o homem que há mais de uma década construíra o seu próprio caixão era agarrado à vida, tinha fobia de doenças. E nada sei sobre ele também porque nem no seu hotel alguma vez vi a referencia a uma bicicleta, por exemplo. Falta muito de Pepino nas nossas vidas. Talvez agora os angolanos aprendam a pedalar as suas próprias histórias e surjam filmes, livros e exposições permanentes sobre um dos homens mais extraordinários da nossa terra.