Pegado, o angolano que produziu sua própria marca de automóveis

Bruno Pegado decidiu vender quase tudo o que tinha, como casas, carros, terrenos e outros bens para produzir a sua própria marca de automóveis por falta de apoios da banca comercial. Em Dezembro deverá colocar no mercado angolano as primeiras 200 unidades de carrinhas Pegado Okavango e Pegado Zambeze e 600 unidades de outros modelos de automóveis ligeiros e SUV para comercialização a preços que devolverão o poder de aquisição ao cidadão angolano.

‘Saber não basta, é preciso usar o conhecimento. Não basta desejar algo, é preciso ter atitude. Deus no comando’. É este o lema que tem sido seguido à risca por Bruno Pegado, um jovem empreendedor de 36 anos, que desde a morte do seu pai, Manuel da Paz Francisco Pegado, há 17 anos, se apaixonou por motores e prepara-se para nos próximos meses colocar no mercado novos modelos com a sua própria marca: Pegado. As carrinhas Pegado Okavango e Zambeze, em versão automática e manual, gasolina e diesel, todos eles 4×4, são as apostas iniciais, num leque de veículos em que também se encontram modelos de cilindrada inferior, com motores a partir de 1.1cc, entre os quais o Kalandula, uma versão mais desportiva dos SUV. A meta de Bruno Pegado é ter no país até Dezembro do presente ano cerca de 800 unidades preparadas para serem vendidas, embora nesta fase estejam a ser terminadas, por uma conceituada empresa contratada para o efeito, a produção do logotipo que deverá perpectuar a marca, numa homenagem ao seu falecido pai.

Neste projecto ambicioso, em que só a parte do desenvolvimento já lhe custou mais de Três milhões de dólares norte-americanos, provenientes das vendas de alguns bens pessoais como casas, terrenos e outros, por falta de apoio dos bancos comerciais, Pegado aliou-se a um grupo de engenheiros chineses, holandeses, canadianos, indianos e americanos para tornar a sua concretização exequível. ‘Um projeto sem apoios de uma instituição financeira carece de muitos recursos. Para o desenvolvimento de um automóvel gasta-se acima de um milhão de dólares norte-americanos. Tira-se este dinheiro sem problemas a partir das vendas, mas nenhum banco quer emprestar, e alguns fazem-se reféns de um crédito malparado que tenho inferior a 52 milhões de Kwanzas (mesmo recorrendo a negociações para a restruturação do mesmo que esta a ser bastante dificultada) valores estes que com a venda de 5 ou 6 viaturas estará liquidado’, desabafou.

O mercado chinês foi o escolhido. A ideia de que os carros produzidos neste país não têm qualidade não amedronta nem preocupa o jovem investidor angolano. ‘É uma ideia minha que nasceu em Angola. Está a ser desenvolvida na China. As grandes marcas mundiais também estão lá. Cada um faz o controlo de qualidade do seu produto’, assegurou. No caso das carrinhas Okavango e Zambeze, Bruno garante que foram preparadas para a realidade das estradas angolanas, com amortecedores adequados, embora acredite que esta situação não venha a perdurar para sempre. Apesar de haver no mercado uma montadora de carros, também oriunda do mercado chinês, o produto continua escasso. As filas de espera para se ter acesso a um automóvel barato e de qualidade aumenta a cada dia. É esta convicção que faz com que o empresário sonhe mais alto. Nos seus planos está, por exemplo, a produção também de camiões, autocarros, tractores e outros equipamentos para o sector agrícola, e não percebe o porquê do não enquadramento da Industria Automóvel no Plano de Desenvolvimento Nacional, uma vez que todos os programas apresentados para terem sucesso dependem do transportes e logística.

Com mais de uma década no ramo empresarial (ver caixa), as dificuldades porque passa não o amedrontam, nem está disposto, para já, a abdicar de realizar o seu sonho no país que o viu nascer, embora tenha estudado largos anos no Zimbabwe e em alguns países do velho continente. Sobre a mesa existem convites para levar o seu projeto e a produção a países como a Zâmbia e Botswana, segundo conta. Por enquanto, a acontecer a sua concretização na plenitude, gostaria que os benefícios fossem inicialmente para os angolanos em termos de empregabilidade e não só. ‘O nosso foco não é apenas ganhar dinheiro, é garantir empregabilidade e desenvolvimento’, disse. A linha de montagem poderá arrancar em Angola nos próximos 15 meses, caso surjam os financiamentos bancários necessários ou parceiros estratégicos. Bruno Pegado é mais óptimista quanto a isso, prevendo mesmo que em sete anos se possa evoluir para uma produção de moldes, e não só, em solo nacional, onde se formariam dezenas ou centenas de engenheiros angolanos.

Os contactos parecem estar avançados. Mas os receios a nível da banca também se agudizam. Só que não é o caso do empresário, acreditando que o seu projecto, que já passou do papel e da fase do desenvolvimento, pode ser ajustado dentro das capacidades de financiamento disponível. Caso surjam os apoios necessários para a introdução de uma linha de montagem em Angola, a preferência do empresário recai para a sua instalação na região centro e Sul do país, e deste ponto criar sinergias para a distribuição dos veículos e outros produtos pelo país em estrita colaboração com os empresários locais e gerar milhares de empregos indirectos com muitos dos programas que têm e se enquadram nesta segmentação. ‘Ninguém deverá ir à fonte. Queremos o mesmo preço de Luanda nas outras províncias’, idealiza o empresário.

Das bicicletas, buggys 4×4 aos automóveis

Quando se dirige a alguns bancos, Bruno Pegado escuta sempre, deles, o seguinte: ‘por que é que não começa por algo mais pequeno? Apesar da idade, há muito que o jovem que deu os primeiros passos no ramo empresarial e no segmento em que se quer manter. A evolução para os automóveis convencionais, cujos primeiros exemplares estarão em Angola tão-logo se conclua o pagamento, é fruto de uma jornada que teve início com outros produtos da marca Pegado. As E-Bikes Pegado, as motorizadas Welwitcha, Cuanavale, Mwana Pó, Ndemba, Ombaka, Tundavala, Yaka e Tundavala Forças Especiais, assim como os buggys 4×4 Bakama, Grande Bakama, Kalandula e Kalandula Forças Especiais foram alguns dos produtos que já foram comercializados pelo Grupo Bruno Miguel Pegado (BMP), hoje sem stocks devido à procura que tiveram no passado e a falta de financiamentos. Aliás, como aficcionado, foi com um dos automóveis que o próprio fabricou, o Ombandja Rafeiro, que atingiu um dos lugares cimeiros de um dos campeonatos todo-o-terreno em Angola.

‘Eu queria manter aqui (na loja) pelo menos um modelo de cada, mas não foi possível’, desabafou o empresário, apontando para um dos espaços da loja que possui na Centralidade do Kilamba, em Luanda, onde também comercializa outros produtos. A partir do Ramiros, onde arrendara um espaço, pretendia continuar a montar as bicicletas, motos e os buggys 4×4, mas uma vez mais a falta de apoios da banca em cerca de cinco milhões de dólares também o impossibilitou, tendo grande parte da mercadoria sido retida no Porto de Luanda. ‘Com Deus no comando’, um dos slogans que diz levar para onde vai, Bruno Pegado não esmorece, apesar das dificuldades que ainda encontra. Continua a avançar com os meios próprios, a desfazer-se de alguns bens e a apostar na marca. ‘Quando estou em baixo, algo corre mal e o vejo, dá-me vontade de continuar a trabalhar’, contou o jovem, apontando para um trofeu que venceu na 5ª edição da Expo Transportes e Logística de Angola, na categoria de melhor empresa privada. ‘Estou atrás dos meus sonhos. Sou um patriota. Se der certo teremos, garantidamente, mais de mil postos de trabalho no país’, rematou, sonhando com a implementação da linha de montagem dos automóveis Pegado em Angola.