Saudade da paz que os levou a NGanga Zuge

Segundo os moradores, a guerra civil que assolou o país durante muito tempo não afectou directamente essa povoação, por isso, passados anos e anos, esperavam ver resolvidas suas as necessidades básicas.

Alguns forasteiros que constituem parte dos habitantes da localidade de Nganga Zuge, na comuna de Cassoneca, município de Icolo e Bengo em Luanda, sentem saudade da paz que os motivou a viver nessa região, porque hoje lutam contra novos problemas, tais como, citam eles, a falta de transporte, de água canalizada, acesso à escolaridade no ensino secundário e ao registo civil, além de clamarem por um mercado que atraia a atenção dos visitantes. António Casimiro NGola e Maurício Katata estão entre esses que, apesar de terem histórias completamente diferentes, partilham as razões de terem permanecido nessa zona, pelo facto de a guerra civil, que assolou o país durante muito tempo, não ter afectado directamente a pacata vila, embora reconheçam estar a enfrentar agora as mesmas dificuldades.

Quando a 11 de Outubro de 1977 chegou a região de Cassoneca, conforme recordou António NGola, de 69 anos de idade, encarou a área como um lugar bastante pacífico para dar continuidade a uma vida que já se tinha gasto nos dois anos nas frentes de combate. “Então, como já tinha informação de que, mais tarde estaria fora da vida militar, instalei-me aqui e comecei a trazer, aos poucos, a minha família do Cuanza-Sul para cá”, contou o ex-combatente das FAPLA, tendo adiantado que uma das intenções do momento era ter os seus parentes seguros. O cultivo do campo passou a ser actividade diária do cidadão oriundo da comuna de Munenga, município de Libolo, província de Cuanza-Sul (C.S), uma ocupação que era complementada com a caça e o corte de lenha, bem como com a produção de carvão. Este último trabalho era reservado apenas para os homens, uma vez que a empreitada impunha tarefa de maior esforço.

As mulheres ficavam com a responsabilidade de vendê-lo, à beira da Estrada Número 230, que liga Luanda e Malanje, sendo que, de quando em vez, rumavam mesmo para os mercados de Viana, para a comercialização ser mais rápida e mais rentável. Dos lucros, conseguiam comprar peixe, sal, óleo, sabão e roupa que constituíam as necessidades de Nganga Zuge. Entretanto, o bairro não tinha energia eléctrica, nem água canalizada, muito menos serviços sociais, não fosse a única escola de uma sala deixada pelo colono, onde sempre se administraram aulas para ensinar a ler, escrever e calcular. Aliás, é isso que mais inquieta Maurício Katata, de 52 anos de idade, proveniente de Mussende (C.S), que desabafou dizendo que não conseguia entender como é que, depois de tanto tempo, ainda convivem com os mesmos problemas do passado, numa localidade que não dista mais de 80 quilómetros da Capital do país.

“Esses problemas são antigos, nós não estamos a pedir para deixar as nossas actividades de sustento, mas, hoje, esperávamos ver facilitado o esforço da nossa produção com a existência de uma estrada que trouxesse para cá as pessoas de fora para comprarem os nossos produtos”, disse Maurício, referindo-se ao tomate, batata- doce, mandioca e milho, além de peixe, carne de caça e carvão. Sobre a falta de condições básicas de vida, como o fornecimento de água, Maurício Katata revelou terem o mesmo problema nas lavras e no bairro, já que para os dois sítios falta apenas a projecção de uma conduta. “Se para os nossos campos não se projectam tubos para a irrigação, para as nossas casas também não chega a canalização, mesmo havendo já água potável em Cassoneca e outras localidades de Icolo e Bengo que se parecem com Nganga Zuge”. Por esta e outras razões de necessidade extrema, alguns cidadãos da referida localidade pedem que as autoridades de direito lhes devolvam a paz que os atraiu para a zona, no passado, garantindo as condições por si clamadas.

NGnga Zuge, recado aos visitantes

Questionados sobre o significado da denominação, os habitantes dessa povoação que falaram a OPAÍS esclareceram que Nganga significava feiticeiro e Zuge, que grelha. “Por isso, a mensagem que se deve passar ao público é a de que se o feiticeiro te matar, vai-te grelhar” explicaram, tendo realçado que em Nganga Zuge é preciso saber andar, para não sair dali prejudicado. Segundo os moradores, a expansão deste significado às regiões das redondezas, e não só, atribuía segurança aos próprios, que viam o impacto da mensagem reflectido no respeito que os forasteiros dedicavam aos donos da terra.