Académicas defendem ‘revitalização’ do Património Histórico de Luanda

A arquiteta Suzana Matos e a professora Cristina Pinto defendem a necessidade de revitalizar o Património Histórico de Luanda, através da sensibilização e envolvimento da sociedade e dos governantes.

As académicas falavam ontem durante uma conferência de imprensa para apresentação de uma série de eventos, que decorrerão nos próximos três dias (Sexta-feira, Sábado e Domingo), e visam celebrar os dez anos de existência da Campanha Reviver e o Dia Internacional da Abolição da Escravatura, que amanhã, 23, se comemora e cujo palco principal será a “Rua dos Mercadores”, no centro histórico de Luanda. Ao tomar a palavra, a arquiteta Suzana Matos, do Centro de Estudos de Investigação da Universidade Lusíadas de Angola, considerou que no âmbito da Campanha Reviver, a mesma está engajada em questões que se prendem com o Património e sua consequente Revitalização. Desse modo, considera imperioso respeitar a memória, cuidar do que se recebeu com a devida atenção e não deixar ao abandono. Daí deparamo-nos com a dimensão do Património ‘sobrevivente’ da cidade capital, alguns deles em avançado estado de degradação.

A arquiteta reconhece que esse mau estado resulta dos limitados recursos disponíveis, pelo que é difícil fazer opções sobre o património que justifica o esforço de preservação e aquele que não é possível atender. Entretanto, entende que a Revitalização Patrimonial é algo em que vale a pena intervir num determinado momento ou em conjunto, se o usufruto desse monumento estiver assegurado. “Quando falamos em usufruto, trata-se de um espaço em que vivemos ou no espaço que é habitado. Assim as pessoas e o património são indissociáveis”, rematou. Na sequência, Suzana Matos afirmou que o Património deve ser reconhecidamente amado pelas pessoas e utilizado pelas mesmas. O que é revitalização patrimonial?

Questiona, a arquiteta e ao mesmo tempo que dá resposta à sua inquietação, ao dizer que a Revitalização Patrimonial é voltar dar vida ao Património “Entendo que se pode dar vida pelo uso original ou eventualmente um novo uso que seja compatível ao original. E que se respeite o Património. Na nossa cidade já temos muitos bons exemplos de Património com nova vida”, apontou. Nesse sentido, Suzana Matos apresentou alguns bons exemplos de revitalização, como são os casos do edifício em que actualmente funciona o Centro Cultural Brasil-Angola (CCBA), antigamente (Grande Hotel), o Palácio de Ferro, um testemunho de uma nova vida que o edifício ganhou depois de uma intervenção. “Estamos a falar em construções que foram sujeitas a restauro e que trouxeram uma nova dinâmica ao edifício e de que a comunidade pode se beneficiar”, acrescentou.

‘Maus exemplos’

Se, por um lado, são apresentados alguns exemplos de edifícios reabilitados que mantiveram a sua característica originária, por outro, há maus exemplos de outros edifícios na cidade de Luanda que não tiveram a mesma sorte, como referenciou a professora de História, Cristina Pinto. Na sua comunicação, a historiadora lamentou o estado de degradação e destruição de sobrados característicos da capital como, como os casos da “Rua do Sol”, na zona do Palácio da cidade Alta, esta que foi destruída. O edifício da casa do escritor Alfredo Troni, junto à Universidade Lusíada, a destruição do Palácio Dona Ana Joaquina, que a levou à desclassificação. Apesar de já estar construída, nota-se o nascimento do Shopping defronte a Fortaleza de São Miguel, que a vai desvalorizar, quando devia ter sido registada na UNESCO para ser classificada à semelhança do que aconteceu com a cidade de Mbanza Kongo.

E ainda o Largo do Pelourinho, o Elinga Teatro entre outros. “Temos de saber pensar e reflectir a história da cidade. E sentir que gostamos da cidade para melhorá- la, envolver os governantes para melhorar a iluminação pública da cidade e consequente melhoramento da segurança da cidade. Crescimento não significa desenvolvimento. Os governantes têm que saber respeitar a história patrimonial e histórica desta cidade”, reafirmou a também membro da Associação dos Naturais, Residentes e Amigos de Luanda (KALU). A “Rua dos Mercadores” está em grande risco de deixar de ser classificado porque está a perder peças desse conjunto histórico. Essa é a nossa luta e também a nossa paixão, a Campanha Reviver vive e revive em relação a revitalização da herança patrimonial, justificaram as professoras. Refira-se que, na actual “Rua dos Mercadores” além da degradação física dos edifícios, é possível notar o amontoado de viaturas estacionadas, bem como a prática do comércio de produtos alimentares diversos.

Exibições movimentam “Rua dos Mercadores”

Assim, para animar e dinamizar a referida rua, várias modalidades artísticas estarão à disposição dos visitantes, desde a literatura, a pintura, o cinema, a fotografia, a música, a gastronomia e outras formas de arte. Durante o acto inaugural, que será dia 23 às 15 horas, depois dos discursos institucionais, está prevista a exibição de um documentário intitulado “O Povo Brasileiro-Matriz Africana”, a ter lugar no CCBA. Mais tarde, às 17 horas, haverá o descerramento da placa “Rua dos Mercadores”, Património Histórico, seguido de uma exposição fotográfica sobre a história da rua, a que se seguirá um sarau de capoeira pela companhia Abadá. No dia seguinte, a programação reserva apresentações de Rap de rua, a conversa no quadro “Puxa-Palavra”, entre Gabriel Liprince e o escritor Manuel Rui, cujo último romance de sua autoria “Kalunga” foi recentemente apresentado. O dia encerra com dança de rua com o grupo Pé de Salsa. Sábado, às 9 horas, iniciará um tour pelo centro histórico de Luanda, concretamente a Rota dos Escravos. Para essa actividade, é necessário que os interessados inscrevam-se sem qualquer custo adicional. O filme “Xica da Silva” será exibido no CCBA, culminando com a apresentação do documentário “DNA África”, no mesmo espaço.

Campanha Reviver

A Campanha Reviver é uma organização sem fins lucrativos que segue o lema “Recuperar, Requalificar, Reabilitar por uma Luanda com alma”. Em 10 anos de existência e de actividade tem sido persistentes no trabalho de sensibilização para a importância da protecção do Património da Cidade de Luanda, cientes da pertinência em continuar a divulgar a história da nossa cidade e assim contribuir para a formação de cidadãos conscientes.