Yuri Quixina: “Devia-se evitar investimento em infra-estruturas de consumo como a marginal da Corimba”

O professor de Macroeconomia, Yuri Quixina, defende que o novo empréstimo que o Governo solicitou à China, de 11,7 mil milhões de dólares, seja investido em infra-estruturas produtivas. Acompanhe a análise dos outros temas que marcaram a semana económica.

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

A desvalorização do Kwanza, na ordem de 40% face ao Euro, fez destaque informativo na semana passada. Quais foram as causas?

Os factores já são conhecidos e influenciam a desvalorização. O Banco Nacional continua a estratégia de desvalorização paulatina, através da taxa de Câmbio fixa por banda, que varia até 2%. A escassez de divisas e de investimento directo estrangeiro são outros factores, porque o país continua dependente do modelo primário de exportação assente no petróleo. Há expectativas de investimento estrangeiro, mas ainda não está a entrar.

Que impacto sobre as famílias?

O impacto é enorme. A inflacção vai continuar a corroer a economia, os preços vão subir, quem tem um único rendimento vai sofrer, porque o Kwanza tem cada vez menos valor. Os trabalhadores angolanos vão continuar cada vez mais a perder o poder de compra, porque a taxa de câmbio é o preço da moeda. A moeda é o semáforo da economia, que continua no vermelho. Portanto, se não tomarmos medidas inteligentes para alterar o quadro…

A que ‘medidas inteligentes’ se refere?

Existem várias. A combinação de várias medidas, desde políticas orçamentais, contas públicas, macroeconomia, reforma estrutural que reduza o custo de produção, definição clara do modelo de privatizações, melhoria do índice de liberdade económica e abrir a economia ao resto do mundo para que entrem divisas.

Quais são os caminhos práticos para concretizar esses objectivos, sendo que o processo de privatização, por exemplo, está na agenda do Executivo?

Quando digo privatizar as empresas é através do resto do mundo, porque todo o investidor que comprar empresa vai trazer divisas. É um álibi interessante para fazer entrar divisas na economia.

Mas várias empresas carecem de recapitalização para não serem vendidas a preço de banana. É o outro desafio?

O fundamental para mim é aumentar o emprego no médio prazo.

E não o valor das empresas?

O valor tem muito a ver. A questão que se coloca é que Angola não tem dinheiro para recapitalizar as empresas. Se não há dinheiro, não faz sentido o Estado continuar a gastar o Orçamento para essas empresas que não são rentáveis.

O Banco Postal tem disponíveis 900 milhões de Kwanzas para financiar o empreendedorismo, com realce para os informais. É um desafio?

É interessante porque a função dos bancos é conceder crédito à economia. Estamos a falar de um banco pequeno que está a tentar inovar para sobreviver. Prevê financiar o sector informal, que é muito complicado, na medida em que o risco é muito grande. Pode cair na lógica dos BUE. Mas o grande problema continua a ser a taxa de juro alta e o curto tempo para devolução. Recuperar o crédito nesse nicho de mercado é, de facto, um grande desafio.

Aumenta a dívida com a China. O Governo angolano negoceia uma nova linha de crédito com o Banco Industrial e Comercial da China, no valor de 11,7 mil milhões de dólares para projectos de infra-estruturas. Qual é a sua opinião?

Essa informação não é nova, já estava no prospecto da emissão de três mil milhões de dólares dos Eurobonds, lançado no ano passado e o ICB participou, como patrocinador. Essa informação revela que a China continua a ser o parceiro estratégico e o maior credor externo de Angola. No total, a China vai conceder 15 mil milhões, que fará ascender, no total, para 21 mil milhões de dólares.

Que resultados efectivos esse empréstimo deve produzir?

Se investirmos em sectores estratégicos para recuperar o crédito será muito interessante. Refiro-me a infra-estruturas que reduzam o custo de produção, com uma fiscalização coerente, que permita um tempo de vida útil correspondente ao investimento. Penso que se devia evitar investimento em infra- estruturas de consumo, como a marginal da Corimba. Do ponto de vista de prioridade, a meu ver, não seria prioritário gastar cerca de um bilião de dólares para reabilitar marginais, na mediada em que temos muitos problemas em infraestruturas de educação, de saúde e rodoviárias.

Está prevista a construção de um sistema de transporte de energia eléctrica do Luachimo, no valor de 760,4 milhões de dólares.

Todas as infra-estruturas capazes de reduzir o custo de produção dos empresários são fundamentais. O risco consiste no facto de o Estado fazer tudo sozinho e não atrair investimento directo estrangeiro nesses sectores. Sou mais defensor do investimento directo estrangeiro, para recuperar as infra-estruturas e o investimento, do que do endividamento, porque a responsabilidade do risco é individual.

E a guerra comercial continua acesa, envolvendo os Estados Unidos, a Europa e China. Erdogan/Trump foi a novela da semana.

O problema entre os presidentes norte-americano e turco reside na detenção do pastor protestante norte-americano, Andrew Brunson, na Turquia, por alegada cumplicidade com o imã Fethullah Gülen, o homem que Ancara identifica como ‘cabecilha’ do golpe de Estado falhado de 2016 e que reside nos EUA e levou a administração Trump a impor um conjunto de sanções económicas à Turquia e a duplicar as taxas aplicadas às importações de alumínio e aço. É assim que a América reage, quando um cidadão americano é atacado. Como consequência, Ancara aumentou a taxa sobre os veículos americanos a 20%. De modo geral, essa guerra comercial tem lados negativos e positivos. O positivo é que os investidores procuram outros mercados, como a África, apesar da crise cambial e da elevada dívida pública externa.

Sugestão de Leitura Título: ‘A árvore de dinheiro – Guia para cultivar a sua independência financeira’

Autor: Jurandir Sell Macedo Junior, Doutor em Finanças Comportamentais

Ano da primeira publicação: 2010.