Cerimonializando & Protocolando

De 29 a 31 de Agosto próximos, terá lugar, em Luanda, a Iª Conferência Internacional sobre Cerimonial e Protocolo. O Convidado de Honra é um peso pesado do mundo do protocolo: Gerardo Correas Sanchez, Vice- Presidente da Organização Internacional de Cerimonial e Protocolo e Director da Escola Internacional de Protocolo da Universidade Miguel Hernandez (Espanha). Por isso, na crónica de hoje, decidi contar-vos alguns episódios, por mim presenciados, em que, por falta de observância do cerimonial e protocolo, saiu ferida a sã convivência entre os participantes de um evento.

POR: Amílcar Má rio Kintya

Primeiro caso Estávamos – julgo – em 2005, na Cidade de Midrand, África do Sul, sede do Parlamento Pan-Africano. A Sessão de Abertura de mais uma reunião ordinária deste órgão continental, seria feita pelo Presidente da África do Sul, Thabo Mbeki. Porém, antes, no início da sessão, conforme manda o cerimonial do Parlamento Pan-Africano, registou-se um MOMENTO DE ORAÇÃO/MEDITAÇÃO. Foram chamados ao púlpito os líderes das seguintes religiões: cristã e judaica. Cada um deles, à sua maneira, apelou ao Supremo para que os trabalhos decoressem da melhor maneira possível. No final da oração, registou-se, na sala, um tsunami de murmúrios. Na altura, fiquei sem saber a que se deviam tais murmúrios. O mistério, entretanto, ficou rapidamente desvendado com a subida, ao púlpito, do Presidente Thabo Mbeki. Ele próprio se encarregou de esclarecer que, por lapso, não havia sido chamado um representante da religião islâmica, uma das maiores religiões do nosso tempo e com larga expressão na África do Sul. Thabo Mbeki teve, então, de se desculpar à todos os presentes que professavam o islão. Seguidamente, para superar a gaffe protocolar ocorrida, chamou um Deputado muçulmano oriundo de um país da África do Norte, para que fosse ao púlpito fazer uma oração. E assim foi. E lá a calma voltou a imperar na sala. Foi genial, a atitude do Presidente Thabo Mbeki. Protocolo e improvisação, não se coabitam, excepto para superar imprevistos. O Presidente Mbeki improvisou e muito bem.

Segundo caso Estávamos em Maio de 2014 e Angola acolhia a 64a Reunião do Comité Executivo da União Parlamentar Africana. A reunião decorreu na Sala 4 do então Palácio dos Congressos, antiga sede do Parlamento angolano. Logo no início da reunião, a 28 de Maio, um mal estar inundou a sala devido ao dístico que havia sido colocado por trás do Presidium. Acontece que, embora o árabe seja uma das línguas de trabalho da União Parlamentar Africana, o dístico, todavia, havia sido concebido apenas em língua francesa, inglesa e portuguesa. Ora, os Deputados dos países de língua oficial árabe – que até falavam fluentemente o inglês ou o francês – se mostraram profundamente indignados com a ausência, no dístico, da língua do Profeta Maomé. Assim sendo, a reunião não teve o seu início antes que fosse superado este imbróglio linguístico.Deste modo, como fórmula de compromisso, aconteceu aquilo que eu julgava impensável. Um Deputado de um país árabe, aproximou-se ao dístico com um marcador preto, apoiou-se numa cadeira e escreveu a mão o que dele faltava em língua árabe. Só assim as coisas serenaram.

Terceiro caso No corrente mês de Agosto, na Cimeira da SADC, em Windhoek, Namíbia, reparei, ao entrar para a sala de reunião, que a bandeira de Angola se encontrava colocada numa posição invertida. Isto é, a faixa preta na parte superior e a faixa vermelha na parte inferior. É claro que foi um descuido do pesso- OPAÍS Sábado, 25 de Agosto de 2018 31 al do protocolo que, felizmente, foi prontamente retificado. A bandeira é um símbolo nacional e isto, por si só, já traduz o cuidado redobrado que todos devem ter com a sua utilização.

Quarto caso No final da década de noventa, acompanhei o meu então Chefe, Diogo de Jesus, para uma missão de serviço, no exterior do país. Viajamos em classe executiva, mas, postos no interior da aeronave, reparei que o meu chefe se havia sentado por trás do meu assento. Eu era o subordinado, mas, no check-in, o pessoal do protocolo colocou-me sentado antes do meu chefe. O Mais Velho Diogo de Jesus notou que algo estava mal, levantou-se e pediu que trocássemos de lugar. Foi o que fizemos. Naqueles tempos, eu ainda não tinha em mim o “bichinho” do protocolo e julguei que a atitude do meu chefe era um exagero. Afinal o Mais Velho Diogo de Jesus tinha mesmo razão. Até no interior de uma aeronave, existe uma ordem de precedência a ser respeitada. Só compreendi isto, muitos anos depois.

Quinto caso Noutro dia fui à um casamento e, também lá, testemunhei os desencontros que podem igualmente ocorrer em cerimónias de índole privada. Os familiares da noiva alegavam que, na distribuição de assentos, haviam sido relegados para lugares subalternos. E, como vocês sabem, há sempre aquele parente “complicado” que deixa sempre bem evidente a sua especialização em “Ciências da Complicação” e que, como diz um amigo, automaticamente ligou o “complicómetro.” E assim se acaba “estragando” uma linda cerimónia. Não pretendo maçar-vos com tantas estórias sobre o eventual “estrago” que o desrespeito de certas normas de cerimónia e protocolo, pode provocar ao nível da conivência social, quer se esteja em sede de um evento público ou privado. Por conseguinte, é enganoso pensar que as questões de cerimonial e protocolo são exclusivas de estadistas e diplomatas. Nada disso. É sobre tudo isto – e muito mais – que, nos dias 29, 30 e 31 de Agosto, será realizada a I Conferência Internacional sobre Cerimonial e Protocolo.