Yuri Quixina: “A crise vai começar quando o Fundo Monetário Internacional entrar””

A presente edição do Economia Real dedica-se inteiramente à análise do pedido de ajuda financeira que Angola solicitou ao FMI, ao abrigo do Programa de Financiamento Ampliado, de 4,5 mil milhões de dólares. Acompanhe a perspectiva do economista Yuri Quixina.

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

Qual é a avaliação que faz ao empréstimo que Angola solicitou ao Fundo Monetário Internacional (FMI)?

Primeiro, estamos a falar de uma instituição que tem influência nos países membros. Depois, a moralização que o Presidente fez criou expectativas junto ao mercado financeiro, mas não o moralizou. Se olharmos para as taxas de juros… penso que estou a ser profeta. Eu disse aqui, neste espaço, se na emissão de Eurobonds de três mil milhões de dólares, as taxas de juros forem superiores a 8%, iriamos recorrer ao FMI. E aí está. Eu disse, na altura, que taxas acima de 8% eram mortíferas e poderíamos endividar as gerações vindouras, embora muitos economistas aplaudiram.

Mas não é plano de…

O FMI vem agora com o mesmo plano que o antigo ministro da Finanças, Armando Manuel, estava a solicitar: ‘Programa de Financiamento Ampliado’. Chamar o FMI para tomar decisões sobre nós, estamos a dizer que Angola é um país economicamente inviável. E não é verdade dizer isso. O FMI vai nos atribuir um certificado de incompetência do ponto de vista da reforma estrutural. Fico triste quando vejo que Angola é único país do mundo que chamou o FMI e os economistas estão felizes, porque é um endividamento com custos elevados que seria a última carta da cartola do nosso Governo. Primeiro devíamos fazer um bom diagnóstico.

Fez-se o Plano Intercalar (PI)…

Se analisarmos o Plano Intercalar, erramos completamente, porque consideramos ainda que a crise é através do petróleo. O diagnóstico do PI é muito superficial e não se conseguiu aplicá-lo em seis meses. Com essas falhamos chamou-se o FMI. O FMI é o emprestador de último recurso. O momento bom para chamar o FMI passou, quando tínhamos reservas internacionais líquidas na ordem dos 24 mil milhões de dólares e entraríamos nas negociações com mais poder .

Em que circunstâncias uma economia deve recorrer ao FMI?

As circunstâncias são várias… as medidas que o FMI vai implementar nós poderíamos implementar. Faltou estratégia para implementar medidas duras. É o que tenho dito, o Presidente João Lourenço é mais corajoso do que a sua equipa económica. Era necessário evitar o FMI, na medida em que se implementássemos o Plano Intercalar seria muito interessante para alavancar a nossa economia, mas o FMI vem nos mostrar que a nossa crise é de incompetência.

Passa-se a ideia de que o recurso ao FMI tem como vantagem o empréstimo de dinheiro barato, em relação às taxas de juros. É vantajoso?!

Barato entre aspas. O Governo, ou a equipa económica, vai atribuir as culpas dos custos sociais ao FMI. Perdemos muito tempo sem explicar ao povo sobre as mudanças que serão operadas. O povo até agora não entende de economia, era fundamental explicar. O custo social que é brutalmente elevado, sobretudo se for sem indeminizações…

De que custo social se refere?

Estou a dizer que o desemprego e os impostos vão aumentar e a dívida não vai reduzir. E será o período da crise. A crise vai começar quando o FMI entrar.

O FMI dispõe de seis formas de financiamento e Angola solicitou a terceira: ‘Programa de Financiamento Ampliado’. Quando um país solicita esse tipo de ajuda, que acções são feitas à economia?

Primeiro, é preciso referir que esse tipo de programa é para economias que apresentam dificuldade na balança de pagamentos, o que reflecte as transações que Angola tem com o resto do mundo. E o programa intervém no sentido de eliminar as barreiras das exportações.

Insisto. Há correntes que defendem que o FMI vai intervir alí onde o Governo angolano achar conveniente. É isso?

Não. O pacote é claro. Primeiro, o FMI vai atacar os salários, vai rever os custos com os despedimentos, vai reduzir ou cortar todos os subsídios, poderá fazer revisão legislativa.

Que resultados são esperados com essa intervenção?

Quando o FMI entra num país, o primeiro ano é de recessão.

O que é recessão, em português?

Significa que Produto Interno Bruto não vai crescer, ou seja, o país não vai produzir no primeiro momento, vai aumentar o desemprego, o investimento pode contrair. O FMI vai trazer-nos uma roupa com a qual teremos de nos ajustar, independemente do nosso tamanho. E nós estamos gordos, o FMI vai nos mandar fazer uma dieta muito intensa. O desenvolvimento do país não depende do FMI, o FMI não é o salvador.

Defende que o país não terá quaisquer vantagens com o FMI?

No fundo, o FMI vai querer alterar a cara da nossa economia, o FMI é o emprestador de último recurso. A questão é que colocássemos primeiro à prova a nossa competência, no primeiro ano de mandato do Presidente João Lourenço.

O Presidente da República desdramatizou, na Alemanha, os receios sobre o FMI, por não se tratar de um resgate. É confortável?

Sim, é um programa diferente. Mas em Portugal e na Grécia tiveram a diferença de a União Europeia também ter entrado com financiamento. É diferente do de Angola, mas ainda não era o momento de termos o FMI.

Mas quem tem ‘a mão na massa’, como é o caso do Presidente da República, sabe por que motivo viu no FMI a solução imediata.

Quem está à frente do Executivo tem que tomar uma decisão, mas com maior empenho do poto de vista de tirar a economia da crise, era necessário, por enquanto, evitar o FMI. Se não der certo, não teremos mais a quem recorrer, ou ficaríamos com o FMI até à outra legislatura.

Sugestão de leituta 

Título do livro: ‘Sobre educação e juventude’ Autor: Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo polaco, professor emérito de sociologia das universidades de Leeds e de Varsóvia. Ano da publicação: 8 de Junho de 2012

Frase para pensar: “Subsidiar os preços é como uma ditadura, é fácil entrar e é difícil sair”, Roberto Campos.