Permuta anima negócios em Nambwangongo

A modalidade encontrada por algumas moradoras deve-se ao facto de haver bens considerados de primeira necessidade cuja aquisição ainda obriga a gastar dinheiro

Texto: Alberto Bambi, Nico Pedro e Pascoal Manuel

Uma boa parte das mulheres comerciantes do bairro Onzo, comuna do Gombe, município de Muxaluando, em Nambwangongo, província do Bengo, revelou, Sábado último, a OPAÍS, que a troca directa (ou seja, a permuta) de produtos é a forma mais viável encontrada para adquirir bens alimentares, e não só, para suprir as suas necessidades diárias.

Trata-se do óleo, sabão, peixe, sal e sabão, incluíndo roupa e calçado, segundo referiram as próprias habitantes, que não se pouparam em detalhes.

“Nós trocamos uma bacia pequena de bombó molhado para fazer kikwanga por uma barra de sabão, essa mesma quantidade troca-se por dois quilogramas de açúcar ou dois litros de óleo”, esclareceram Eva Domingos João e companheiras sob anonimato, tendo adiantado que tal opção era mais prática do que adquirir os referidos produtos a 900, 500 e 450 Kwanzas, respectivamente.

Segundo elas, desde o princípio deste ano, o preço do arroz baixou consideravelmente para 300 Kwanzas o quilograma, graças às melhorias feitas no troço entre Canacassala, a comuna limítrofe com Caxito, por via de Kikabo, e Onzo.

Mesmo assim, as senhoras optam pela sua permuta com mandioca, banana ou batata, pelo facto de ser mais vantajoso.

As mulheres relataram que, apesar da nova forma de comércio ter atraído muitos interessados, que para tal fim chegam de Luanda, o sabão e o óleo continuam a ser os produtos mais procurados e, curiosamente, os que menos aparecem no Onzo. “Há momentos em que as próprias vendedoras dizem mesmo que não trouxeram sabão e óleo, porque nos mercados de Luanda, também está caro”, realçou Eva Domingos, de 43 anos de idade.

E adiantou, por causa disso é que as poucas forasteiras que ousam chegar com os referidos produtos ao bairro Onzo decidiram trocálos preferencialmente com a matéria-prima da kikwanga (mandioca fresca amassada).

Essa aposta motivou o aumento da produção de kikwanga na região que, segundo as entrevistadas, já era considerada uma das fontes mais credíveis desse alimento farinhento, típico da zona norte de Angola, com destaque para as províncias do Bengo, Uíge, Zaire e Cabinda.

Kikwanga fomenta a concorrência Eva Domingos João é uma das especialistas locais na confecção de kikwanga, tendo sob seu controlo um grupo de mais de cinco senhoras, que consigo trabalham apenas quando as encomendas ultrapassam a sua capacidade normal de produção.

Na ocasião desta reportagem, a artífice preparava uma encomenda de 50 quilogramas de kikwanga, uma porção que é capaz de produzir sozinha, por essa razão, a sua mini-fábrica encontrava- se vazia nesse dia.

“Estou sozinha, porque só vou fazer estas seis bacias, hoje, e amanhã tenho de entregar às senhoras que vêm de Luanda, porque já me pediram para preparar essa quantidade”, explicou Eva, adiantando que, como produtora e fornecedora, não deve deixar os seus clientes pendurados, para compensar os gastos na estrada e facilitar a sua despensa.

Proveniente da República Democrática do Congo, há 33 anos, onde disse ter aprendido o ofício, Eva Domingos explicou que, para fazer a kikwanga é necessário, em primeiro lugar, deixar a mandioca fresca e descascada três dias mergulhada na água, o mesmo período em que o tubérculo fica ensacado. “Daí tira-se, amassa-se com outra água e coloca-se no saco novamente para a fervura geral.

Só depois, com a massa de mandioca já apurada, se distribui em pequenas quantidades em embalagens de plásticos”, pormenorizou Eva, reforçando que essas unidades são embrulhadas em folhas apropriadas, semelhantes às de bananeiras e amarradas a jeito, que finalmente são mergulhadas na panela para cozerem mais a vapor do que na fervura.

Segundo apurou OPAÍS das vendedeiras do mercado local, uma unidade de kikwânga de mais de 700 gramas custa 100 Kwanzas. “Isso, em Luanda, se compra a 300 Kwanzas ou mais, é por isso que as senhoras de lá vêm comprar muito aqui”, apontou Maria, que, acrescentou preferir vender o produto quente, a partir das 17 horas, para atrair os passageiros rumo ao município sede de Muaxiluando, que, segundo a própria, usam-no como “funje fardado”.

Roubos aumentam

O agente da Polícia destacado no único posto policial do bairro, Augusto NGola, referiu que ultimamente o Onzo regista mais roubos em comparação a outros tempos, devido ao incremento da actividade comercial.

“Porque estamos a ver que os jovens agora estão a roubar mais produtos agrícolas e galinhas, apesar dos poucos furtos de motorizadas”, relatou o polícia, adiantando que a corporação local, com menos de seis efectivos, tem conseguido capturar os infractores e encaminhá-los aos órgãos competentes. Segundo Augusto NGola, a polícia, com a colaboração do sobado e dos membros da coordenação do Onzo, tem realizado campanhas de sensibilização à juventude, a se pautarem por um boa conduta e preservarem os valores da localidade.

Também revelou que o posto de Polícia local precisava de evoluir para uma esquadra, permitindo-lhe receber mais efectivos, porque a comuna do NGombe possui mais de 15 bairros.

Materiais escolares e fardos no câmbio

No princípio do ano, foi bastante visível a chegada de negociadoras forasteiras com diverso material escolar, como cadernos, lápis, esferográficas, borracha e outros, além de batas e manuais do ensino primário, segundo os moradores, que alegaram que as comerciantes só estavam dispostas a trocar por banana e mandioca.

Roupa usada e calçado, bem como cobertores constituem outros bens muito procurados pelos habitantes de Onzo.

Entretanto, as negociantes de fardos aparecem nesse bairro da comuna de Gombe, com casacos, cobertas e lençóis, preferencialmente na época do Cacimbo, na perspectiva de atraírem para si a vantagem nas trocas de produtos.