José Carlos de Almeida: “Os jovens não estão preocupados com a leitura, infelizmente”

José Carlos de Almeida, que também adopta o nome literário “Joseca Makiesse”, é jurista de profissão, mas é sobre o estudo e ensino da Língua Portuguesa que recai a sua preocupação. Escreveu já dois livros, designadamente, “Ensaboado e Enxaguado” e “Amor ao Próximo”.

Agora prepara-se para apresentar ao público o seu terceiro livro, intitulado “Teoria da Leitura”. Em entrevista a OPAÍS, o autor fala sobre os seus desafios, os meandros do novo livro e ainda as controvérsias da língua “herdada” de Camões

Texto de: Jorge Fernandes

É jurista de profissão mas é muito ligado às questões que têm a ver com à Língua Portuguesa, por que razão?

Ainda muito novo tive a pretensão de um dia vir a ser padre, e o meu mentor naquela época, o padre Onório, incutia-me que era necessário dominar bem a Língua Portuguesa, que além de ser uma ferramenta de comunicação, dar-me-ia mais desenvoltura.

Desde essa altura comecei a estudar mais. Quando regressei de Portugal, de onde vinha após a minha formação superior, cheguei à conclusão de que muitos angolanos falavam muito mal. Não basta transmitarmos apenas a informação, é necessário que ela chegue ao receptor sem ruídos e interferências.

E esse défice notava-se, não só em gente comum, mas também em vários actores da vida social. Daí que decidi apostar num livro sobre redacção da Língua Portuguesa, com a finalidade de dotar as pessoas de melhores competências linguísticas.

José Carlos de Almeida, que também adopta o nome literário “Joseca Makiesse”, é jurista de profissão, mas é sobre o estudo e ensino da Língua Portuguesa que recai a sua preocupação.

Escreveu já dois livros, designadamente, “Ensaboado e Enxaguado” e “Amor ao Próximo”. Agora prepara-se para apresentar ao público o seu terceiro livro, intitulado “Teoria da Leitura”. Em entrevista a OPAÍS, o autor fala sobre os seus desafios, os meandros do novo livro e ainda as controvérsias da língua “herdada” de Camões Assim nasce o “Ensaboado e Enxaguado” e, anos depois, o “Amor ao Próximo”.

Como é que avalia a receptividade a esses livros?

O “Ensaboado” é um livro que me deu notoriedade e foi muito bem aceite, embora reconheça ter havido algumas críticas. Essas críticas acabaram por influenciar outras pessoas, mesmo sem que tivessem tomado contacto com o livro.

Há pessoas, por exemplo, que diziam que o livro não tem bibliografia, quando na verdade tem em rodapé, enfim. Também acredito que houve algum ciúme “científico”, dado o facto de não ser linguista de formação e para muitos parecia ser um “intruso” a “invadir” uma área que não é a sua. E as pessoas ligadas à área não ficaram muito felizes. E como pode concluir, desde o lançamento da obra para cá, não surgiu nem uma obra de especialistas na área sobre Língua Portuguesa.

Portanto, é importante que se critique para haver melhorias, mas não pode ser uma crítica viciada. No sentido de criticar apenas por criticar. Essas críticas em algum momento o abalaram ou “forçaram” a pensar desistir dos seus objectivos? De modo algum.

Sempre estive convicto do que estava a fazer. Quando escrevo, gosto de argumentar quer do ponto de vista científico, como gramatical. E isso faz com que as críticas sejam rebatidas. E aqueles que dominam essas matérias, depois chegam à conclusão de que as mesmas críticas estavam a ser direccionadas em caminho errado.

Os livros sofreram críticas, os linguistas angolanos não escrevem sobre a Língua Portuguesa, ainda assim pretende continuar a escrever sobre português?

É um desafio a que se propôs? Sim, vou continuar. E como sabe e já referenciou, depois do “Ensaboado e Enxaguado”, escrevi um outro livro que é o “Amor ao Próximo”.

Uma obra importantíssim a na medida em que está também associada à questão comportamental. Costumo dizer que a L.P. e comportamento estão associados, porquanto um indivíduo que não fale correctamente e não adopte um comportamento exemplar, é reprovado socialmente.

E esse livro representa o ‘meu amor’, para com o meu próximo. E desse ‘amor’ a que se refere sei que está na forja uma terceira obra. Do que é que tratará? Pois. O meu terceiro livro está quase acabado, faltando apenas a sua impressão. Intitula-se “Teoria da Leitura”.

É um livro inédito, porquanto, ao que saiba, não há ninguém no mundo que tenha escrito sobre teoria da leitura de uma forma muito ampla.

Não foi fácil desenvolver teorias em relação à leitura, conceitos, um trabalho árduo, de noites em claro, enfim, é acima de tudo gratificante.

A correctora já verificou que não há sequer plágio, pois algumas vezes incorrese a isso pensado que os outros não estejam também a investigar. Quais são os conceitos que apresenta em concreto.

Ensina a ler? A “Teoria da Leitura” define o que é a leitura. Muitos de nós falamos da leitura mas não sabemos o que é a leitura. E há resposta a essa questão no livro. Nele, abordo os vários tipos de leitura, que são imensos. Estamos habituados à leitura silenciosa, leitura táctil feita através de braille, mas há outras.

Quais são?

Há outras como a leitura correctiva, essa tem a ver com a entrega de um texto, por exemplo, no caso dos jornalistas, ao editor ou chefe de redacção, que por sua vez fará uma leitura correctiva, pois, à medida que vai lendo vai corrigindo, podendo ao mesmo tempo proceder à uma leitura analítica, em que analisa o conteúdo do texto entregue pelo seu repórter, assim como fazem os professores nas provas.

Há também a leitura espontânea, aquela em que o indivíduo, sem que se aperceba, está a ler um flyer ou uma frase numa parede, enfim, desenvolvi vários conceitos em relação à leitura e isso leva-me a dizer que sou o primeiro a fazê-lo.

Como assim? Esses conceitos no mundo não existiam. Claro que há outros tipos de leitura que fui absorvendo como a leitura em diagonal, que muitos indivíduos quando sugerida uma obra, não a lêem toda em função da exiguidade de tempo, mas fazem uma leitura em diagonal com base em determinadas técnicas e acabam por absorver os conteúdos da obra. Entre outros conceitos.

Considera que os jovens lêem muito pouco?

Sim, muito pouco. Porque é suposto um individuo andar com uma fonte de leitura, ainda que seja um livro pequeno. E o mesmo servirá para manter o seu cérebro sempre activo em qualquer momento. Durante uma viagem, enquanto aguarda que seja atendido, no transporte público entre outros locais.

É lendo que se entra em contacto com muitas palavras e isso torna o vocabulário mais rico, ao que o individuo reaje e começa a falar com mais fluência, e evita “gaguez” à procura de palavras para construir a frase.

O que acha que esteja na base desse desinteresse pela leitura?

Chegam ao país, vêm já com base ao novo acordo, e não consultam bibliografias específicas para o nosso país, por exemplo. Vê que não produzimos dicionários, e estes estão com a nova grafia. Logo, isso pode “deturpar” o aprendizado sobretudo para crianças.

Da mesma forma que não produzimos dicionários, também não temos gramáticas nossas. E se quisermos continuar com a não adopção do acordo, devemos também preocuparmonos em produzir bibliografia com a grafia vigente em Angola.

Daí ser necessário que o Executivo faça uma ampla reflexão em relação à essa temática. Por outro lado, se há questão da sintaxe e da morfologia, há por outro lado outros especialistas que olham também a língua na vertente da Fonética e da Fonologia.

Ou seja, há por hoje, a preocupação pelos sons e pela dicção. Dada a nossa realidade multicultural e linguística, que opinião tem sobre o assunto?

Do ponto de vista prático nós seguimos o padrão da língua europeia, de Portugal. Seguimos as formas gramaticais, e em alguns casos comete-se o erro de corrigir questões que têm a ver com a pronúncia, facto com que não concordo.

Em relação aos meus alunos, não corrijo, porque somos angolanos, embora alguns tenham pronúncia portuguesa pela convivência e em alguns casos por ter-se vivido em Portugal, há uns que têm influência brasileira pelas mesmas razões e outras, mas, por outro lado, há os têm a influência das línguas nacionais e falam com um português mais carregado.

Para o José Carlos de Almeida o mais importante é que a comunicação seja trocada?

Não só a comunicação, mas respeitando as regras da morfologia e da sintaxe. Não dizer por exemplo, e é recorrente na comunicação social audiovisual: “convido- lhe a assistir o programa”, quando é “convido-o”, porque a pessoa em causa é complemento directo e deve ser substituído por um pronome que desempenha a função de complemento directo que é “o”.

Portanto, a preocupação é falar-se do ponto de vista gramatical independente da pronúncia em que cada um emite a sua comunicação. Não considero esse aspecto um problema, apenas uma “mania”, que muitas vezes leva-nos a “afinar” e acabamos por estragar.

Perfil

Descreve-se como um “mussequino” por ter nascido no actual distrito urbano do Rangel, a 12 de Março de 1968. Frequentou a maior parte da sua formação em Luanda, tendo passado por várias escolas, entre elas a da conhecida “Ginguba”, Ngola Kiluange e 1º de Maio.

Seguiu carreira militar na escola Nicolau Gomes Spencer, sendo posteriormente enquadrado na escola comandante Gika, onde se formou na especialidade de Artilharia Terrestre.

Embora não tenha concluído o 2º ano do curso de Direito, na faculdade com o mesmo nome, adstrita à Universidade Agostinho Neto, prosseguiu a sua formação em Portugal, na Universidade Autónoma de Lisboa.

Trabalhou na Sonangol, actualmente dedica-se apenas ao ensino da Língua Portuguesa e ao estudo contínuo desta ferramenta de comunicação, cujo património é imaterial.

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