Dívida dos países africanos à China vale apenas 20% do total

O Comité para o Jubileu da Dívida (CJD) disse hoje que a dívida dos países africanos à China representa apenas 20% do total, mostrando-se preocupado por quase 12% das receitas fiscais servirem para pagar a dívida pública.

“Os pagamentos de dívida externa feitos pelos governos africanos aumentaram dramaticamente nos últimos anos, duplicando de 5,9% das receitas do Governo, em 2015, para 11,8%, em 2017, o que significa que os pagamentos de dívida estão ao nível mais alto desde 2001”, disse o economista-chefe desta Organização Não Governamental que defende o endividamento responsável.
Numa análise à composição da dívida dos países africanos, enviada à Lusa, o CJD salienta que apenas 20% da dívida externa dos governos africanos é devida à China, enquanto só 17% dos pagamentos de juros vão para o gigante asiático, o que contrasta com os 32% de dívida externa devida a agentes privados e os 35% a instituições multilaterais como o FMI ou o Banco Mundial.
“55% dos pagamentos de juros relativos à dívida externa são feitos a credores privados”, afirma Tim Jones, salientando que “os novos números mostram que o papel da China enquanto financiador do continente tem realmente crescido, mas a sua relativa importância é menor do que aquela que é muitas vezes referida, especialmente no que diz respeito aos países com dívida problemática [‘debt distress’, no original em inglês]”.
Dos 16 países africanos que o FMI e o Banco Mundial dizem estar com problemas de dívida, como Moçambique, “em média 15% da sua dívida é devida à China, o que torna este país um financiador menos relevante nestes países que no resto do continente”, nota o CJD.
“Os problemas da dívida estão a piorar no continente africano, mas muitos financiadores são responsáveis, não apenas a China”, disse Tim Jones, defendendo que “são necessárias novas regras que obriguem à divulgação dos empréstimos aos governos quando eles são feitos”.
Por outro lado, concluiu, “o FMI tem de parar de responder às crises da dívida emprestando dinheiro para ‘salvar’ os que emprestam dinheiro, da China às empresas ocidentais, o que os incentiva a continuar a emprestar irresponsavelmente; em vez disso, os financiadores deviam ser forçados a reestruturar e reduzir a dívida”.
O estudo com o título ‘A crescente crise da dívida em África: a quem é devida a dívida?’ baseia-se nos dados da China-Africa Research Initiative (CARI), da conceituada universidade norte-americana John Hopkins, segundo os quais as instituições estatais chinesas emprestaram aos governos africanos 143 mil milhões de dólares entre 2000 e 2017.
“Como o Fórum de Cooperação China-África, em setembro, anunciou uma meta de 60 mil milhões de dólares em ajuda ao investimento e empréstimos a África, o mesmo montante que na reunião de 2015, o volume de financiamento deve continuar a um ritmo similar ao registado entre 2015 e 2017”, lê-se no documento.