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Moradores do interior do Longa deixam seus bairros devido à fome

Trata-se das localidades de Terra Nova, Bela, Jindange e Jingonguele, que distam entre cinco e 10 quilómetros na direcção Sudeste, de onde a maior parte da população já saiu para se instalar mais próximo da Estrada Nacional 100

  • Texto de: Alberto Bambi
  • Fotos de: Vigilio Pinto

Os cidadãos que viviam nos referidos subúrbios do interior do Longa transformaram os seus antigos bairros em zona de trabalho oportuno, tendo construído outras moradias, principalmente na área que ficou conhecida com a denominação de Benvindo, localizada próximo da estrada que liga as províncias de Luanda e do Cuanza Sul.

Aliás, o nome é uma homenagem que os antigos moradores da Kalamba (Longa) dedicaram aos migrantes para os acolher e se assegurarem de uma convivência pacífica, de acordo com Joaquim Sapalo, de 42 anos de idade, um dos chefes de família que se instalaram no Benvindo, em 2015.

“Quando começamos a vir para aqui, no ano antepassado, ainda éramos um grupo menor e tínhamos receio de conviver com os encontrados, mas estes tinham paciência de nos receber e, juntamente com o coordenador, desejavam-nos sempre as boas-vindas, por isso, foi assim que surgiu o nome do bairro”, revelou o morador, tendo adiantado que, à medida que o tempo foi passando, todos os vizinhos foram abandonando a zona de origem.

A fome foi invocada como a razão principal do êxodo forçado destes habitantes, que alegaram não terem encontrado nenhuma medida alternativa para se alimentarem durante os períodos secos, altura em que ficavam quase sem comida, não fossem os poucos pescadores e caçadores aí existentes que capturavam alguns animais para o consumo. Joaquim Sapalo disse que já houve dias em que ele, a sua família e vizinhos mais próximos tiveram só uma refeição improvisada por dia, que passava por bagre assado sem nenhum acompanhamento.

Atenta aos depoimentos do marido, Teresa Armando, de 43 anos, interveio na conversa para aclarar sobre os momentos difíceis por que passaram os então residentes da Terra Nova.

“Houve tempo que não tínhamos mesmo nada para comer, principalmente na época de frio, não havia mata-bicho, almoço, nem jantar, comíamos só múcua, que alguns homens corajosos traziam para a estrada e trocavam com pão ou vendiam aos viajantes”, contou a actual moradora do bairro Benvindo, observando que as caminhadas eram uma tarefa muito difícil, por causa da distância e da característica da via.

Teresa Armando referiu que os habitantes das localidades abandonadas dedicavam-se à agricultura de subsistência, servindo-se das águas que o rio Longa distribui para os grandes charcos da região nos períodos das enchentes, as mesmas fontes que servem para a pesca e o pasto.

Ela apontou o milho, a mandioca, o peixe bagre e cacusso como alimentos típicos da área, tendo, entretanto, sublinhado que, quanto aos cereais, não foram poucas as vezes em que os tiveram de consumir sem os terem transformados nas suas respectivas farinhas. No antigo habitat, segundo contou a entrevistada, muitos são os vizinhos que perderam a vida devido a doenças estranhas que não deixam de ser associadas à fome, uma vez que a maioria se queixava de fraqueza e algumas complicações a nível da região estomacal. A tuberculose é outra patologia de que desconfiavam os moradores de uma área onde alegam nunca ter chegado assistência médica e medicamentosa.

Distância encareceu a vida Retomando a palavra, o esposo realçou o facto de não ter sido a preguiça dos moradores que os levou para à situação de pobreza extrema, mas, sim, a falta de oportunidades para a transformação dos cereais que produziam e de espaço viável para a venda dos produtos provenientes dos campos agrícolas, da pesca e da caça.

“Tudo isso não era possível, porque caminhar da Terra Nova, Bela e Jindange e Jingonguele para a sede do Longa não era coisa para se fazer todos os dias, mais pelo tipo de caminho do que pela distância que também não é pouca”, detalhou Joaquim Sapalo. Para constatar as dificuldades dos caminhos cruzados relatados por quase todos os emigrantes abordados, a reportagem de OPAÍS trilhou as referidas “picadas”, tendo alcançado em meia hora a região de Caxangonde, onde encontrou o casal de idosos Adolfo Africano e Deolinda Mendes Cassacula.

Oriundos de Cabiando, Adolfo Africano juntou-se a um dos filhos para pescar e fumar bagre, a fim de o comercializar no único mercado da região. Segundo o ancião, o negócio foi pensado pelo filho, que não se deu ao trabalho de descontar a idade dos velhos nas caminhadas diárias para o tratamento do pescado e as vendas, pois, para ele restou a tarefa de pescar, tida pelos dois como supostamente a mais difícil. Adolfo Africano considera a vida dos populares dessa área como quase impossível, por falta de vias de comunicação e transporte, de modo a, pelo menos, facilitar as deslocações para os pontos de comercialização.

Terrenos por desmatar Deolinda Mendes Cassacula perdeu a conta da idade e disse que o terreno que exploram para a agricultura de subsistência precisa ainda de tratamentos adequados, porque, a cada período que se deixa sem cultivo, regista crescimento de arbustos fortes, limitando os camponeses a semearem nos intervalos entre umas e outras árvores. Por esta razão, a velha Deolinda não gosta de ver alguém a lhes atribuir o título de preguiçosos por residirem numa zona ribeirinha.

“Era bom que as pessoas antes de dizerem que nós não gostamos de cultivar viessem ver a distância que separa as nossas casas do rio e o tipo de plantas do terreno que as nossas catanas, machados e enxadas não conseguem cortar”, desabafou a idosa, realçando que já não preferia falar da proibição do corte e queimadas que, segundo ela, é determinada pelas mesmas pesso
as que os consideram preguiçosos. Informou que, mesmo com tanta dificuldade, os moradores produzem mandioca, batata-doce e milho, mas precisam de os vender também para adquirirem outros bens de necessidade básica.

Carro dificilmente visto no Jingonguele

Depois de passar pelas localidades de Jindange e Bela, a equipa de reportagem chegou ao bairro Jingonguele e o primeiro sinal que teve foi a aglomeração de gente, ao ponto de se ter juntado ao agregado o pessoal que estava no campo e na pesca.

“Nunca mais chegou aqui um carro, como é que chegaram aqui sem estrada”, questionaram, enquanto os mais novos se esforçavam para pegar no veículo automóvel de marca Renault – Duster. Dedicado aos serviços de cultivo e pesca, Adão Sambo contou que o ofício o ajuda a minimizar os custos de sustento de uma família que conta com a esposa e os dez filhos que ainda vivem consigo, agora que a sua residência está instalada na sede do Longa. Relativamente à razão de migração dos povos, Adão Sambo chamou a atenção aos responsáveis para abandonarem a tendência de minimizar a invocada fome, porque existe e ainda não foi resolvida.

“As razões fortes que fazem as nossas populações abandonarem completamente uma área são a guerra e a fome”, lembrou o aldeão, tendo ironizado que a guerra acabou.

Vias para o interior

O coordenador do Bairro Kalamba, vulgo Longa, precisa de ajuda dos seus superiores hierárquicos para ver abertas estradas que liguem a sede da circunscrição que dirige a outras localidades do interior. “Precisamos de máquinas para abrir estradas que podem ligar os bairros de dentro, pois, assim os moradores vão poder circular com mais facilidade para os seus locais de trabalho, onde antes viviam e poderão comercializar os seus produtos aqui no mercado”, declarou Jeremias Venda Quirinda. Para si, a falta de trabalho assalariado é outro factor para a fome que se instala na região, mas assegurou que, ao nível local, a coordenação tem aconselhado aos moradores para desenvolverem a actividade agrícola manual de subsistência, a fim de minimizar o problema.

Reconheceu que a vinda dos habitantes das zonas abandonadas para as proximidades da Estrada Número 100 aumentou o rendimento dessas famílias que já podem vender e comprar produtos básicos no mercado local que, para si, ainda não pratica os preços desejados.“Porque a actividade comercial neste ponto do bairro ainda é desenvolvida por pessoas que vêm de Cabo Ledo, Luanda ou Porto Amboim, uma situação que, no futuro, poderá complicar ainda mais a capacidade de sustento dos locais”, avaliou Jeremias Quirinda. Por isso, o coordenador elege o surgimento de lojas retalhistas de bens industriais na localidade como uma das iniciativas que podem contribuir para a melhoria da vida da população.

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