Mona Kadidi

Pedrito não sabe como nem quando chegou a Luanda. Na sua mente as imagens são vagas, confundem-se. Muita confusão à mistura.

POR: João Rosa Santos

Aos cinco anos de idade, em 1992, no aeroporto de Malanje, lhe jogaram no avião do PAM, bazou só para a capital, os papás ficaram em terra. Desembarcou no internacional 4 de Fevereiro, sem rumo, não tinha beira nem eira. Se mandou cidade afora, seguiu alguns kotas apressados, sentiu o peso do abandono, da solidão, o calor da amargura, comeu o pão que o diabo amassou. Na rua encontrou abrigo, fez morada e amizades. Hoje aqui, amanhã ali, depois acolá, caminhava sem rumo, em busca do destino. As sobras recolhidas nos contentores ajudavam a “matar” o bicho da fome, em edifícios abandonados cuxilava, experimentava alguns momentos de soneca. No seu rosto miúdo, as lágrimas sempre teimaram em não cair. Queria sobreviver, de tudo um pouco fazia para não se deixar abater. As más práticas, os vícios podres nada com ele. Roubar, chupar gasolina, nunca, nem a sonhar! O tempo passou, uma alma caridosa lhe deu guarida. encontrou um novo lar, sentiu-se em família, voltou a dormir numa cama, a pitar condignamente, ganhou uma nova mãe, um novo pai, irmãos, tios, primos e avós. Pedrito estudou, cresceu, cedo apaixonou-se pelos livros. Aluno dotado, na primária, na secundária, no ensino médio e superior, primou sempre pela excelência, fez a diferença, recebeu louvores, formou-se em direito com distinção. Com emprego fixo e bem-sucedido, é hoje uma referência no seu local de trabalho. Casado e já pai de duas crianças, é um excelente chefe de família, sem mãos a medir para dar e receber amor dos seus, sem nunca descurar o berço de criação. Pedrito apesar de feliz, sente falta dos pais biológicos. Desconhece o apelido familiar, não têm noção das suas origens. Vagueia, busca pelo país e mundo afora alguma pista, e nada. Mas não desiste. Em seu íntimo algo lhe diz que a verdade embora possa tardar, algum dia acabará por vir ao de cima. E é a fé que, recheada de esperança, que lhe dá confiança, motivação e lhe faz acreditar todos os dias, em dias melhores. Kaluanda no registo, assumese malanjino de corpo e alma, um angolano que, apesar das adversidades da vida, sempre soube e continua a chorar com os olhos secos.

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