Zungueiros denunciam excessos na ante-câmara da “Operação Resgate”

Apesar de ainda não ter arrancado a mega operação coordenada pelo Ministério do Interior, a Associação dos Vendedores Ambulantes (AVAL) denunciou ontem, a OPAÍS, a ocorrência de agressões e apropriação de produtos por agentes da fiscalização e da Polícia em Luanda.

O presidente da Associação dos Vendedores Ambulantes (AVAL), José Ambrósio Cassoma, apelou ontem para o bom senso das autoridades durante a realização da “Operação Resgate”, que inicia no próximo dia 6 de Novembro. A referida campanha, lançada oficialmente ontem, vai decorrer em todo o país e pretende, dentre os vários objectivos, o reforço da ordem e da tranquilidade públicas, o ordenamento da venda ambulante, a neutralização do comércio ilegal de acessórios de viaturas e outros males que afectam a segurança pública.

Segundo José Ambrósio Cassoma, apesar de a campanha ainda não ter arrancado, a sua agremiação tem recebido muitas queixas de excessos cometidos por agentes da fiscalização e da Polícia que continuam a usar a brutalidade física para reprimir a venda ambulante. “Todos os dias recebemos casos de apreensão de produtos e de violência contra os nossos associados. Tem sido uma luta constante. As autoridades continuam a usar a violência para o fim da venda ambulante, o que é muito mau, porque acreditamos que não é por essa via que se revolvem as coisas”, atestou. Para José Ambrósio Cassoma, as pessoas não estão na rua por livre vontade.

Estão por necessidades e escassez de mercados que, na sua maioria, estão situados em locais de difícil acesso. Neste sentido, o activista cívico defendeu a criação de alternativas para albergar o grosso das pessoas que nos próximos dias vão ser forçadas a sair das ruas, na sequência da “Operação Resgate”, que vai envolver efectivos de diversas especialidades da Polícia Nacional. “As pessoas vão sair das ruas. Mas, depois, vão sobreviver de quê? Temos vindo a alertar para a construção de mais mercados e feiras, mas, infelizmente, não somos ouvidos. O Governo nunca está disposto a negociar connosco de forma a encontrar um ponto convergente”, notou.

No seu entender, caso não haja instruções e orientação dos agentes da Polícia e da fiscalização que vão trabalhar na “Operação Resgate” , os casos de violência e agressão contra os vendedores ambulantes poderão aumentar e terminar em tragédia. “Se as autoridades acharam por bem organizar o país, devem fazê-lo com base no respeito às pessoas. É preciso que haja instrução e preparação dos agentes que vão estar na rua. Caso contrário, vamos ter uma vaga de violência protagonizada por quem tem a missão de repor a ordem”.

Operação de força

De acordo ainda com o líder associativo, à semelhança de outras iniciativas, o Governo continua a usar a “força” para fazer valer os seus objectivos, situação que em nada ajuda na busca do consenso social que passa pelo diálogo. Tal como deu a conhecer, até ao momento, a sua associação e outras de defesa das pessoas mais desfavorecidas ainda não foram consultadas pelas autoridades de forma a dar o seu ponto de vista sobre as linhas de força da anunciada “Operação Resgate”. Caso as autoridades continuem a fechar-se ao diálogo, José Ambrósio Cassoma disse que vai continuar céptico quanto ao êxito da campanha. Conforme explicou, a venda ambulante é um fenómeno social que, apesar de ser várias vezes discutido, não tem encontrado equilíbrio e soluções práticas, porque o Estado prefere ignorar o diálogo com a sua associação e com outras que defendem este segmento de comerciantes. “Não é possível alguém governar sem ouvir a sensibilidade das pessoas. O êxito de qualquer actividade só é possível quando as partes estão dispostas a dialogar. Por isso, caso o Estado continue a ignorar as ideias dos vendedores, esta campanha não terá êxito”, alertou.