Canal do Kikuxi ‘inunda’ residências no Bita Vacaria

Há quatro anos que os moradores do bairro Bita Vacaria, município de Viana, vêem as suas casas ‘invadidas’ pela água do desvio do canal do Kikuxi. Aflitos por não terem onde se refugiar, pedem a intervenção imediata do Governo.

A falta de policiamento e o crescimento excessivo de capim à volta do complexo e das casas inabitadas, têm sido igualmente motivos de clamor, segundo disseram alguns moradores que solicitaram intervenção da Polícia Nacional e da administração municipal na busca de uma solução no que toca aos sectores de segurança e de saneamento básico. Segundo apurou OPAÍS, a corrente da água está a forçar o abandono do referido complexo habitacional e, consequentemente, o regresso de muitas famílias a casas de renda. Menezes Adão, nato do bairro, conta que a água começou a passar por aquela zona em 2005, mas sempre conseguiram controlar, com a construção de valas de drenagem.

Criaram uma comissão de moradores com as contribuições financeiras feitas, construíram a vala. Há quatro anos começaram a ver as ruas e algumas casas inundadas, porque a pressão da água aumentou. “Temos muitos problemas por causa disso, as doenças não nos largam, as crianças todas sofrem de infecção urinária e é uma patologia que se tornou normal aqui na zona, bem como o paludismo, por causa da população de mosquitos”, disse. Segundo o munícipe, esta situação tem impossibilitado a circulação de pessoas e bens, naquela área. “Essa água é resultante do desvio criado na bacia do Kikuxi e quando chove os moradores são obrigados a abandonar as residências, regressando apenas no período seco.

Isso tem causado perdas constantes de bens materiais e não só”, conta. Por seu turno, Jairo Candumba, que vive há seis anos neste bairro conta que no princípio, quando comprou a residência, não tinham problemas de água, porque a mesma passava sempre por uma pequena vala de drenagem feita pelo projecto. Conta que o problema de inundação começou nestes últimos quatro anos e já se dirigiram à administração distrital do Kikuxi e à municipal de Viana, onde endereçaram várias cartas, a fim de verem o problema solucionado, mas até ao momento continuam esperando. Jairo Candumba fez saber que uma equipa técnica acompanhada de um topógrafo já esteve no local e a mesma garantiu que iam desviar o curso da água e levantar uma vala separada, diferente da que tem no projecto. “Esperamos que essas palavras não tenham sidos lançadas vagamente e que realmente venham a cumprir”, disse.

Dengue, paludismo e infecção urinária doenças frequentes no bairro

Os moradores também estão preocupados com as várias epidemias que assolam o bairro, por causa da água que estagnou na zona. Os moradores vêem naquilo um verdadeiro foco de mosquitos, que propiciam o aparecimento de muitas doenças, como a dengue e o paludismo. Pudemos constatar durante a nossa reportagem muitas crianças a se banharem naquela água, facto que tem sido uma constante. Segundo Jairo, todos os dias o cenário é o mesmo e há muitos casos registados de paludismo e infecção urinária. “Muitas crianças aqui padecem de problema de urinar sangue devido à mesma água, que acabam ingerindo na hora do banho”. Por causa da água, as ruas estão quase intransitáveis e há um isolamento do bairro que permite o vandalismo e a delinquência, junto com os assaltos que têm sido constantes.

Mas o que mais preocupa neste momento, depois da água e as chuvas que se abatem na cidade capital, são os postes de energia que são feitos de madeira e quase todos eles estão no meio da água e danificados, pelo que teimem pelo pior. Enquanto isso, Neusa de Almeida ressalta que a ideia dos moradores não consiste em pedir outras residências, mas apenas uma solução da água que obriga muitas famílias a viverem em circunstâncias piores. Por causa da água, ela e a família tiveram de abandonar a sua residência (de um andar) e viver na renda, num outro bairro, do outro lado da estrada. Há quatro anos que vivem nessa situação e já fizeram várias contribuições com os vizinhos e reuniões constantes no sentido de ver o nosso projecto em condições. Já fizeram também várias valas para a água seguir o seu curso normal.

Neusa contou que duas escolas estão fechadas no bairro por causa da água que invadiu todas as salas. Uma é privada e, devido ao acesso da estrada à escola, acabou por fechar, e a outra é comparticipada. A entrevistada é dona da escola comparticipada, que tem nove salas e tiveram de parar as obras por causa da água. Ela ficou ao meio e sem solução. “Já entulhei e fiz de tudo, mas não obtivemos sucesso. Tenho a documentação toda, o imposto pago, e até declaração de reconhecimento que me autoriza a dar aulas, mas por causa da água parámos tudo. Tive de vender casas para fazer a minha escola comparticipada e quando vejo até a cabeça dói”, conta. Conta ainda que os carros não conseguem entrar no bairro, há pessoas que perderam a vida por causa da água, porque quando chove é um desastre.

Os postes estão danificados e há um poste de energia que já caiu só que apoiou-se no muro de uma casa e só por isso ainda tem corrente eléctrica. Até ao momento, nada foi feito pela administração local, de acordo com os munícipes. “Estamos à espera. Queremos que eles ponham a mão, porque estamos mesmo a precisar. As pessoas abandonaram as suas residências e já não aguentamos com essa situação. Estamos a abandonar tudo. Disseram que a administração já esteve aqui e só estamos à espera que cumpram com o que prometeram”, reforçam. Segundo contam os moradores, o administrador municipal de Viana, André Soma, já se pronunciou e efectuou uma visita neste local com uma equipa técnica, onde conseguiu constatar as preocupações dos munícipes e o responsável garantiu aos moradores que será feito um desvio da água proveniente do Kikuxi.

Administrações no “passa-passa”

O jornal OPAÍS contactou o director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imagem de Viana, Paulo Matias, que confirmou a informação de que já estiveram no local, na semana passada, e foram até ao canal da água. Constataram que a zona não pertence ao distrito de Viana, mas sim de Belas. Assim sendo, o Jornal OPAÍS contactou o director de Comunicação e Imagem de Belas, Neto Segunda, e este por sua vez, afirmou que o bairro não pertence ao distrito de Belas, mas sim, de Viana. “Nós não temos o Bita Vacaria na nossa jurisdição. Temos apenas os Bita Flor, Bita Florêncio e Bita Caquesse”, reforçou.