Ciro Gomes culpa PT e Lula pela ascensão de Bolsonaro

FORTALEZA,CE,BRASIL,29.09.2017- Ciro Gomes participa de debate na Seplan. (fotos-Fabio Lima/ O POVO)

Ciro Gomes, terceiro colocado no primeiro turno da eleição presidencial, acusou o Partido dos Trabalhadores (PT), do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de ter propiciado a vitória de Jair Bolsonaro. “O PT elegeu Bolsonaro”, sentenciou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo divulgada na Quarta- feira (31).

“O lulopetismo virou um caudilhismo corrupto e corruptor que criou uma força antagónica que é a maior força política no Brasil hoje”, acrescentou Ciro Gomes, do Partido Democrata Trabalhista (PDT). Ciro, ex-ministro de Lula de 60 anos, obteve 12,5% dos votos no primeiro turno, atrás de Bolsonaro (46%) e de Haddad (29%). Num primeiro momento, declarou o seu “apoio crítico” a Haddad, mas logo viajou para a Europa, sem se envolver na campanha da segunda volta.

Ao retornar, um dia antes da votação no último Domingo, evitou apoiar explicitamente Haddad e pareceu se posicionar como líder de uma futura oposição. “O Brasil precisa a partir de Segunda-feira é construir um grande movimento” que “defenda a democracia” e proteja “os direitos” dos mais pobres, declarou. Bolsonaro, um admirador da ditadura militar (1964-1985), venceu a eleição com 55% dos votos, contra 45% obtidos por Haddad. “Não declarei voto ao Haddad porque não quero mais fazer campanha com o PT (…) Fomos miseravelmente traídos. Aí, é traição, traição mesmo. Palavra dada e não cumprida, clandestinidade, acertos espúrios, grana”, disse na entrevista. Na lista de reprovações, ele sustentou que o ex-presidente Lula (2003-2010) compactuou com o Partido Socialista (PSB) cargos nos dois governos para que esta força não se aliasse ao PDT.

O ‘cacique’ político do estado do Ceará assegurou que Lula, antes de ser proibido de disputar a eleição por sua situação judicial, pediu a ele que fosse seu companheiro de chapa, um papel que foi de Haddad. “Esses fanáticos do PT não sabem, mas o Lula, em momento de vacilação, chamou-me para cumprir esse papelão que o Haddad cumpriu. E não aceitei. Considerei que fui insultado”, afirmou. O ex-candidato assegurou que havia avisado Lula da “roubalheira” na Petrobras e sustentou que o ex-líder sindical se cercou de “bajuladores”. “Lamento que Ciro Gomes esteja tão irritado com o seu resultado eleitoral insatisfatório. Mas entendemos suas dores e somos solidários. O que importa é a unidade contra o fascismo (…) Nisso estaremos juntos!”, twitou a presidente do PT, Gleisi Hoffman.

Uma rivalidade de quatro décadas

O PDT e o PT foram fundados em 1980 e rivalizam desde então pelo eleitorado de esquerda. O líder do PDT, Leonel Brizola, de volta do exílio, pretendia ser novamente a figura política central do início dos anos 1960, como herdeiro do presidente nacionalista Getúlio Vargas, que se tinha suicidado em 1954. Mas o PT, surgido da confluência de movimentos sindicais e sociais, ex-guerrilheiros e comunidades religiosas da Teologia da Libertação, imprimia uma nova dinâmica à esquerda sob a liderança de Lula, um metalúrgico. O PT via o PDT como um partido arcaico, e o PDT denunciava o radicalismo do PT. Na eleição de 1989, Lula ficou em segundo lugar, à frente de Brizola, e perdeu a segunda volta contra Fernando Collor.

Brizola pediu que votassem por Lula, mas não sem ironia:” A política é a arte de engolir sapos. Não seria fascinante fazer agora a elite brasileira engolir o Lula, este sapo barbudo?”, questionou. Em 1994, Lula voltou a ficar em segundo lugar, com 27% dos votos, metade dos conquistados por Fernando Henrique Cardoso. Brizola ficou em quinto. Em 1998, Lula apresentou-se com Brizola como companheiro de chapa, mas FHC foi eleito, e novamente no primeiro turno. Em 2002, quando finalmente Lula venceu, o PDT apoiou na primeira volta Ciro Gomes, que ficou em quarto. Ciro foi nomeado ministro de Integração Nacional de Lula, e Brizola não demorou a denunciar as políticas pró-mercado do PT. Em 2004, Brizola foi a única fonte citada pelo jornalista do New York Times Larry Rothers num polémico artigo sobre o suposto alcoolismo de Lula. Quando o líder do PDT faleceu em Junho daquele ano, Lula decretou três dias de luto. Mas nos funerais foi recebido aos gritos de “Traidor!”.