Dodó Miranda: “Posso produzir todo o tipo de música, excepto profana”

Vencedor da primeira edição do Festival da Canção da Rádio Nacional de Angola (RNA),em 1997, interpretando a música em Kikongo “Tunsanisa”, o músico Dodó Miranda celebrará 31 anos de carreira, tendo revelado na conversa que se segue os seus desejos, projectos, ambições e os pontos altos e baixos enfrentados ao longo destas três décadas. Por outro lado, salientou que não produz música profana e, no próximo ano, pretende lançar um novo álbum de originais.

Para festejar os 31 anos de carreira, Dodó Miranda vai realizar no dia 11 do mês corrente, o concerto “Trajectória”, no cine Atlântico, às 16 horas, com duração de duas horas e contará com um grupo coral que vai representar os Embaixadores de Cristo, o Trio Lude, os MB Genius e a banda que o acompanha.

Adão João Gomes de Miranda é casado e pai de cinco filhos. Como surge o nome Dodó Miranda?

Dodó é o nome que me chamavam em casa, é um diminutivo de Adão, pelo facto de ser irmão cassule.

Passaram três décadas desde que começou a cantar. Como é celebrar 31 anos de carreira. Quais foram os pontos altos desta trajectória?

Tenho muitos pontos altos durante este percurso e tenho por isso recebido o feedback do público consumidor que gosta das minhas músicas, sobretudo na área evangélica, pessoas que estavam no mau caminho e mudaram. É muito gratificante quando conseguimos transformar vidas de pessoas, através da música.

Qual foi o testemunho que o terá sensibilizado mais nessas mudanças?

O testemunho que mexeu comigo foi há seis anos, um senhor abordou- me nas bombas de combustíveis e disse-me que a filha mudou de comportamento, por causa da música intitulada “Nabeleli yo”, um tema que retrata histórias de superação.

Começou a cantar no Coral dos Embaixadores de Cristo da Igreja da Comunidade Menonita, na RDC e não mais parou. Qual é o estilo de música com o qual te identificas: gospel ou jazz?

A minha preferência é jazz, balada, música suave. Na verdade, o gospel não é um género musical, mas é o nome que se dá a toda música evangélica que pode ser qualquer estilo nomeadamente, Semba, Kizomba, Bossa Nova, Zouk e outras

Canta para Jesus ou para ter dinheiro?

Bom, precisamos, em primeiro lugar, compreender a essência da música que está a ser rotulada como Gospel. Existe a música sacra como o próprio termo diz é sagrada, litúrgica e acompanha a liturgia durante o culto, que são cânticos congregacionais e vocacionais. Já o Gospel surgiu por causa do Novo Testamento, para anunciar as Boas Novas, quer dizer que,é uma religação. Hoje, estamos a confundir a música evangélica, que também tem um pendor social e se torna um produto, no entanto, pode ser vendida. Agora, se estivesse a cantar para ter dinheiro já seria rico. Estou a cantar para divulgar a mensagem de Jesus, mas também sou profissional e é o meu ganha-pão. Claro, que sei conciliar ambas as coisas. Na música Gospel transmitimos as mensagens de boas novas e não negativas.

Qual é a sua opinião sobre os músicos “rotulados” Gospel, mas que participam em shows de música secular?

Não acho mal nenhum, porque a música gospel tornou-se num produto, que carece de ser exposto, é preciso divulgação. Claro, que há muito que se diga no seio evangélico, que é normal, depende do conceito e a forma como as pessoas vêem Deus, porque esquecem que são seres humanos e não espaciais ou espirituais.

Como assim?

A Bíblia diz que estamos num tempo de culminar, da mesma forma que a maldade progrediu, do mesmo modo, que o bem tem de fazê-lo, por isso, a palavra de Deus vai entrar em todas as esferas.

Já foi muito criticado por cantar música Gospel e Secular. Qual é o seu argumento. Existe algum fundamento bíblico para justificar?

O fundamento bíblico diria que Deus gosta de pessoas que trabalham, porque Gênesis 3:19, diz que com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado, porque você é pó, e ao pó voltará”. Naquela altura, sofri muito com estas críticas, entretanto fui orientado por amigos, colegas e a família. Também descobri que o maior problema é a formatação que temos. A bíblia diz que a palavra de Deus transforma, renova e melhora o nosso entendimento.

Quer dizer que não levou em causa esses comentários?

Imagina, tenho como denominador comum (música), nas duas minhas facetas, referi-me ao lado evangélico e o profissional. É a música que me sustenta e também faz de mim um levita na igreja. Este tipo de atitude permitiu que fosse buscar conhecimento e percebi que os problemas não estavam com as pessoas, mas na minha consciência. Existe a música Secular (mensagens positivas ou negativas), a música profana (mensagens que distorcem os nossos princípios), e evangélica (mensagens religiosas). Por isso, posso produzir todo o tipo de música, excepto a profana.

Já terá pensado em criar um estúdio para produzir música evangélica?

Sim. Na verdade, produzo variedades de músicas. Claro, que tenho mais inclinação para a música Gospel. Recebemos mais “clientes” evangélicos e os meus colegas que cantam música secular também vêm ao meu estúdio e gravam. Por outro lado, temos uma escassez em termos de produtores de música Gospel.

Quantas línguas fala e na qual se sente mais a vontade a cantar?

Penso que me sinto mais a vontade ao cantar em lingala, por ter sido uma das primeiras línguas que aprendi, por ter nascido no Congo Democrático. Falo fluentemente lingala, francês, português, e básico de Inglês. Sou “obrigado” a aprender o Kikongo e Kimbundo, pelo facto de cantar muitos hinos. O português é difícil por causa da acentuação e o enquadramento.

Como surge o gosto pela música gospel?

A música gospel foi-me “imposta”, porque nasci numa família evangélica. A minha mãe pertencia a um coral, de que mais tarde cheguei a ser dirigente. Nos anos 80 havia uma grande revolução na forma musical artística. No Congo, na altura, o presidente era o Mobuto Sese Seko e tinha imposto uma lei “retorno às origens”, ou seja qualquer músico que cantasse música estrangeira seria preso e todos eram obrigados a cantar em línguas nacionais. Já a música sacra é fruto da influência sofrida por artistas de renome mundial, ainda na década de 1980, entre os quais Marvin Gay, Aretha Franklin, Mahalya Jackson, Golden Gate Quartet, Les Palata, Louis Armstrong, Ray Charles, Trio Sango Malamu, os blues feitos na época por BB King, Muddy Waters, e tiveram fortes influências do grande pioneiro da música gospel congolesa o então falecido Charles Mombaya Massain.

Em 2006 venceu o Festival da Canção organizado pela LAC (Luanda Antena Comercial), interpretando o tema “Vento”, de Jomo Fortunato. Qual foi a sensação?

Foi um grande desafio. Na altura, não queria participar no festival, pelo facto de ter já nome no mercado, e o festival era destinado a novos valores. Foi uma boa experiência e a partir daí comecei a cantar músicas não e

Qual é o artista nacional e internacional a quem gostaria de pedir para compor uma canção?

Um dos meus sonhos já foi realizado. O músico Lokua Kanza escreveu uma canção para mim e faz parte do meu álbum “Já é Hora” é o título da música na língua lingala lingala significa Deus é que dá. Outro sonho é poder vir a fazer um dueto com Stevie Wonder.

Dono de 15 discos entre Max single e singles. Qual é o disco que mais o marcou?

Por que motivo? O disco que mais me marcou foi o “Já é Hora”, porque o fiz com poucos recursos. O disco foi produzido depois de dois anos, isso em finais de 2012, por falta de recursos financeiros. E foi nomeado como melhor música na I edição dos Prémios Angola Music World.

Qual é o conselho que transmite e à juventude que pretende abraçar a carreira musical?

É preciso mais bagagem e seria bom ter uma formação, ser um pequeno gestor, de modo a serem independentes para poderem gerir a carreira.

Com que artista é que se sente identificado?

Já me identifiquei com vários como, Lokua Kanza, Salif Keïta, Gabriel Tchiema, Paulo Flores. São pessoas com as quais tive a oportunidade de conviver e lidar.

Fale-nos do show “Trajectória” o concerto a decorrer no Cine Atlântico?

Vai acontecer no dia 11 de Novembro do ano em curso, no Cine Atlântico, a partir das 16 horas, terá duração de aproximadamente duas horas. Como é de trajectória todos os convidados vão actuar comigo no palco, porque vou mostrar estas etapas. Terá um coro sénior que vai representar os Embaixadores de Cristo, que é o coro que me viu nascer e a crescer. Teremos o Trio Lude, os MB Genius, e a banda que me acompanha.

Que projecto tem para os próximos anos?

Estive a trabalhar com o Ministério da Educação num disco que irá trazer canções educativas, de incentivos para estudantes e compilei outras músicas que hão-de fazer parte do mesmo trabalho, e brevemente estará disponível para todos os estudantes.

Interesses

Um lugar para viver?

Qualquer lugar em que encontre estabilidade e paz.

Com que famoso faria uma selfie?

Com todos os meus amigos. Pelo facto de admirar e respeitar todos os artistas, por exemplo, gosto de Loren Rios e outros artistas.

O que faz ao despertar?

Já tive o hábito de ouvir música ao despertar, mas, agora, faço caminhadas para manter a forma.

Como é o seu dia?

O meu dia resume-se ao estúdio e a voltar a casa no final de tarde. No estúdio trabalho como técnico e arranjista.

Guarda alguma coisa da infância?

Sim. Fotografias de infância e sou muito apegado às recordações.

Que países gostaria de conhecer?

Cuba, Cabo-Verde e Moçambique, tenho desejo de conhecer.

Qual é a comida de que mais gosta?

Peixe grelhado, feijão de óleo de palma e funge de milho.

Quando está aborrecido de cantar o que faz?

Gosto de ficar sozinho e procuro ter mais tempo com a família e estar com os amigos

Facebook ou Twitter?

Facebook, mas agora o trabalho não permite que passe tanto tempo nas redes sociais.

Uma virtude…

Atencioso…

Um defeito

Impaciente, principalmente com a pessoa à quem devia prestar mais atenção, a minha esposa.

Alguma anedota que nos pode contar durante este percurso?

(Risos)… Um belo dia depareime com um grupo de jovens, um deles dizia que conhecia perfeitamente o músico Dodó Miranda, e começou a falar das características físicas, aonde vive e outras coisas. No momento, pensei que o jovem estivesse a gozar, mas depois apercebi-me que não me conhecia porque eu estava diante dele (….) Momentos depois, desculpou-se e começámos a rir.