“Plástica é muito mais do que estética”

Dadi Bucusso Netemo, um dos poucos médicos angolanos especializados em cirurgia plástica, aborda, em entrevista a OPAÍS, o exercício dessa actividade em Angola e os riscos que correm as pessoas que se deixam operar em locais inadequados, com vista a melhorarem a sua aparência física. A criação de uma associação de especialistas do género e a sua importância também foram afloradas.

Pouco se fala sobre o médico cirurgião plástico em Angola, tem noção de quantos angolanos têm esta especialidade?

Eu conheço cinco angolanos e estão todos a trabalhar aqui, em Luanda. Não tenho noção se existe outro cirurgião plástico a trabalhar em outra província, mas penso que não.

A jornada laboral de um cirurgião plástico é diferente da dos médicos de outras especialidades?

Eu vou começar por falar sobre a história da cirurgia plástica. Ela é um ramo da cirurgia que surgiu depois da II Guerra Mundial. Apesar de existirem relatos mais antigos, sobretudo na Índia, porque na Índia Antiga a amputação do nariz era uma forma de condenação. Só que o individuo era condenado à amputação do nariz e depois de cumprir a pena ele vivia sem nariz. Então, houve alguns que procuraram os médicos no sentido de ver se havia a possibilidade de reconstrução do nariz. Um médico indiano foi o primeiro a fazer um retalho (retirar a pele com os tecidos que estão debaixo e deslocar para a parte do corpo em que é preciso) para reconstrução do nariz. Falava depois da II Guerra Mundial por ser o período que deu o “bum”, uma vez que ela provocou muitos danos, com realce para os físicos. As pessoas que tinham tais danos físicos foram procurando cirurgiões que tinham essa capacidade. O que contribuiu para o desenvolvimento de muitas técnicas de cirurgia plástica. Hoje as técnicas estão mais avançadas….

Como ia dizendo, naquela altura era uma cirurgia mais de reparação ou reconstrução. Hoje a cirurgia plástica está subdividida em quatro ramos principais, a cirurgia plástica reparadora, a cirurgia plástica estética, a cirurgia plástica ligada ao trauma, sobretudo da face, e a cirurgia plástica ligada ao paciente queimado. A partir dos anos 1990, com a redução das cirurgias de reparação ou reconstituição, as pessoas passaram a recorrer a ela para alterar a configuração de uma parte do corpo (como o nariz e as orelhas) que não foi traumatizada. Então, como os médicos conseguiam dar essa resposta às exigências dos pacientes, logo a cirurgia plástica estética deu um salto muito grande. Hoje, mais de 70% dos procedimentos de cirurgia plástica realizada no mundo são ligados, sobretudo, às cirurgias plásticas estéticas, logo, o dia-a-dia do cirurgião plástico, para responder à sua pergunta anterior, é fazer estética, reconstrução, trauma e queimado.

Em que parte do corpo hoje é maioritariamente feita a cirurgia estética?

Na estética hoje, no mundo, o que mais se faz são os procedimentos ligados às mamas (aumento do volume da mama ou a diminuição do volume da mama), ao rosto, ao glúteo (músculos que se localizam logo acima da coxa e abaixo da cintura). Há muito aumento de glúteo (músculos das nádegas). Há ainda a pantorrilha (proeminência muscular situada na face póstero-superior de cada uma das pernas). Sem esquecermos o nariz. Hoje faz-se muita rinoplastia, sobretudo na população Europeia e Americana. Resumindo, o que mais se faz actualmente são os procedimentos mamoplastia de aumento, rinoplastia, blefaroplastia (é uma cirurgia estética destinada a remover a pele enrugada e descaída das pálpebras superiores e/ou inferiores) e, sem esquecer, a abdominoplastia.

Qual deles é a que mas se faz, em Angola?

Nós não temos dados. Pelo que não posso falar de uma maneira geral de Angola, mas posso falar de mim. O que eu faço mais, em 80% dos casos, são cirurgias reparadoras relacionadas a traumas de paciente queimado. Eu, particularmente, não tenho muitos pacientes de estética.

Já temos registo no país de pessoas que se deslocaram ao exterior para fazer tais cirurgias plásticas. Há algum risco que elas correm?

Não, desde que escolha bem, a clínica e o médico. Toda e qualquer cirurgia tem as suas complicações naturais, independentemente de quem faça ou de onde foi feito, mas quando tiverem de operar devem escolher bem. Saber qual é a identidade do médico e da própria instituição. Claro que sair de um lugar para operar no outro tem as suas desvantagens do ponto de vista social, que são coisas que normalmente se ultrapassam. No entanto, as pessoas vão buscar bem-estar onde elas acharem que podem encontrar. Isso é normal, não temos problema com isso. Mesmo até que aumente o número de cirurgiões plástico em Angola, esse movimento vai continuar. Você acredita que tem pessoas que deixam os Estados Unidos de América para serem tratado no Brasil ou noutro país da América Latina? E vice-versa. Portanto, a pessoa tem direito de escolher onde e por quem quer ser operado.

Em média, quantas operações o doutor Dadi faz por semana?

Actualmente, por ser funcionário público, fico muito tempo sem prestar medicina privada. Quando o fluxo é bom, podemos fazer em média três a quatro cirurgias reparadoras por semana, sobretudo em doentes com traumas e queimados, porque nós acompanhamos os nossos pacientes durante um bom período de tempo.

Esse acompanhamento a que se refere leva quanto tempo especificamente?

Até à cicatrização, às vezes até mesmo ao período pós-cicatricial. Isso porque, por vezes, a cicatrização pode não ser conforme se esperava. Nós, da raça negra, desenvolvemos o “queloide”, que é uma cicatrização exagerada e, por vezes, você deve tratar essa situação delicada que não tem nada a ver com o procedimento, mas sim com o próprio individuo. De uma maneira geral, hoje, muitas pessoas procuram para se informarem sobre procedimento estético.

Qual é o caso mais marcante de cirurgia plástica que fez?

Cada caso marca de maneira diferente, mas o caso que eu não posso esquecer, até porque foi a minha primeira publicação, foi de uma criança que operei em 2010 no hospital Josina Machel, na altura ainda era estudante de especialidade de cirurgia plástica no Brasil. Houve uma criança que teve uma lesão no couro cabeludo e aquilo fez uma infecção e o couro cabeludo todo saiu com a exposição do crânio e ossos que não podem ficar sem cobertura. Eu nunca tinha feito algo igual. As coisas saíram como mandam as regras. Recentemente, de forma gratuita, fizemos a operação do menino que foi mordido por um Pit bull na região da bochecha esquerda, zona que tem músculos que fazem parte daquilo que nós chamamos mímica facial e mastigação. Fizemos um retalho e avanço (movimentação de uma estrutura que está ligada à pele e aos músculos de um lugar para o outro) a tecidos vizinhos para tapar a zona que havia sido cortada pelo animal. E na área onde retiramos o retalho fechamos com pele que fomos buscar na região inguinal da criança. Na área onde retiramos a pele fechamos com pontos.

E como está o menino?

Já se passou mais de um mês. Eu estive em contacto com o menino, ontem, na clínica. Ele está bem. Tem a mímica facial e a mastigação mantidas. Não tem desvios, o que mostra que não há lesão nos nervos. Estamos a tratar da aparência da cicatriz no rosto. Neste momento está a usar pomada para melhorar a aparência da cicatriz. Do ponto de vista funcional, ele está bem.

Há algumas jovens que têm usado métodos inadequados para aumentar algumas partes do corpo, como as nádegas. Que opinião tem sobre isso?

O meu ponto de vista é o seguinte: muitas sociedades já passaram por essas situações. Hoje há pessoas que almejam melhorar a sua aparência, algumas não vêem preço e nem medem as consequências quando tomam esse tipo de decisão. A cirurgia plástica existe para dar satisfação em algumas situações. Existem as prósteses para nádegas e faz-se muito em todo o mundo. Esses produtos não convencionais não são feitos por profissionais. Quando digo profissionais, estou a falar que não são técnicos de saúde, médicos, enfermeiros ou pessoas especializadas para tal. Então, a partir daí já não vejo bem essa situação. Sei que são feitos em lugares impróprios, como ginásios, por indivíduos que não estão capacitados para tal. E muitos desses procedimentos são invasivos. Logo, terão várias consequências no futuro, mas, como dissemos, cada um assume os seus actos. Claro que nas nossas consultas aparecem as pessoas, todavia, quando aparecem já chegam com outras complicações e, como médicos, temos de tratar. No entanto, acho que as pessoas são livres de fazer o que quiserem com os seus corpos, desde que, pelo menos, tenham noção das consequências que isso poderá causar-lhes.

Tem conhecimento sobre as substâncias que são usadas nestes casos?

Eu não sei bem quais são as substâncias que usam, entretanto, acho que é preciso fiscalizar, porque, senão, daqui a pouco vamos ter outros problemas. Não sei se já ouviram falar dos escândalos das próteses quando começaram a ser fabricadas… Na altura, houve indústrias que faziam próteses falsas, que não tinham as características aceitáveis para se introduzir no corpo de seres humanos. Há registos de empresas que foram fechadas por causa desse tipo de escândalos. As pessoas devem ter noção do tipo de substâncias que lhes estão a ser injectadas. Quem às injecta. Quem as comercializa… Não podemos estar a ver, a rir e a bater palmas, não! Senão, qualquer dia teremos uma situação grave. Hoje está tudo bem, e amanhã? Estamos preparados para as consequências? Eu não posso tomar um remédio de que não conheço o nome. Hoje isso faz-se muito na camada jovem, sem esclarecimento e sem noção do que lhes está a ser aplicado. Por vezes, até pode ser uma das substâncias que se aceita, mas quem garante que é? Por essa razão, acho que deve haver um maior controlo por parte das estruturas competentes.

Tem noção de quantos pacientes recebeu até agora, este ano, que terão sido vítimas deste tipo de tratamento?

A noção exacta não, mas são mais de 10. Eles fazem muito esse procedimento e têm algumas consequências que são imediatas, como os linfedemas (acúmulo de linfa nos tecidos do organismo), os módulos no local, a infecção… Nós tratamos e aconselhamos.

“Não vemos o género, mas sim os procedimentos”

Para além das senhoras, também há registos de senhores que o fazem com o mesmo propósito?

Já ouvi falar do uso de algumas hormonas, progesterona, estrogénio… mas, como já disse, essas coisas não devem ser feitas como estão a ser feitas. Por pessoas que não são profissionais e que não estão habilitadas para o fazer. Mesmo nós, na medicina, temos limitações. Eu sou cirurgião plástico. Durante a formação, tive uma disciplina que é ortopedia. Fiz estágio de ortopedia, mas não posso operar como ortopedista. Não estou habilitado para isso. É como conduzir um automóvel: eu tenho uma carta que não me permite conduzir carros pesados. Eu sei conduzir, mas não posso fazer isso. O mesmo deve acontecer nestes casos. Veja-se que, quando a coisa se complica, eles não vão procurar os leigos. Vão aos hospitais e, por vezes, os próprios pacientes não sabem dizer que substância lhe foi aplicada e em que quantidade. Nós não desencorajamos as cirurgias, mas as más práticas. As pessoas têm é que saber onde é que estão a fazer e quem está a fazer. A isso chamo responsabilidade. É como as tatuagens: há casas credenciadas para as fazer, mas há pessoas que as fazem também em qualquer lugar. Todo o cuidado é pouco.

Qual é o género que mais faz?

São as mulheres. Nós, na cirurgia plástica, não vemos o género, mas sim os procedimentos. A blefaroplastia, o tratamento de rugas, por exemplo, o procedimento é igual tanto em homem como em mulher. Claro que os contornos fisionómicos são diferentes dos do homem. Todavia, a cirurgia mais difícil é aquela que você não domina. A mais fácil é aquela que você mais domina. Às vezes o domínio está na realização constante.

Há alguma idade exacta para se fazer cirurgia plástica?

Imagine que uma criança nasce com um defeito. Um defeito muito frequente nas crianças é a separação dos lábios. Chamamos de fissura labial. Neste caso, ela pode fazer uma cirurgia plástica cedo, com um mês, seis meses ou um ano, dependendo das características do defeito. A cirurgia plástica é diferente da estética, como já dissemos. Será uma cirurgia morfofuncional porque vai melhorar a morfologia e a função. Se uma criança de um mês se queimar, também pode ser tratada por um cirurgião plástico. Então não tem idade o podermos fazer. Falo isso para tirar das pessoas a ideia de que plástica é só estética. Plástica é muito mais do que estética. Acho a pergunta pertinente.

Já agora, qual tem sido a contribuição do Estado na formação de médicos-cirurgiões plásticos?

Agradecemos ao Estado porque, pelo menos, quatro dos cinco cirurgiões plásticos que conheço fizeram a formação de especialidade a custo zero. O Estado é que permitiu e patrocinou. No meu caso, o Estado fê-lo a 100 %. Por isso, temos também a obrigação de ajudar o Estado nessas circunstâncias. Com relação a isso, o nosso Estado ajuda muito. Há pouco tempo, houve os queimados do Cuanza-Norte. Tudo isso é trabalho para os cirurgiões plástico e o hospital Neves Bendinha, o único especializado no género no país, só tem um médico com essa especialidade. Neste caso, comandei a equipa de voluntários que os assistius do aeroporto até ao hospital dos queimados. Sempre que acontecer uma situação que precise de cirurgião plástico temos que nos solidarizar, porque somos poucos. Neste momento, há uma colega que está em Campinas (Universidade de Campinas, no Brasil) a fazer especialização na área, também com o apoio do Estado.

Que papel pode ser desempenhado por uma associação do género?

Variados. O primeiro papel seria de educar, esclarecer, prevenir e depois, claro, que é o papel fundamental, tratar e acompanhar. O médico tem esse papel de esclarecer as vantagens e desvantagens das cirurgias, bem como as suas complicações. Logo, é preciso sermos em número suficiente, ou, pelo menos que dê para esse acompanhamento. Claro que existem, por exemplo, no “Hospital de Queimados”, colegas que são médicos, não cirurgiões plásticos, mas que fazem procedimentos de cirurgia plástica porque aprenderam lá. Isso é muito bom. É preciso ensinar os procedimentos para ajudar no tratamento das situações. Há procedimentos que depois de dois a quatro meses o médico se habilita a fazer cirurgia plástica. Há médicos lá que fazem isso há mais de 10 anos. Eu nem era ainda cirurgião plástico.

Perfil….

Dadi Bucusso Netemo nasceu a 26 de Setembro de 1972 na comuna de Kussu Pete (onde o seu avô era regedor), município da Gamba, província do Uíge. Frequentou a pré-classe na antiga escola Vasco da Gama, actual Colina do Sol, de onde foi transferido para a São José do Cloni. Fez o curso de ciências exactas no Centro Pré-universitário de Luanda (PUNIV). Faz parte do grupo de médicos que levou dez anos para se formarem na Faculdade de Medicina da Universidade Agostinho Neto, por ter sido encerrada por quatro anos. Beneficiou de uma bolsa de estudo para fazer o curso de especialidade em cirurgia plástica na Universidade de Campinas, no interior do São Paulo, no Brasil, através do convénio que mantinha com o Hospital Josina Machel. Mestrando em gestão hospitalar. É membro da Sociedade Latino-americana do Tratamento de Feriadas e da Ordem dos Médicos de Angola. É, actualmente, director da Escola de Formação de Técnicos de Saúde de Luanda. É conferencista internacional. Tem artigos publicados em revistas internacionais. Fez uma formação em Resgate Aéreo em Paris, França. Trabalhou no Departamento de Saúde do Ministério do Interior. Trabalha como cirurgião plástico em algumas clínicas. Casado. Tem quatro filhos.