Yuri Quixina: “Se a privatização via bolsa for um sucesso, o Presidente vai ter de condecorar a equipa que fizer isso”

O economista Yuri Quixina receia que a proposta de OGE/2019 não promova a estabilidade macroeconómica, porque aposta mais nas despesas correntes do que nas despesas de capitais. Acompanhe a análise dos temas da semana económica do Economia Real

Por: Mariano Quissola / Rádio Mais

Que análise faz à proposta de OGE/209109, olhando para o binómio despesas de capitais e correntes?

Parece de um país que não está em crise. Estamos em consolidação orçamental, mas esse orçamento não demonstra isso, porque o défice primário não petrolífero está sempre em crescimento, vamos atingir 18% em 2109. As despesas correntes são demasiadamente elevadas, mais do que as despesas de capitais, que é formação bruta de capital físico. O salário da função pública, por exemplo, é superior ao investimento em infraestruturas. Os salários da função pública vão estar em 5,8 mil milhões de dólares, enquanto as infra- estruturas vão ficar em 4,2 mil milhões de dólares. O orçamento ainda é muito imediatista.

Como compreender o argumento oficial segundo o qual “o OGE/2019 visa restaurar a estabilidade macroeconómica e acelerar a recuperação do crescimento do PIB”?

Acelerar o crescimento do Produto Interno Bruto faz-se com poupança. Espera-se que o sector petrolífero venha a dar resposta a essa pretensão, com 18 mil milhões de dólares, numa altura em que se passaram três anos e o sector petrolífero não fez grandes investimentos.

Mas há correntes que consideram este modelo perigoso para a soberania económica. Não há riscos nenhuns, porque as empresas não vão sair daqui. É um desafio enorme, porque primeiro deve-se privatizar a própria bolsa, que é do Estado. A visão da Comissão do Mercado de Capitais é de que a privatização por via da Bolsa de Dívida de Valores “poderá impulsionar o surgimento de mercado de acções corporativas. Concorda?

Os mercados de capitais não crescem em depressão económica, particularmente o mercado de acções. Se essa privatização via bolsa for um sucesso, o Presidente vai ter de condecorar a equipa que atingir esse feito.

O BPC anunciou a disponibilidade de 320 milhões de dólares para financiar indústria e agricultura.  É boa notícia?
Sabemos que esse banco público tem muitos problemas de recuperação de crédito, mas aparece aqui com uma robustez financeira para financiar projectos. Penso que deve-se repensar os créditos já concedidos à Agricultura e compará- los com os resultados. Todos os anos, desde 1975, a agricultura recebe financiamentos e sempre houve programa para agricultura.

Porquê que a agricultura não alavanca?

Por que acha que não? Sem o sector industrial não se consegue alavancar a agricultura. Em Julho do ano passado, o BPC contabilizava 500 mil milhões de Kwanzas, que constituía a carteira do malparado. Essa notícia deve pressupor a solução do problema? Pode não estar, porque não há informação sobre o assunto. Mas não acho estranho porque o dinheiro é público. O BPC e o BCI foram criados para serem privatizados no longo prazo. Hoje, infelizmente, continuam do Estado. O governador do BNA perspectiva fusões de bancos.

É a saída?

Se tivéssemos uma economia de mercado não seria necessário o governador do Banco Nacional dizer isso. Se houvesse competição no sistema, os bancos seguiriam essa trajectória.

SUGESTÃO DE LEITURA:

  • Títutlo: ‘A dinámica do capitalismo’
  • Autor: Fernand Braudel A
  • no de lançamento: Outubro de 2007