A biografia de Saramago para esclarecer portugueses sectários

A percepção nacional sobre o único Nobel da Literatura em língua portuguesa ainda é mais negativa do que positiva para os seus concidadãos. Pode ser que a biografia de Joaquim Vieira ajude a esclarecer os maus leitores de Saramagos.

A introdução de Joaquim Vieira à sua mais recente biografia, José Saramago – Rota de Vida, é reveladora do preconceito para com um dos mais importantes escritores da literatura portuguesa. Nela conta como propôs, enquanto director adjunto do semanário Expresso, que se convidasse Saramago para escrever uma crónica semanal em 1993. Justificara o convite com a sua experiência própria de leitor soixante- huitard, o modelo de uma coluna existente no Le Monde, e porque pressentia que o autor ainda poderia vir a ser Prémio Nobel. Assim aconteceu cinco anos depois, deixando o jornal sem a sua marca como testemunho impresso nas páginas de Sábado devido às posições do então director José António Saraiva, e do fundador Pinto Balsemão, contra a presença de um comunista num jornal de tradição liberal.

Revelações

A revelação é a primeira entre as muitas que esta biografia hoje apresentada oficialmente na Biblioteca do Palácio Galveias traz nas suas 751 páginas. O local da sessão não terá surgido por acaso, afinal foi naquelas salas que o operário José se formou intelectualmente e se transformou em Saramago, o escritor que acalentava desejo de o ser desde cedo e que até aos 60 anos nunca teve sucesso suficiente para se destacar entre a “aristocracia” que dominava as letras portuguesas. O biógrafo Joaquim Vieira faz um levantamento exaustivo do seu percurso de vida com recurso a inúmeras entrevistas de quem o conheceu ou trabalhou com ele, revê estudos e investigações de outros sobre o biografado, e escreve o mais longo trabalho que Saramago teve até agora sobre a sua vida e obra.

Que esclarece bastantes pormenores de uma vida que foi dourada por amigos, contestada por inimigos, maltratada por estudiosos da literatura das últimas décadas, analisada com despeito ideológico por alguma crítica literária e até amaldiçoada por várias figuras governativas pouco esclarecidas. Não será por acaso que o primeiro capítulo começa com o discurso de Saramago na entrega do Nobel em Estocolmo. Joaquim Vieira destaca a escolha do premiado em elogiar o seu avô tratador de porcos e questiona se foi uma “tirada literária concebida para a ocasião” ou um “pensamento genuíno”.

Desta e doutras dúvidas está a rota de vida de José Saramago cheia, que o biógrafo tenta esclarecer de vez neste livro, não se preocupando em observar os limites do politicamente correcto ou satisfazer interesses. A melhor notícia é que esta biografia escapa à hagiografia habitual dos que estavam próximos de Saramago e dos que lhe estão ainda. Não retira um ponto da sua vida ideológica como se vai tentando esbater, não ignora a sua roda-viva emocional que colegas seus fazem questão de debicar em sussurro, não passa ao lado das invejas na vida editorial que o “jovem” Saramago tem de enfrentar quando se tenta aproximar dos “grandes” durante o anterior regime, não esquece as duas primeiras mulheres nem o papel de Isabel da Nóbrega nos primeiros grandes sucessos de Saramago.