Coração de médico

Tenho uma pessoa na família cujo filho, ainda bebé, deixou de andar depois de uma injecção mal dada na nádega para tratamento de uma doença de bebé. Ela, talvez por isso, resolveu ingressar na área da saúde, medicina, embora ainda tenha um medo terrível de agulhas (gindungo no olho do outro…).

Por: José Kaliengue

Quanto ao filho, que agora já é adulto, anda que desanda. Anda é demais, não pára em casa, oko! Na Sexta-feira, ouvi uma médica a falar sobre a primeira vez que se emocionou, em que se sentiu derrotada. Disse que foi numa noite de passagem de ano e tudo aconteceu quando lhe chegou uma jovem de vinte e cinco anos de idade com paragem cárdio- respiratória. Teria sofrido uma descarga eléctrica.

Era bonita, dizia a médica, tinha acabado de defender a licenciatura, daqueles casos em que a mãe aposta tudo, vende a casa se necessário, para que a filha tenha uma vida melhor. A médica fez tudo o que sabia de reanimação, chamou pela ajuda de colegas, mas não foi o suficiente. Já em Lisboa, havia conhecido alguém que se tinha tornado mãe cedo e que perdeu o bebé numa doença complicada.

Estudou medicina a seguir, foi para Pediatria, para salvar crianças e não voltou a ser mãe. Sim, os médicos têm coração, por isso mesmo não entendo quando alguns não querem ir trabalhar na periferia, onde são absolutamente necessários. Mas, por outro lado, quando alguém sacrifica tudo para se dedicar a salvar vidas, há que admitir que o Estado pague ao menos o equivalente ao que paga a certos meninos sem serventia.