Museu de Antropologia expõe Traje de Viúva para estudo

 A peça do subgrupo axiluanda, pertence ao grupo etnolinguístico Ambundu representa o processo de viuvez submetido à uma mulher, que varia de 8 a 30 dias. Seguindo estes procedimentos, a mulher estará a demonstrar o amor que sentia pelo seu parceiro

Está patente no Museu Nacional de Antropologia, em Luanda, a peça “Indo Ya Muturi”, (traje de viúva), com base no projecto A Peça do Mês desenvolvido há dois anos. A peça do sub-grupo axiluanda pertence ao grupo etnolinguístico Ambundu e representa o processo de viuvez submetido à uma mulher, que varia de 8 a 30 dias, numa primeira fase.

Durante o percurso do luto, a viúva traja-se com um barrete na cabeça feito de papelão, no formato de um cone, três panos na cintura e dois na cabeça, de formas a cobrir o barrete e os ombros.

Como acessórios ela usa quatros cordões pretos em forma de tranças, feitos de fios de ráfia e de imbondeiro (jindomba), que são postos sobre os seus ombros (dois em cada), de forma cruzada e, no pescoço um colar (dituta) ou (missanga ya jindomba).

O director do museu, Álvaro Jorge, explicou a OPAIS que a questão das crenças e das tradições continuam em voga, particularmente a da viuvez, tida como uma questão actual, praticada pelo povo ilhéu. ”De forma geral, a viuvez acaba por ser uma categoria social, no quadro da cultura. Algumas pessoas com influência do cristianismo e outras não utilizam rigorosamente, mas na regra geral é uma condição social, no quadro da cultura Bantu, e as pessoas obedecem”, esclareceu o directo.

O não cumprimento

O director do museu referiu que seguindo estes procedimentos, a mulher estará a demonstrar o amor que sentia pelo seu parceiro. O também historiador avançou que segundo as tradições angolanas em geral, e as tradições Ambundu, em particular, o cumprimento da viuvez é uma norma social (kijila) e o não cumprimento da mesma implica que a alma do defunto continuará com a mulher, sentindo a sua presença, tendo visões e causando-lhe infortúnio, (ou seja, ela fica presa a ele).

Álvaro Jorge avançou que para a exposição da peça foi realizada uma pesquisa de campo na ilha de Luanda, pelos técnicos do museu e concluíram que o não cumprimento desta tradição acaba por influenciar negativamente na saúde da mulher, como sentir-se doente e implicância na sobrevivência do futuro esposo. ”O processo de viuvez está relacionado com a relação intima que a viúva tem com o defunto.

Pelas consequências é importante o cumprimento dos aspectos relacionados com a viuvez. São crenças, questões subjectivas que devemos acreditar”, observou. Segundo o responsável, numa espécie de transgressão aos rituais a mulher é submetida a um grupo de anciãos entendidos na matéria e detentores de poderes espirituais para o tratamento, de formas a afastar o espírito do defunto que a atormenta.

 

 Ritual da viuvez

Segundo a nota explicativa sobre a peça em exposição, depois da morte do marido, a viúva é levada ao quarto do casal, onde permanece durante um mês. Ela é levada pela sogra e uma mulher experiente (na mesma condição), que acompanhará durante o período do luto. Durante a sua permanência no quarto, ela usa roupas pretas e deverá falar com a voz baixa, de formas a não ser ouvida pelos demais. Também não poderá receber mulheres casadas nem homens.

A pessoa que quiser saudála terá de dar umas pancadinhas na parede e, de dentro, ela responde à saudação do mesmo modo. Igualmente os seus utensílios são separados e manuseados somente pela mulher que está a cuidar e sustentá-la.

Reconstituição da viúva

Passados 8 a 30 dias, começa o período de reconstituição da viúva, durante o qual, a mãe e a sogra rogam ao falecido com gritos para deixá-la livre e contrair um novo casamento.

No segundo mês, ela sai do quarto e permanece na sala por durante 30 dias, onde continua num convívio restrito com as pessoas, dando a mão aos viúvos. No terceiro mês é levada ao quintal e cumpre o mesmo tempo que nos lugres anteriores. Nesta fase ela já pode comunicar- se com os homens, mas sem dar-lhes a mão. T

erminada esta fase, é levada a praia de noite, pela pessoa que esta a cuidá-la ou por alguém experiente da família, para tomar banho (kusukula kua muturi) e deixa ali a roupa preta que usou durante aquele período. De volta à casa, ela veste o luto fechado, num período de um a dois anos. Nesta fase acontece muitas vezes a mudança de cor da roupa, de preto para azul escuro.