Oitenta mil, um sonho

No dia de hoje reflecte-se sobre a industrialização do continente africano, um assunto sobre o qual parece não hacer saída. Há uma aparente incapacidade genética africana de transformar as coisas a seu proveito. O vento, a água, os minerais de que dispõe. Há alguns dias, estava eu numa conversa de circunstância, perguntei ao embaixador de Angola na China como os chineses fazem a industrialização do seu país. No fundo, eu queria saber se os africanos seriam alguma vez capazes de criar indústrias, seja de que tipo for. Eu esperava pelo habitual discurso sobre a China milenar, a pólvora, etc., mas não. Deu o exemplo de um jovem angolano que criou o seu telemóvel. E eu feliz, mas alegria de pobre dura pouco. Ele falou de uma empresa chinesa de tecnologia que sozinha tem oitenta mil engenheiros. É verdade que há que olhar para as devidas proporções demográficas, mas há aqui um sinal claro de quem, se se quiser desenvolver, o continente africano deve apostar nas engenharias e na matemática. Aliás, indo bem lá para atrás, na história, África teve os seus avanços tecnológicos e industriais antes dos impactos da colonização e das religiões. Em Angola, os nossos empreendedores na formação e ensino têm espírito de janela aberta: negócio rápido, para dar lucro rápido e o futuro que se dane. Em breve, teremos oitenta mil formados em comunicação social, direito, recursos humanos, sociologia, mas desempregados, porque não temos químicos, físicos, matemáticos e engenheiros para dar suporte ao crescimento e desenvolvimento da sociedade que, depois, sim senhor, soliccitaria os serviços dos teóricos. É só um sinal de que estamos a fazer aos nossos oitenta mil que estão a “descer”: os conferencistas que se multiplicam a vender banha da cobra sobre enriquecimento, como os pastores de uma certa igreja, mas não há palestras sobre química aplicada e sobre engenharia para resolver os problemas que se levantam na rota do progresso.