Yuri Quixina: “A visita do Presidente a Portugal demonstra falta de contenção nos gastos”

No programa Economia Real, emitido ontem, na Rádio Mais, o economista Yuri Quixina afirmou que a visita do Presidente da República a Portugal é inoportuna, uma vez que esteve recentemente na Europa e devia aproveitar para fazer um périplo

Que análise faz da visita do Presidente da República a Portugal?

E esse país será que ainda é aquele parceiro estratégico dentro da União Europeia? Seguramente que é. Portugal ainda é aquele país que pode nos ajudar a perceber melhor os meandros da Europa no sentido de termos um retorno positivo para o nosso desenvolvimento. De qualquer modo, a visita dele surpreendeu-me, uma vez que o primeiro-ministro português esteve no país há quatro meses. Acreditei que seria apenas em 2019, ou mesmo em 2020, até porque João Lourenço esteve recentemente na Europa em três ou mais ocasiões. E essas visitas têm elevados custos, sobretudo nesta fase de crise para o país.

Não será que João Lourenço e a sua equipa pretenderam transmitir, com esta visita, um tratamento especial a Portugal por se tratar de um parceiro estratégico?

Mas, como disse, o primeiroministro de Portugal esteve em Angola recentemente. Todavia, é um programa presidencial e vamos esperar que seja positiva essa deslocação de João Lourenço a Portugal e que se intensifiquem as relações. É sabido, que Portugal tem uma relação afectiva com Angola, nos domínios económicos, políticos e social.

Até os nossos deputados imitam muito os portugueses. Nós também assistimos a muitos debates realizados em Portugal, sem esquecer que as nossas Constituições têm muitos elementos idênticos. São dois países irmãos, no entanto, há sempre um desaguisado de tempo em tempo. Enfim, é próprio, na medida em que a descolonização não foi feita de forma natural. Portugal não descolonizou bem as suas colónias. Não seguiram bem a estratégia da Inglaterra. Se assim fosse, teríamos uma relação mais saudável. Há quem pense que Angola ainda é uma colónia. Portanto, se quisermos desenvolver o foco de Angola não pode ser apenas via Portugal.

Ao ter ido a França, logo no princípio do seu mandato, ao invés de ir a Portugal, não terá João Lourenço assinalado que existem outros parceiros que não apenas Portugal?

Mas a questão não é ir. São os canais de transmissão da ligação para o desenvolvimento. Em Portugal temos canais, estamos apenas a intensificá-los.

Quer com isso dizer que Portugal continua a ser a porta de entrada para a União Europeia?

Sim, mas devemos partir já para os países nórdicos. Estes têm as melhores práticas e ética e moral.

Do ponto de vista económico, o que pode acontecer depois da visita do Presidente da República a Portugal?

Em primeiro, lugar será o ultrapassar do irritante. Em segundo lugar, sabemos que temos muita dívida com empresas portuguesas, pelo que será fundamental resolver este problema, até porque o país não pode ter fama de mau pagador.

Pensa que o debate vai centrarse sobr dívida de Angola para com empresas portuguesas?

Acho que o foco vai ser esse. O país que mais presta serviço de consultoria a Angola é Portugal. A nossa balança comercial para com Portugal é brutalmente deficitária. Felizmente, e pela primeira vez, o mês de Agosto deste ano foi de superávit para Angola. E, cerca de 50,6 milhões de Euros. Em sentido contrário, nos primeiros noves meses do ano 2018, o saldo de Portugal ultrapassou os 442 milhões de dólares.

A proposta de OGE enfrenta a primeira contrariedade, com o preço do barril de petróleo abaixo dos USD 68, projectado pelo Executivo. É uma grande contrariedade?

Sim. Se as pessoas escutassem antes da elaboração do orçamento não chegaríamos a este ponto. Alertámos que quando se tem alta do preço do barril de petróleo não podemos viver com optimismo. Não aprendemos com o passado, concretamente com o OGE de 2018, que está em execução. USD 68 é dar um tiro no próprio pé, é como viver fora das nossas possibilidades.

O ministro das Finanças admitiu, no que no toca à sua presença na Assembleia Nacional, que voltaria para discussão e com outros cenários…

É isso que acontece quando você estica muito. É como ser um gigante com pernas de barro. Agora estamos obrigados a fazer revisão, pois não depende de nós o controlo do preço do barril de petróleo. Não estamos a ser criativos na elaboração do Orçamento Geral do Estado. Precisamos de inovar em tudo, até no pensamento.

A Sonangol está num processo de regeneração e vai sair da banca, da Unitel e fundir empresas do grupo. Já era esperado para uma petrolífera que há muito saiu do seu core business?

Se afectivamente o Executivo vai tirar a actividade de concessão à Sonangol, a única coisa que resta é fazer uma reforma. É importante dizer que a outra administração também já estava a fazer. E já estava bem delineado, o que se passa é que a nova administração quer dar um outro rumo. No acto de lançamento da regeneração, para o qual fui convidado, foi interessante ver os dados lançados relativamente a este processo.

E o que mais me chamou a atenção Miguel Kitari foram os objectivos deste processo. Primeiro, dado que achei interessante estar ligado aos objectivos desta reforma, cujo principal desafio é acabar com os interesses que existem na nossa indústria petrolífera, particularmente na Sonangol, tornando-a mais transparente e eficiente.

O cancro da corrupção do país foi a Sonangol. A consultora será a Deloitte e o processo vai consumir 40 milhões de Euros, um valor inferior ao proposto pela anterior gestão, uma vez que a proposta era de 135 milhões de dólares em 18 meses. Mas há uma diferença: é que a Deloitte não é especialista em transformação de uma empresa petrolífera, vai contratar noruegueses e brasileiros.

Sugestão de leitura:

  • Título: Opção Liberal
  • Autor: Cláudio Lembo (Brasileiro)
  • Frase: “Angola tem de ser um país assente ao seu tempo”.
  • Temos de entrar no clube dos países ricos até 2040