Soraia Santos: O Museu Regional da Huíla vive hoje tempos de mudança, mudanças positivas ”

Localizado no coração da cidade do Cristo Rei (Lubango), foi criado há 61 anos e tem sido fonte de informação histórica e museológica sobre o passado cultural dos povos daquela região do Sul de Angola. Soraia Santos directora da instituição, fala das mudanças das infraestruturas e dos desafios na melhoria dos serviços prestados ao público

Que retrato faz hoje do Museu Regional da Huíla?

O Museu Regional da Huíla vive hoje tempos de mudança, mudanças positivas que visam a melhoria das infra-estruturas e dos serviços que presta ao público e essas mudanças começam a ser visíveis e notadas por quem nos visita.

Que inovações registou nestes últimos anos?

Tentamos nos últimos anos melhorar essencialmente os serviços prestados ao público, organizar colecções e espaços dentro da instituição. Temos, desde 2014 uma sala de leitura aberta e de acesso livre, onde os nossos livros podem ser consultados. Temos a sala “O contador de Histórias” pensado para os serviços educativos do Museu e que foi patrocinada pelo Banco Económico. Muito recentemente concluímos os projectos de recuperação das estátuas e bustos coloniais que depois da proclamação da Independência foram retiradas dos seus locais de origem e que se encontram no Museu desde então. Temos ainda ao serviço do público uma loja onde promovemos a venda de trabalhos de artesãos locais. Conseguimos nestes últimos dois anos, iniciar e concluir inventários e a catalogação de colecções. Os pontos altos do Museu em 2018 foram o lançamento do 1º catálogo da nossa exposição permanente, a conclusão do projecto de recuperação das estátuas coloniais e o lançamento da obra de Alberto Oliveira Pinto “História de Angola: da Pré-História ao início do século XXI”.

Que acções desenvolveu para aproximar a instituição à escola e à sociedade?

Temos para além das visitas guiadas, o projecto Museu ao encontro das comunidades, o “Contador de Histórias” e o “Descobrir quem somos”, todos vocacionados para os serviços educativos da instituição.

O que dizem os estudantes sobre as acções desenvolvidas neste domínio?

A aceitação tem sido cada vez maior e a compreensão do que é e para que serve o Museu também.

O que mais os atrai, os turistas, em particular, os estudantes nas suas visitas?

A sala das crenças e espiritualidade e, agora, as estátuas e bustos coloniais. Falamos de Luís de Camões, Agapito de Carvalho, D. José da Câmara Leme, Peixoto Correia, Artur de Paiva e João de Almeida, figuras que à excepção de Luís de Camões tiveram ligadas à História quer da Região Sul quer de Angola de forma geral.

As actuais instalações correspondem as vossas e as expectativas do público?

Não, mas temos melhorado o que é possível melhorar, na realidade precisávamos de um Museu de raiz que pudesse albergar todas as nossas colecções com as devidas condições até mesmo no que toca à necessidade de preservação do acervo.

Que reacções e curiosidades têm tido dos turistas ao visitar o Museu da Huíla?

Os turistas ficam surpreendidos com o grande potencial do Museu e com a grande diversidade cultural da Região.

Quantos visitantes recebe o museu anualmente?

Temos recebido anualmente mais de seis mil visitantes.

Como vai o museu em termos de exposições permanentes e itinerantes?

Temos a nossa exposição permanente a fazer 10 anos de existência e estamos a pensar na sua remodelação. Quanto às itinerantes não temos participado nem realizado por falta de condições como por exemplo a falta de um meio de transporte.

Como esta o museu quanto a formação de novos técnicos no domínio da museologia?

Temos duas funcionárias que participaram em 2016 num curso de museologia em Luanda. Mas internamente temos sempre cursos de formação nas áreas técnicas e, neste momento, as funcionárias do Museu estão a fazer um curso básico de inglês, pago pela Instituição, que terminará em Maio de 2019 e que visa permitir a execução de visitas nessa língua quando estamos perante turistas.

Como está a instituição em termos de transporte e investigação no domínio científico?

O Museu não possui qualquer meio de transporte e isso compromete claramente os trabalhos de investigação e recolha que se impõem à uma Instituição com o peso da nossa ou não se tratasse de um Museu Regional, representativo da Zona Sul.

Que investimentos são necessários a curto e médio prazos?

É necessário começar a pensar-se num novo Museu para que o Museu possa crescer em termos científicos e pedagógicos. Precisamos de um meio de transporte para trabalhos diversos e de investirmos em recursos humanos com formação em museologia

Que outros projectos existem ao nível do museu?

Existem muitos. Pretendemos remodelar a exposição permanente, conferindo uma imagem mais aproximada dos Museus internacionais, mais apelativa e com mais informação, pretendemos conseguir um novo depósito para as peças, com condições adequadas às peças museológicas e temos inúmeros projectos no âmbito da divulgação dos trabalhos executados no Museu e das colecções

Que balanço faz das actividades desenvolvidas durante o ano de 2018 e que comparação faz em relação ao ano transacto?

Um balanço muito positivo, diria que foi o melhor ano do Museu Regional da Huíla, com a concretização de vários projectos de peso como referi anteriormente; Lançamento do catálogo, patrocínio do Banco Económico, recuperação da estátuas, patrocínios Água Preciosa, Planasul e Concer e Lançamento da obra História de Angola: da Pré-História ao início do século XXI, patrocínio Água Preciosa. Muitas novidades nos esperam em 2019 também.

História

O Museu Regional da Huíla foi fundado em 1957, inicialmente com o nome Museu de Sá da Bandeira. Contava apenas com duas exposições etnográficas portuguesas. A maior transformação na referida instituição museológica ao longo dos últimos anos está ligada ao seu estatuto orgânico, que foi aprovado em 2014 pelo Decreto Executivo nº 5/14 de 8 de Janeiro. Hoje com 61 anos de existência tornou-se uma referência obrigatória não só para os estudantes da região, mas também para os turistas estrangeiros fascinados pela diversidade do acervo, do seu impacto, e o interesse pelo conhecimento dos hábitos e costumes dos povos da região. No princípio a instituição conservava apenas peças ligadas à história de Portugal, mas aos poucos o acervo foi sendo substituído por peças angolanas. Hoje, conserva mais de 300 peças etnográficas recolhidas nas décadas de 50/60 nas províncias do Cuando- Cubango, Namibe e Huíla. Estas peças representam o quotidiano, as crenças, a tradição, os hábitos e os costumes dos povos desta região meridional do país.