Padre defende reconstituição da história de Angola

a reconstituição da história de Angola deve ser encarada como uma questão urgente, para se perspectivar um futuro melhor para o país, defendeu sexta-feira, na cidade do Huambo, o sacerdote católico Mário Zezano

Em declarações à ANGOP, a propósito do seu livro “A miséria de um povo rico”, a ser apresentado hoje, lamentou o facto da história do país continuar a dividir os angolanos, por conter factos falsificados e manipulados, além de omitir alguns acontecimentos de relevo. Passados 16 anos desde que o país alcançou a paz, o padre Mário Zezano diz ser oportuno que se reflicta adequadamente, sem precipitação nem tendências partidárias, acerca da história de Angola, fundamental para se alcançar o desenvolvimento.

Em Angola, segundo o sacerdote da arquidiocese do Lubango, há muitas verdades escondidas nos escombros dos anais da própria história, justificando, por isso, a necessidade de ser feita uma recapitulação, reconstituindo os episódios vividos no passado. “Para se compreender o hoje de Angola há que regressar aos anos que antecederam a independência e percorrer todos os acontecimentos até 2002, sem emoção, nem precipitação”, recomendou.

O padre Mário Zezano admite que um grande número de angolanos desconhece as causas reais que levaram Angola a mergulhar a um longo e sangrento conflito armado que, durante 27 anos, vitimou muitos dos seus filhos e destruiu todos os factores de produção económica. Sublinhou que a forma como é narrada a história do país, cercada de ambiguidades profundas, está na base da nova geração encarar o futuro com esperança envelhecida.

No seu entender, em três momentos pode-se compreender a história de Angola, sendo o primeiro, iniciado a 4 de Fevereiro de 1961, marcado pela luta armada, onde, segundo ele, nota-se uma unidade nacional jamais vista, oriunda do intuito comum de ver o país libertado do jugo colonial. Já o segundo momento é marcado por desentendimentos que os Acordos de Alvor, assinados em 1974, não puderam resolver e as três independências proclamadas pelos três movimentos de libertação nacional, o que, de acordo com o padre Mário Zezano, prova o nascimento questionável da história política do país.

A assinatura do memorando do Luena, em 2002, dando fim aos 27 anos de intenso conflito armado, faz parte do terceiro momento da história de Angola. O seu livro, de 144 páginas, retrata, em três capítulos, o panorama desolador de Angola, as perspectivas a considerar e os arautos da esperança, com a intenção de permitir que os angolanos possam compreender melhor a história nacional e terem subsídio epistemológico e substracto antropológico para se perspectivar uma nova Angola que, no entender do autor, continua a ser uma miragem.