Preconceito pode comprometer adesão ao teste e tratamento do HIV-SIDA

Tabús, tradições e factores culturais que ainda colocam, directa ou indirectamente, a mulher na condição de submissa podem favorecer a resistência ao teste e tratamento

“O facto de as pessoas saberem que, se o teste de HIV-SIDA der positivo serão marginalizadas e torturadas moral e psicologicamente por outros membros da família, conhecidos e da sociedade alargada, às vezes remete esses indivíduos ao silêncio”, disse a médica de infecciologia Cláudia Barros, adiantando que tal situação afecta com mais intensidade as mulheres.

A especialista em epidemiologia lembrou que, em algumas partes de Angola, onde tabús, tradição e preceitos culturais ainda colocam a mulher directa ou indirectamente na condição de submissa, a resistência ao teste e tratamento se regista com maior frequência. “Porque ainda há a visão de que uma cidadã que só tem um parceiro, se contrair o HIV-SIDA, traiu o marido e passa a ser um indivíduo desprezível na comunidade onde pertence e encarada como um mau exemplo”, recordou a médica, observando que a doença devia ser encarada como outras que qualquer pessoa pode contrair.

Por isso, recomendou a necessidade do reforço da envolvência e do engajamento de toda sociedade civil no combate ao estigma e preconceito no seio das famílias, nos ciclos de amizade e ambientes escolares e de trabalho, a fim de se colaborar, primeiramente, na cura moral e psicológica desses pacientes. Cláudia Barros não deixou de sublinhar o papel que a imprensa joga na sensibilização e mobilização da sociedade, ao ponto de ter aproveitado a ocasião para apelar, de forma dirigida, aos jornalistas que participavam na sessão de formação, à margem da Campanha de Prevenção da Transmissão Vertical do HIV-SIDA, para se empenharem nesse sentido.

A médica de nacionalidade brasileira fez alusão à experiência ocorrida no seu país, à volta do envolvimento da média local no assunto, para demonstrar justificar a eficiência de uma campanha que já é citada entre os exemplos de superação, ao nível internacional. Não menos importante para ela foi chamar a atenção ao perigo que o impacto de certas palavras podem representar para os afectados. “Só para terem uma noção, o Brasil adoptou o termo AIDS, em substituição de SIDA, porque a padroeira dos brasileiros é Nossa Senhora Aparecida, então há muitas mulheres Se chamam Maria Aparecida e, carinhosamente, tratadas por Cida ou Cidinha”, revelou a epidemiologista, realçando que, no princípio, a mensagem da Sida tinha um impacto muito negativo para essas cidadãs. Finalmente, Cláudia Barros explicou que uma campanha tem de encontrar resposta na preparação de materiais, fármacos e serviços, além de disponibilidade de equipas técnicas e especializadas, porque as pessoas que vão aderir precisam ser assistidas.

“Há materiais, o problema são os acessos”

Sobre a existência do material para suportar a campanha, sustentando sobretudo testes e tratamentos dos enfermos, a directora-geral do Instituto Nacional de Luta contra o Sida (INLS), Lúcia Furtado, garantiu que a única razão para queixas residia no mau estado das estradas. “Nós temos estoque para atender à demanda, há materiais, o problema são os acessos para chegar às unidades hospitalares que possuem esses serviços”, aclarou a directora. Adiantou que o material para o teste requeria condições para refrigeração, além de possuir um tempo determinado para utilização depois de ser aberto. Finalmente, a coordenadora da Campanha de Transmissão Vertical do HIV-SIDA deixou patente que a falha não estava na existência de material, mas na sua distribuição.

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