RESEAERCH Atlantico: A economia Sul-Africana

Apesar das novas projecções, os riscos inerentes à possibilidade de a taxa de inflação desviar-se do limite estabelecido, de 3% a 6%, no longo prazo permanecem elevados

O Comité de Política Monetária (CPM) do Banco Central da África do Sul (SARB) reuniu-se no passado dia 22 de Novembro do ano corrente, tendo decidido aumentar em 25 p.b. a taxa de juro de referência, para 6,75%, que representa o primeiro incremento desde Março de 2016, altura em que o CPM aumentou a taxa de 6,75% para 7%. Perspectiva-se que a taxa atinja 7,5% até final de 2020. As estimativas iniciais apontavam para a manutenção da taxa nos níveis anteriores.

A alteração da política monetária na economia mais industrializada do continente africano poderá reflectir, essencialmente, a evolução da taxa de inflação como resultado do aumento do preço internacional do crude. O nível geral de preços da economia sul-africana tem apresentado um crescimento acima de 4%, desde o mês de Março do ano corrente, tendo atingido cerca de 5,1% em Outubro, o nível mais elevado desde Junho de 2017. O Banco Central reviu em baixa as suas projecções de inflação, como reflexo da queda do preço internacional do crude nos últimos meses.

Para 2018 e 2019 espera-se que a inflação se situe em 4,7% e 5,5%, que contrasta com as estimativas anteriores de 4,8% e 5,7%, respectivamente. Entretanto, apesar das novas projecções, os riscos inerentes a possibilidade da taxa de inflação desviar-se do limite estabelecido, de 3% a 6%, no longo prazo permanecem elevados. Os riscos incluem as tensões comerciais, condições financeiras globais mais rígidas, enfraquecimento da taxa de câmbio, crescimento salarial, evolução do preço internacional do petróleo e tarifas crescentes de electricidade e água. Destaca-se que as estimativas do CPM assemelhamse as divulgadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) no relatório sobre as Perspectivas Económicas Regionais da África Subsariana de Outubro de 2018, que apontavam para 4,8% em 2018 e 5,3% no ano seguinte.

O crescimento económico deverá ser mais moderado. De acordo, com as previsões do Banco Central sul-africano, o crescimento económico deverá situar-se em 0,6% no ano corrente, que representa uma ligeira redução comparativamente aos 0,7% estimados anteriormente. Segundo o Governador da instituição, Lesetja Kganyago, os desafios para o crescimento interno são estruturais, o que significa que a política monetária por si só não será capaz de gerar crescimento. Para 2019 e 2020 as projeções apontam para um crescimento de 1,9% e 2%, respectivamente. Por outro lado, a instituição de Bretton Woods prevê que o crescimento na África do Sul seja de 0,8% em 2018, ligeiramente mais optimista em relação às projecções do Governo.

O crescimento poderá reflectir uma recuperação da actividade no sector privado, como resultado da redução das incertezas políticas. Entretanto, o investimento público continua restringido devido a debilidade nos balanços das empresas públicas. Desde o final do ano passado que o crescimento homólogo do Produto Interno Bruto do país tem desacelerado, tendo passado de 1,4% no último trimestre de 2017 para 0,4% no segundo trimestre de 2018. A variação trimestral demonstra que o país registou a primeira recessão desde 2009, no primeiro semestre de 2018, com o PIB a contrair 2,6% e 0,7% no primeiro e segundo trimestre do ano corrente. Aliada à recessão, a taxa de desemprego do país continuou a crescer, tendo passado de 26,7% no primeiro trimestre para 27,5% no terceiro trimestre. Apesar das perspectivas para a economia serem menos positivas, a divulgação do incremento da taxa de juro de referência desencadeou uma resposta positiva para a moeda local, rand, e para taxa de juro da dívida soberana. Na última semana o rand apreciou pela segunda semana consecutiva, tendo a cotação atingido cerca de 13,8608 ZAR por unidade de dólar norte-americano, sendo que na semana anterior a cotação fixou-se em 13,9930 ZAR.

A semelhança, a taxa de juro da dívida soberana emitida pelo país com maturidade em 2026 reduziu 17 pontos bases, situando-se em 8,922%. O Fundo Monetário Internacional alerta para o facto da política monetária não ser uma ferramenta eficaz para fazer face à baixa actividade económica. O momento afigura-se como apropriado para a implementação de reformas paralisadas, com o intuito de restaurar a confiança, atrair investimentos e apoiar o crescimento. Sem as reformas, os riscos macro-fiscais continuarão a evoluir, o que tornará os ajustes subsequentes maiores e mais difíceis. O crescimento pode ser gravemente comprometido a médio prazo, com o consequente aumento do desemprego.