Yuri Quixina: “Não acredito que Portugal está interessado em ajudar Angola”

Na análise à economia nacional, Yuri Quixina reafirma que Portugal não é solução e nem modelo para o desenvolvimento económico de Angola, porquanto está muito embaixo, ao nível da União Europeia. Em relação ao preço do barril de petróleo, em constante queda, não tem dúvidas que a equipa económica do Governo falhou ao ter um preço de referência superior a USD 50

O seminário económico que teve lugar na cidade do Porto-Portugal, no âmbito da visita do Presidente João Lourenço e juntou empresários dos dois países foi ou não uma boa iniciática depois do chamado irritante?

Toda iniciativa que junta empresários de dois pólos é fundamental. Por isso, foi interessante este seminário que aconteceu agora em Portugal. Estamos a falar de uma organização conjunta da AICEP e da AIPEX, que juntou, segundo o primeiro- ministro português, António Costa, mais de 800 empresários. Trata-se de um Fórum que contou com os discursos dos ministro da Economia e Planeamento de Angola, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, e o encerramento coube ao Presidente João Lourenço. A informação que tenho é que foi um encontro bem conseguido, embora poucos empresários tenham feito o uso da palavra.

Da parte de Angola, por exemplo, foram apenas dois empresários. Foi feito um ataque à banca. Naturalmente, à banca angolana, na medida em que não concede crédito aos empresários, concretamente ao sector privado, e estavam a solicitar que fossem os bancos portugueses a fazê-lo. Sabemos por que razão os bancos não concedem crédito ao sector privado (empresas). Estamos num cenário muito complicado em que o Estado vai concorrer com as empresas. Se eu fosse bancário, naturalmente que eu também teria a mesma atitude.

Agora, há elementos interessantes que devem ser levados em consideração. Primeiro é o facto de o Presidente da República ter alertado que não queremos em Angola comerciantes, queremos sim empresários que vêm investir. Os portugueses ficaram muito preocupados com isso, pois a tendência é, ao logo do mandato do Presidente João Lourenço, planos para os investimentos directo para Portugal virem a ser reduzidos. Por outro lado, é importante dizer que os angolanos pensam assim; temos ainda muitos bloqueios estruturais relacionados como o repatriamento de dividendos: para atrair investidores é importante termos uma estratégia sobre isso. Temos também a questão da recessão económica que já dura há três anos consecutivos. Caímos numa depressão, com escassez de divisas, falta de algumas infra-estruturas e outros problemas.

Perante este quadro, o que deve ser feito?

Para os angolanos é fundamental a realização de um trabalho de casa para não cair na lógica da venda de gato por lebre por parte dos empresários internacionais, inclusive os portugueses. Em matéria de sensibilização e fomento empresarial, ficou claro que ainda há muito trabalho por ser feito. Muitos dizem, “Estávamos na cadeira sentados a assistir ao filme e a comer pipocas, agora vamos ter muito trabalho e durante um longo tempo para conseguirmos atrair investimentos estrangeiros.

É por isso que ainda temos muitos comerciantes portugueses em Angola e não empresários?

Os portugueses têm Angola como “El Dourado”, tal como foi transformada a Lunda-Norte, por parte de cidadãos de muitos países africanos e não só. Os portugueses nunca tiveram uma logica de levar indústria para Angola e alterar a estrutura base de exportação da economia angolana. Os portugueses viam o mercado angolano como um mercado de consumo. É importante dizer que Angola já constou no top-5 dos países que mais importam. É por isso que não acredito que Portugal esteja interessado em ajudar Angola a sair da crise. Portugal quer é investimentos de Angola. A maior parte do dinheiro que ajudou Portugal a sair da crise saiu de Angola.

O que fazer?

Temos que identificar os sub-sectores da indústria que podem ajudar a aumentar a base de produtos exportáveis. E eu não vou muito pela agricultura, pois tem os mesmos problemas que o petróleo. Quando os preços das matérias-primas estão em queda a agricultura também cai. A Etiópia já desistiu deste modelo da agricultura. Apesar de ser também uma matéria-prima, o diamante é o produto número-1 da base de exportação do Botswana. Podemos também apostar forte nos diamantes e rivalizar com o petróleo. Estamos entre os cinco maiores produtores de diamantes no mundo.

E a medida tomada pelo Governo de retirar os garimpeiros das zonas de exploração diamantífera pode ou não relançar o país em termos de exportação de diamantes?

Foi essa a visão do Presidente João Lourenço. É o produto de maior exportação de um dos países africanos que cresce de forma equilibrada. Refiro-me ao Botswana. Acho interessante revolucionar o sector. É o caminho que devemos seguir.

E o pagamento do 13º mês de forma faseada nas empresas detidas pelo Estado é ou não uma medida acertada?

É uma estratégia que está a ser seguida há dois anos. É importante por conter dois elementos: redução do excesso de liquidez na economia, por colocar pressão nos preços, e por não termos produção interna, isto sem esquecer que é também pertinente pelo facto de o Governo estar num estádio de desequilíbrio considerável. Quando se reparte o 13º, dá a impressão que não houve. Parece mais um bónus. Haverá também uma moderação na inflação. É uma medida que tem resultado.

O preço do barril de petróleo contínua em queda. O que dizer sobre isso?

Temos uma proposta de Orçamento Geral do Estado pouco realista. Mesmo que o barril de petróleo chegasse aos 100 dólares eu nunca estabeleceria um preço de referência acima dos 50 dólares. Faria poupança no sentindo de crescer, para o dinheiro que sobrasse fosse aplicado no sector produtivo. Fazer reforma contando com o sector petrolífero é o maior erro político que se pode cometer. O preço do barril de petróleo está a ser dominado pelos interesses da Arábia Saudita, Rússia, e Estados Unidos. A OPEP já perdeu o controlo.

Os empresários chineses estão a investir muito dinheiro na agricultura e desinvestem na construção civil. Já era esperado?

A construção civil depende muito de outros sectores. Se uma pessoa não tem emprego, não tem como ter casa. A construção civil depende duma variável que é a economia. Portanto, os chineses estão a pensar investir lá onde o dinheiro do Estado vai ser canalizado no próximo ano. E este sector é o da agricultura. Os chineses são visionários. É por isso que apostam nas grandes fazendas. Sugestão de leitura: Livro “Verdade e política” da escritora alemã, Hannah Arrendt Frase para pensar: “Só trabalha para o Estado quem não consegue trabalhar para quem pague melhor ou quem não sabe empreender”, José Miguel Júdice, comentador da TVI -24.