Morosidade na reparação do troço Maria Teresa/Dondo aflige aos munícipes

O estado actual do troço Maria Teresa/ Dondo tem criado inúmeros transtornos tanto para os automobilistas que por aí circulam como para os munícipes da circunscrição. Apesar das reparações que estão sendo feitas, e são bem visíveis, os munícipes queixam-se da falta de transporte para escoarem os produtos agrícolas

A passagem de qualquer automóvel por esse troço da Estrada Nacional 230 deixou de ser vista como sinal de progresso e passou a ser motivo de preocupação, tanto para as pessoas que residem nas proximidades, como para os transeuntes, em consequência da elevada quantidade de poeira que se levanta. São cerca de 130 quilómetro do troço Maria Teresa ao Alto Dondo/ cidade do Dondo, sede municipal de Cambambe, província do Cuanza-Norte, que se encontram em mau estado. Os munícipes dizem que estão agastados com a morosidade que se regista na execução das obras, que lhes tem causado problemas de saúde por causa da poeira que inalam.

Filipe Calungulungo, camponês residente em Zenza do Itombe, declarou a OPAÍS que por conta dessa situação, que enfrentam desde 2007, os níveis de desenvolvimento que haviam alcançado com o fim da guerra acabaram por decair e a localidade encontra-se parada no “tempo e no espaço”. “O que mais nos aflige nesse momento é a poeira, a falta de água, de energia eléctrica e de uma unidade hospitalar. Estamos sempre com infecções pulmonares, entre outras patologias, devido ao mau estado da via”, desabafou. Acrescentou de seguida que “andamos como se fôssemos um povo esquecido”.

Para beneficiarem de assistência médica, por exemplo, os munícipes têm de percorrer mais de nove quilómetros até à Cassualala, onde se encontra instalado um posto de saúde. “Só chegamos se tiver alguém de caridade para ajudar”, frisou. Além da saúde, a outra dificuldade está relacionada com o acesso ao sistema de ensino. Na época escolar, as crianças de Zenza do Itombe são obrigadas a percorrer entre três a quatro quilómetros para chegarem à escola de duas salas de aulas cujo funcionamento é assegurado por apenas um professor que lecciona da 1ª a 4ª classe. Assim que terminam este ciclo, as crianças cujos pais têm consciência da importância do ensino e aprendizagem passam a enfrentar diariamente o desafio de percorrerem uma distância maior até às localidades circunvizinhas onde se leccionam as classes subsequentes. “Nós somos um povo que viemos de Luanda à procura de melhores condições de vida e nos instalamos aqui para exercer a agricultura”, frisou. A falta de condições de vida e de emprego é apontada como o motivo que os levou a emigrarem da cidade que já esteve entre as mais caras do mundo para essa zona onde não existem serviços sociais básicos. No entanto, para não ficarem sem a fonte de sustento das suas famílias, enfrentam a poeira, por sua conta e risco, comercializando os produtos agrícolas à beira da estrada, “mas com a falta de estrada nem os mini-autocarros estão a passar por está via”.

“Sobado esquecido”

Essa opinião é partilhada por José Paulo Pereira que, com semblante de tristeza, contou que já endereçaram diversos pedidos às autoridades de direito para que se construísse uma escola com melhores condições e se destacasse um professor devidamente qualificado. “Pedimos também que se construísse um posto médico em condições para as nossas necessidades, e até hoje nada”, frisou. Para agudizar ainda mais a situação, pouco ou quase nenhum apoio o sobado a que pertencem recebe das autoridades. “Nós até temos sobas, mas uns não se preocupam com os problemas do povo e nós aqui estamos, esquecidos com o nosso sobado”. Esse povo que vive e depende exclusivamente da agricultura, no entanto, por falta de condições para o escoamento dos produtos para os grandes centros comerciais formais e informais está limitado a comercializar os produtos na estrada. No entanto, nem com isso conseguem assegurar o sustento das suas famílias, por falta de clientes.

No momento em que foram abordados por OPAÍS encontravam-se numa das paragens havia seis horas, aguardando por um autocarro de transporte público ou que uma “alma caridosa” lhes desse uma boleia até Luanda. Desde às 4 horas da manhã até às 9 horas, momento em que a nossa equipa de reportagem rumava para o Waku Kungo, Município da Cela, Cuanza-Sul, não havia passado um só autocarro. Contaram que não seria a primeira vez que regressariam à casa depois de um longo período de espera, por falta de transporte público para os levar até Luanda. Quando aparece, são obrigados a desembolsar 1.500 Kwanzas pela passagem, mas nem sempre conseguem chegar ao seu destino por causa do mau estado da via. “Muitos autocarros deixaram de passar por essa zona. Esperamos que a obra termine o mais rápido possível. Não estamos a aguentar com a poeira que faz quando passam os caminhões, principalmente”, disse. De acordo com José Paulo, existem outros pontos que facilitam o escoamento dos produtos agrícolas para os mercados dos centros urbanos e o transporte de pessoas e bens para as principais cidades do centro e Leste, e vice-versa, numa outra estrada de acesso ao Cuanza- Norte que foi reabilitada.

Doenças respiratórias entre as principais

As doenças respiratórias estão entre as principais enfermidades que apoquentam os moradores dos bairros situados ao lodo do referido troço Maria Teresa/Dondo, de acordo com o único en-fermeiro do posto de Saúde de Massangano. Isaías Cardoso da Silva, o enfermeiro, incluiu nesta lista doenças como malária e as doenças diar-reicas agudas. Por falta de condições técnicas e humanas, os casos mais graves são enviados para o hospital municipal Dondo, há 25 quilómetros de distância, através de transporte alugado pelas próprias famílias por falta de ambulância. O aglomerado de pessoas defronte ao posto médico aguardando para serem atendidas é um cenário que se repete todos os dias no posto de Saúde de Massangano. São maioritariamente mulheres, crianças e idosos que acorrem ao recinto à procura de assistência médica e medicamentosa.

A melhoria do estado de saúde deles fica entregue às mãos de Isaías Cardoso da Silva, o único enfermeiro do posto de saúde de Massangano, na província do Cuanza Norte. A falta de enfermeiros naquela localidade faz com que Isaías trabalhe sozinho há oito anos e só é substituído, temporariamente, quando está de férias ou doente. Diariamente atende cerca de 50 pessoas desde crianças, jovens e idosos. Isaías disse ainda que o número só é elevado por não existirem postos de saúde em muitas aldeias ao redor, a partir do Zenza do Itombe. “As pessoas são obrigadas a andar nove a dez quilómetros à procura do único posto de saúde de Massangano”, detalhou. Por esse motivo, o enfermeiro garante que só fecha o posto de saúde após atender a todos os pacientes que descreve como pessoas que não têm onde recorrer para receber os primeiros socorros. “Todos dias a população recebe kits de malária e o posto é sempre abastecido com medicamentos para os primeiros socorros”, garantiu a nossa equipa de reportagem.