Afrikkanitha

Sem ruídos desnecessários. É assim o disco de Afrikkanitha. É de ouvir e perguntar por que levou tanto tampo para que alguém voltasse a moldar a vida com contorno de beleza pura. Ela esteve ontem no auditório do Instituto Camões, quem não foi, o termos é este mesmo, lerpou. Temos jovens a fazer música que lhes sobreviverá, certamente, mas estes são tão profundos e bons que não cabem nos sentidos da mediocridade geral que é patrocinada, divulgada, hipervalorizada, mas que depois, sabemo-lo, as suas obras se esvaem com o fechar do ano, quando chegam a tal feito. A música é para ser feita como os livros, são para todo o sempre, são para ser actuais em todas as épocas. Um pouco como os discursos políticos também. Temos muitos que arrancam aplausos impensados e intensos no momento, mas que de tão pouco significantes e por não terem raízes na razão rapidamente se perdem. Nestes quarenta e poucos anos de Independência, quantos discursos de políticos nossos se tornaram memoráveis? Muito poucos. Mas há aquela música, como a de Afrikkanitha, que mesmo não inundando os tempos de rádio (incompreensivelmente), quando a ouvimos inunda-nos a alma e o tempo da nossa existência. Angola já tem idade para começar a valorizar o que merece ser valorizado, de facto, ainda que imperativos políticos de circunstância, de mercado, ou de outros ditem a escolha do mau, do efêmero, do meramente popular. Mas também não adianta argumentar muito, aquela qualidade está gravada, já não se apaga.