Um ‘amor proibido’ num lar a desabar

Um casal de idosos manifestou, ontem, ao jornal OP ÁIS, o desejo de ter um quarto só para si no Lar da 3ª idade do Beiral, para manter acesa a paixão que sentem um pelo outro. A instituição neste momento luta com a degradação, por ter sido erguida há muito tempo, enquanto o casal, que namora há sete anos, vê o seu ‘amor proibido’ por não lhes ser permitido um espaço só para os dois

No Dia Nacional do Idoso, o jornal OPÁIS esteve no Lar da 3ª Idade do Beiral, em Luanda, para ver como passam os anciãos naquele espaço. Tivemos contacto com a história do mais velho Manuel Pedro, de 74 anos, que vive no Beiral há 11 anos. O ancião, que disse não ter mais família, em poucas palavras disse a OPAÍS que gostaria de ver melhoradas as políticas da instituição, porque acha que não tem sido bem tratado. Anda triste porque não o têm deixado partilhar momentos a sós com a mulher que conquistou no Beiral e com quem namora há sete anos.

“Tudo que mais desejo é que nos dêem um espaço para poder estar com a minha mulher. Ando triste, porque vivo aqui há 11 anos, estou com ela há 7, mas não temos um espaço só nosso, porque não deixam”, reclamou aos microfones do Jornal OPAÍS. Manuel Pedro, de 74 anos, e Alice Manuel, de 60 anos (a mulher), estão em quartos separados.O interlocutor acha injusto que existam mais quartos no Beiral e não lhes é dado um para que possam ficar juntos. “Cada um vive por si, um aqui e outro acolá, quando devíamos estar juntos”, acrescentou Manuel Pedro, que disse ter uma filha apenas, que veio abandoná-lo no beiral.

A reclamação de Manuel Pedro é feita numa altura em que ficamos a saber, também ontem, da directora do Beiral, Guiomar Damião, que o lar está prestes a desabar, por conta da antiguidade, sendo que foi erguido em 1953. Várias foram as reparações já feitas, mas tem registado inundações, infiltrações, casos de curto-circuito, entre outros problemas infra-estruturais que, caso não seja reabilitado, pode vir a desabar. “Está a cair aos poucos, está a mexer, e se continuar assim, dentro de algum tempo pode vir a desabar. Necessitamos de casa nova, bem como material de higiene, fraldas descartáveis, luvas, dadas as enfermidades com que lidamos diariamente, como a tuberculose, VIH/Sida, entre outras”, disse. No beiral vivem 110 idosos, 65 homens e 45 mulheres, e, segundo a directora da instituição, há lá também idosos de famílias bem-sucedidas. Quanto aos maus-tratos de que os idosos se queixam, disse não ser verdade.

Melhorias talvez em 2019

A vice-governadorade Luanda para o sector Político e Social, Ana Paula Correa Victor, visitou o local e frisou que o Governo provincial tem a plena consciência das dificuldades que o Beiral e os idosos vivem, tais como as condições materiais, agravadas com a degradação das instalações, pelo que, em 2019, tudo será feito para que haja melhorias. Ana Paula Correa Victor disse que em todas as sociedades e contextos os idosos são pontes entre uma geração e outra, pugnando pelo respeito e solidariedade entre elas, pelo que o idoso tem um papel importante no presente, passado e futuro. Assim, “vamos continuar a envidar esforços para suprir este quadro menos bom vigente, mobilizando a sociedade, as famílias a participarem activamente nos programas de apoio e valorização do idoso”, reforçou.

Reconheceu que actualmente ainda se vive situações de maustratos à pessoa idosa, traduzidas em violência física, psicológica ou emocional, sexual, sócio-económica, abandono, negligência, acusações de feitiçaria e outras práticas recorrentes. Estas situações devem ser fortemente desencorajadas e combatidas, para que o idoso se sinta útil nesta sociedade que ajudou a construir. Estevão Jeremias, outro idoso que falou ao OPAÍS, de 71 anos, vive no beiral há 16 anos. Perdeu a visão em 1997 e, consequentemente, deixou de trabalhar, e depois de algum tempo se separou da esposa. Nasceu em Benguela, acredita que os seus irmãos ainda estejam na província, mas os filhos e ex-esposa na capital do país.