Ensino primário com dois manuais no ano lectivo 2019

O Ministério da Educação garante que os professores estão treinados para que a coabitação de manuais diferentes funcione na sala de aulas. Entretanto, António Pacavira considera a medida anti-pedagógica, mas dá o benefício da dúvida ao elenco de Cândida Teixeira

As aulas da iniciação ao ensino primário (1ª à 6ª classe) serão leccionadas com dois manuais diferentes, um da Reforma Educativa, introduzido em 2004, e outro que foi apresentado ontem, em Luanda, pelo Ministério da Educação. Os manuais actualizados serão inseridos no próximo ano lectivo contendo alterações dos erros ortográficos, de falsas datas de acontecimentos históricos, incluindo a data de morte do líder fundador da UNITA, Jonas Malheiro Savimbi, e com algumas insuficiências supridas. A inserção dos manuais no sistema de ensino será na ordem de 37 por cento, de acordo com o secretário de Estado para a Formação e Ensino Técnico-Profissional, Jesus Joaquim Baptista.

O governante explicou que o grosso dos livros a serem utilizados pelas crianças (63 por cento) continuará a ser dos antigos, com a previsão de serem retirados na totalidade em 2020. Deste modo, haverá nas salas de aulas alunos com manuais novos e outros que continuarão a usar manuais com os referidos erros e insuficiências. Ainda assim, o director do Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento da Educação (INIDE), Manuel Afonso, garante que não terá implicações negativas no processo de ensino e aprendizagem.

“Esta coabitação aparentemente é polémica, mas para nós não, porque os professores já têm domínio das insuficiências e dos erros que foram corrigidos e superados”, disse Manuel Afonso. O responsável justificou que tanto os que foram actualizados como os que permanecem com erros têm a mesma utilidade pedagógica, pelo facto de obedecerem à mesma matriz curricular. O MED garante ainda que a correcção dos manuais foi feita pelos técnicos do INIDE, professores das escolas sedeadas na província de Luanda e especialistas de diferentes universidades do país.

“Operação Resgate” para travar venda nas ruas

Questionado pelo OPAÍS se os novos manuais não aparecerão nos mercados informais, Manuel Afonso respondeu que contam com o apoio da Polícia, no âmbito da “Operação Resgate”, para que os possíveis desvios não aconteçam. Entretanto, Manuel Afonso admitiu que pode existir ruptura durante o processo de distribuição, caso não haja sintonia entre a empresa responsável pela distribuição, gabinetes da Educação e escolas até chegar ao destinatário final. Explicou que foi restringido o número de intervenientes no processo de distribuição para evitar os possíveis desvios. Manuel Afonso garantiu que a distribuição será feita nos mesmos moldes que os actuais, tendo garantido que os gabinetes provinciais receberão orientações para que as escolas recebam os manuais de acordo com as percentagens da entrega (37 por cento actualizados e 63 por cento dos não actualizados).

Poucos manuais por falta de dinheiro

Na abertura do encontro de apresentação, o secretário de Estado para Formação e Ensino Técnico-Profissional, Jesus Joaquim Baptista, disse que esta actualização faz parte do programa de melhorias dos manuais, tendo em conta os erros e insuficiências existentes nos livros que foram introduzidos em 2004 no âmbito da Reforma Educativa. Jesus Baptista frisou que o problema financeiro está na base da produção de apenas 37% das necessidades, tendo anunciado que a aprovação pelo Executivo da Política do Livro Escolar vai implementar gradualmente, entre 2022 a 2025, novos manuais em todo sistema do ensino geral.

“Do ponto de vista pedagógico não é recomendável”

Contactado por OPAÍS, o pedagogo António Pacavira mostrou-se céptico quanto à funcionalidade de dois manuais diferentes na mesma sala de aulas referindo que existe distância entre o treinamento de professores e a aplicação prática. António Pacavira disse que era preferível esperar por mais um ano para se fazer a troca na totalidade, por não se tratar de um processo de experimentação. “Só com um tipo de manual o resultado dos alunos já não é tão agradável, imagina com dois manuais. Trocar 37% e deixar a grande maioria pode criar um desfasamento considerável”, disse.

O também presidente da Associação Nacional do Ensino Privado (ANEP) disse que apesar das lições serem as mesmas e mudar em algumas situações ortográficas e linguísticas, do ponto de vista pedagógico não é recomendável nem saudável que haja coabitação na mesma sala de aulas de dois manuais diferentes. António Pacavira disse que a limitação no intercâmbio de informações entre alunos da mesma classe pode ser uma das consequências da medida. Entretanto, deu o benefício da dúvida ao Ministério da Educação. “Eu acho que se deveria fazer a troca de modo integral em 2020, mas se a direcção do Ministério assim entende, vamos ter que respeitar”, disse Pacavira, acrescentando que para a tomada desta decisão o elenco de Cândida Teixeira deve ter acautelado todas as situações.

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