Fato de obra

Agora silenciaram-se, ou quase, as vozes que clamavam por uma revisão constitucional, principalmente na questão da concentração dos poderes presidenciais. Fica também visto que alguns dos anteriores arqueiros nesta batalha eram, afinal, mais contra José Eduardo dos Santos do que contra os articulados da Constituição e os interesses da Nação. Gente assim é perigosa, quando argumenta e põe em causa até a Constituição por questões meramente intestinais ou de interesses, às vezes, pessoais. João Lourenço é agora o homem que enverga o fato constitucional, num período em que ele próprio quer e está a conduzir reformas na estrutura do seu partido, na economia e na sociedade. Para tudo isso, para erguer a sua obra, ele não pode ser uma espécie de “chefe, mas pouco”, tem de ter poder, e é isto o que reclamam os agora seus apoiantes e os arqueiros de ontem. Para consolidar a paz e até a transição política, diziam alguns anteriormente, José Eduardo dos Santos também precisava da Constituição como está, atípica, mas que nos tem valido um país politicamente estável. Alguém é capaz de imaginar o actual discurso de João Lourenço, mesmo para o interior do seu partido, se fosse um Presidente constitucionalmente fraco? Vamos no segundo Presidente com esta Constituição, e talvez fosse altura de as nossas universidades começarem a mostrar que a estudam de par com os fenómenos sociais e políticos que se geram à sua volta, no fito de apurar se o problema é o fato ou se é aquele que o enverga, na nossa realidade.