Bonga, o homem que quebra as regras lógica

A mim disseram para entrevistar o Bonga. E lá fui à procura do famoso cantor, cujo percurso perpassa um punhado de gerações de angolanos, desde os anos 70. Bonga, um ilustre filho do Porto Quipiri, Bengo, há muito anos a residir na Europa, esteve em Luanda há poucos dias.

Ele foi um dos homenageados do Presidente João Lourenço, nas celebrações da Dipanda, 2018. Melhor pretexto não podia haver, para ouvir o pensamento de um dos mais emblemáticos actores da cultura angolana, em vida. Atrás de Barceló de Carvalho Bonga está um homem fresco de 76 anos de idade, que surpreende todos os dias com uma juventude de alma fora do comum.

A longa espera pelo entrevistado, no restaurante Espaço Luanda, ficou compensada pelo resultado de uma bela entrevista. O distinto interlocutor tem o condão de tornar qualquer entrevista num grande momento de conversa.

Sem rodeios, sem arquétipos, sem temas inconvenientes, ele vai logo dizendo: ‘pergunte à vontade sobre tudo o que quer saber da minha pessoa’. Então eu, muito motivado face a disponibilidade da ilustre raridade, olho para o relógio e me pergunto: ‘quanto tempo terei de entrevista a um interlocutor que está de malas na mão, apressado para o aeroporto, de regresso a Portugal?’

Não há formalismos na conversa com Bonga. A entrevista pode começar pelo fim e acabar no início. Não é preciso obedecer a critérios de hierarquia de assuntos. Cada tema reflecte um grande momento da conversa. É impossível ver um Bonga a decair no estado de ânimo.

O semblante está descarregado, mesmo quando vai falar de temas dramáticos. Ele trata de lhe ir conferindo logo, uma pitada de humor, o que a mim deixou completamente à vontade. Quando chegou à sala do restaurante, Bonga estava envolvido por um pequeno cordão humano.

São os seus assessores. Eles vêm agora na minha direcção. Conduzem o cantor ao cenário da entrevista, onde já me encontro de pé à espera. A dizer piadas e a fazer sorrir o pessoal, Bonga resolve evitar os dois pés de uma escadinha que conduz ao palco.

Ele opta por trepar o palco, à altura de cerca de 65 com, com um pé atrás do outro, sem vacilações nem tonturas. É o homem da ginica em dia.

Meias luzes montadas sobre o palco, num cenário dominado por cores vivas e dois motivos em fotografia sobre a parede, próprios da antropologia cultural mumuila, duas mulheres sorridentes. Mas há ainda duas cadeiras almofadadas e colocadas numa lógica perpendicular, tudo a um cenário apelativamente cultural.

Bonga forçou a Grande Entrevista à TPA fora do estúdio, pela primeira vez. Fomos ao seu encontro ao hotel, onde ficamos à sua espera, desde às 17 horas, para nos vir falar somente cerca das 19 horas. Não foi capricho de músico famoso.

O homem tinha a agenda carregada o tempo quase todo e procurou ser minimamente fiel aos seus compromisso. Houve que desfazer os critérios: a TPA fez o programa fora do Estúdio e o restaurante que nos aconlheu cancelou a música ao vivo,desse dia, para usar o palco com o Bonga, na entrevista.

O que era suposto tratar-se de uma entrevista, acabou por se converter numa grande companhia a quem, nessa noite, se achava lá dentro, a jantar. Bonga foi precisamente maquilhado em cima do palco, em pleno cenário, por uma caracterizadora experiente da TPA.

A maquilhadora Faz Tudo, como é conhecida entre nós, à procura de recuperar o tempo já ia atrasado, sacou rapidamente dos utensílios de beleza e trepou a face do cantor, para remover o brilho facial em excesso, como é de costume neste procedimento tradicional em televisão, visando conferir ao indivíduo, um sotaque mais fresco e belo, no tom da pele facial.

Foi então que Bonga, não deixando escapar mais uma gracinha eminete, anuncia em alta voz: “a maquilhadora está a tremer”. E todo a gente explodiu numa gargalhada geral. Segundos depois, começou a entrevista gravada, cujo resultado fica reservado à televisão. 01DEZ2018

O Pais

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