Yuri Quixina:“Temos uma equipa económica que tem medo dos jornalistas do sector privado”

Os ecos da reunião do Comité Central do MPLA e a conferência de imprensa da equipa económica mereceram destaque nesta edição do Economia Real da Rádio Mais, com o professor de Macroeconomia, Yuri Quixina

POR: Mariano Quissola / Rádio Mais

O presidente do MPLA, João Lourenço, apelou aos dirigentes do partido a não se calarem perante sinais de ‘constituição de um império económico de uma família ou uma pessoa’, na reunião do Comité central. Que análise geral faz do discurso?

Sobre a vida económica do país quase não falou muita coisa, ficou reduzido ao ambiente económico. O presidente do MPLA acredita que o país já está preparado para receber investimento directo estrangeiro, porque o ambiente melhorou. No meu entender, ainda há muitas variáveis por melhorar, como o acesso ao crédito, os impostos, acesso aos serviços básicos, electricidade. Há expectativas de melhorias. Do ponto de vista político, jugo ter sido réplica da comunicação do antigo presidente e isso demonstra que o MPLA tem duas alas: uma centro- esquerda e outra centro-direita. Centro-esquerda é a ala que esteve no passado e a centro-direita a actual, liderada pelo presidente João Lourenço, virada para a economia de mercado e liberdade.

Mas os auxiliares ainda…

Os discípulos da ala direita são provenientes da ala esquerda. Ele é o chefe da ala direita, mas ainda não tem discípulos. O presidente do MPLA também mostrou que quer continuar na estratégia de apontar os erros do passado da antiga liderança, continua a bater consideravelmente, falou dos filhos e das pessoas ligadas à antiga entourage. Portanto, quem ganha com isso é o país, na perspectiva da sua democratização.

E qual é o seu comentário sobre o papel do MPLA perante sinais de ‘constituição de um império económico de uma família ou uma pessoa’?

Isso é mea-culpa. Acho isso estrondoso, ninguém deu conta e ninguém fez essa análise. Quando o presidente diz, por exemplo, “Se, de forma pouco responsável, for confiada a um jovem inexperiente a gestão de milhões de dólares americanos do país, o Partido não pode ficar indiferente. Tem de bater o pé, perante tamanha afronta aos verdadeiros donos desses recursos – o povo angolano”. Significa que afinal de contas o culpado de tudo não é apenas o presidente José Eduardo dos Santos, o partido também tem culpas nisso e ele também faz parte do problema. Fez mea-culpa. E isso é dar um tiro na estratégia de apontar cada vez mais erros do passado.

Ainda a polémica em torno dos cofres vazios. A equipa económica fez uma conferência de imprensa para esclarecer essa questão. A minha questão é: o que são Reservas Internacionais Líquidas e o que é a Conta Única do Tesouro?

São duas coisas diferentes. Reservas Internacionais Líquidas são moedas estrangeiras em posse do Banco Nacional de Angola, que servem para responder às exigências externas, nomeadamente para importação de produtos, pagamento de dívida externa e estabilizar o mercado cambial. Já a Conta Única do Tesouro é a tesouraria do Estado, que serve para cobrir as despesas de um orçamento. É o que chamamos de cofre do Estado. Mas o ministro de Estado Manuel Nunes Júnior não disse que estava vazio. Ele disse que eram 15 mil milhões de dólares em 2013 e em 2017 ficaram 6,98 mil milhões de dólares, dinheiro superior ao que está no Fundo Soberano. Com esse valor consegue-se pagar os salários da função pública durante todo ano de 2019.

Uma das questões que marcou a conferência de imprensa foi a limitação das perguntas pelos jornalistas. O que lhe pareceu?

Temos uma equipa económica medrosa, que tem medo dos jornalistas do sector privado. Não tem experiencia de debate. Mas é compreensível porque vem de um Governo centro-esquerda que não debatia e estão com um outro Presidente que gosta de debate e de liberdade. Acho lamentável, porque a equipa económica continua no passado. Quando uma equipa económica não sabe comunicar com o mercado é o fim da economia. Os resultados económicos dependem de conversa, de comunicação. Resultado: disseram que está tudo bem, que há estabilidade no mercado cambial, que a inflação está a cair e que no próximo ano vamos crescer. Aconselho os jornalistas a guardarem essa entrevista da equipa económica e em Dezembro de 2019 vamos voltar a falar sobre isso.

Governo deve 142 milhões de Kwanzas aos camponeses, por via do Programa de Aquisição de Produtos Agro-pecuários segundo o ministro do Comércio, Joffre Van- Dunem Júnior. Que efeitos terá causado à economia real desses camponeses?

Isso é resultado do modelo em que o Governo faz tudo. O Estado só tem dívida para com as empresas quando o Estado faz tudo. E nesse sentido, o Governo queria comprar os produtos dos agricultores para vender aos centros e fracassou. Quem vai pagar essa dívida somos nós, os cidadãos através dos impostos.

O Governo admite vender apenas 10% da TAAG, segundo um Decreto Presidencial. O que isso representará para a companhia?

Para a TAAG ser uma companhia dinâmica e responder às exigências da concorrência, 10% é pouco. Para mudar a cara da TAAG seria preciso mais, o objectivo seria dar poder aos privados e o Estado focar-se nas questões sociais. Penso que se devia vender entre 50 e 60% do capital da TAAG. Se o problema é o destino dos trabalhadores, devíamos persuadilos a mudar de mentalidade.