Tudo “estagnado” no Waku-Kungo

São vários os problemas que afligem os munícipes da cidade do Waku-Kungo, município da Cela, província do Cuanza-Sul. Em conversa com OPAÍS, alguns munícipes descreveram as dificuldades, que passam pelo desemprego, a falta de água e de energia eléctrica, e por não verem soluções para travar a degradação paulatina da vila, que já foi um dos cartões postais do país

“Abençoada” pela natureza com terras aráveis, rios e um clima propício para o cultivo de diversas espécies de hortícolas, bem como para a criação de gado, factores que, desde 1901, têm atraído homens de diversas latitudes, de Angola e não só, a investirem nesta parcela do território nacional, a qual havia sido atribuída o nome de Vila da Santa Comba, a actual cidade do Waku-Kungo é uma sombra de si mesma. Num período mais recente, na esperança de relançar a agricultura e a indústria transformadora que esteve há anos paralisada, o Estado apostou nesta vila, localizada no município da Cela, província do Cuanza-Sul, com a implementação de projectos como o Aldeia Nova, entre outros.

Alguns empresários juntaram-se à iniciativa com a criação de fazendas, hotéis e restaurantes, no entanto, a taxa de desemprego é bastante acentuada, a carência de salas de aulas e de professores impedem centenas de crianças de desfrutarem do direito à educação e do acesso a um sistema de saúde “saudável”, que constitui um sonho por concretizar. “Temos graves dificuldades para conseguir emprego. Muitos de nós terminamos o ensino médio há anos e até ao momento não conseguimos emprego. Aqui só acontecem dois concursos públicos, o da Educação e o da Saúde, que não aceitam candidatos formados nos centros Pré-Universitários”, desabafou Custódio Azevedo, um munícipe que augura ingressar no mercado de trabalho desde 2012. Se alguns, como ele, são excluídos de tais concursos de ingresso na função pública, por não reunirem os requisitos académicos exigidos, a quantidade de vagas disponibilizadas ao município desincentivam a maioria.

A título de exemplo, contou que este ano foram disponibilizadas apenas sete vagas para admissão de profissionais no sector da saúde. Um gesto que, em seu entender, não teve em conta a quantidade de técnicos formados anualmente do Instituto Médio de Saúde local. Para si, isso fez com que o critério de admissão não fosse as valências técnicas dos candidatos, mas sim as “famosas cunhas”, uma vez que “cada entidade aqui também quer enquadrar o seu parente formado no sector e nós que não temos ninguém ficamos sempre de fora”. Alguns, de acordo com o nosso interlocutor, “concorrem só para tentar a sorte que, pela sabedoria, não existe”.

Todavia, Custódio Azevedo dedica o seu tempo a alimentar a esperança de centenas de jovens que sonham brilhar nos principais campeonatos nacionais e internacionais de futebol, tendo como ponto de partida o Clube Recreativo da Cela. O técnico de futebol contou que o estado de degradação em que se encontra o campo do clube acaba por afastar muitos jovens da prática de actividades desportivas, o que poderia ser alterado caso tivessem os devidos apoios. Com semblante de tristeza, o “estádio”, propriedade de um particular, só está a beneficiar de pinturas devido à visita que o Presidente da República, João Lourenço, fará à cidade neste Sábado, na qualidade de presidente do MPLA.

Escuridão tomou conta dos bairros

O cair da noite nos bairros circunvizinhos assinala a hora da entrada em funcionamento de milhares de geradores instalados em residências. O barulho proveniente destes meios, acrescido com o fumo e os riscos de explosão afligem os seus utilizadores, mas dizem não ter alternativa, uma vez que não beneficiam de energia eléctrica da rede pública desde 1993. Os munícipes estão descontentes com os trabalhos paliativos em curso por considerarem que não garantirão o desenvolvimento da cidade. “Para agradar a visita que teremos, estamos a assistir à colocação de postes de iluminação numa velocidade que me deixa admirado.Na sei se a energia vai sair de onde, sendo que os postes do Cuanza- Norte, que vão ligar à turbina de Laúca, não estão feitos ainda”, frisou, acrescentou de seguida que “querem mostrar que a cidade está iluminada, quando sabemos que é mentira”.

No entanto, Custódio Azevedo, como os demais munícipes, espera que o projecto de expansão da rede eléctrica continue após a visita do Titular do Poder Executivo, para o bem da comunidade. Na altura da nossa reportagem, sugiram informações que davam conta de que os habitantes da vila passariam a beneficiar deste bem público a partir de hoje. “Gostaria que melhorassem a qualidade dos serviços de energia e água porque há muitas famílias a usar a água imprópria, das cacimbas, e isso tem causado muitas doenças diarreicas e infecções”, disse. Segundo conta, foram instalados fontanários em alguns bairros, no âmbito do Programa Água para Todos, cujas torneiras nunca jorraram água. O estado deplorável em que se encontra a estrada Comarca- Hospital Regional da Cela, na comuna da Quissanga, é outra situação que aflige os munícipes. “Não sei se tem sido orçada ou não, mas gostaria que fizessem obras. Por causa do estado daquela via muitas pessoas têm perdido a vida. O mesmo acontece com o troço que vai ao aeroporto, que nunca foi reabilitado”, frisou. Esta opinião é partilhada por Joana Sambo, que vive há mais de 10 anos nesta localidade, que disse, a OPAÍS, que do se ponto de vista a cidade está a ser embelezada, com a pintura das árvores e recolha do lixo. “Verdade seja dita, mesmo em frente à Administração tem ficado um capim enorme que até sai bicho”, disse.

Criminalidade em alta

A falta de iluminação pública tem servido de incentivo para muitos jovens enveredarem pelo mundo do crime, enquanto alguns são apenas assaltados, pessoas há que são violadas. Joana Sambo confessou que os cidadãos só não denunciam os seus algozes com medo de sofrerem represálias, por conhecerem os prevaricadores que, em muitos casos, ficam impunes.

Administração reconhece que há muito por fazer

Indagada sobre as dificuldades no fornecimento de água, a administradora municipal do Cela, Amélia Russo, admitiu que a nível das comunidades ainda falta muito por se fazer, mas garantiu que o sistema de fornecimento de água está em expansão. Como prova, citou que os grandes bairros da cidade já beneficiam deste serviço desde a entrada em funcionamento da Estação de Tratamento de Água (ETA) que faz a distribuição do preciso líquido subtraído dos rios Keve e Lupupa. Entretanto, disse que as tubagens da canalização do rio Keve carecem de uma intervenção profunda para pôr termo às constantes avarias. “A água está melhor que a energia porque temos dois sistemas, do rio Keve e da Lupupa, que é uma nascente. Temos em carteira, desde 2014, um projecto de ampliação e reabilitação da conduta da Lupupa que já foi aprovado, mas não efectivado devido aos problemas que todos nós sabemos”, explicou. Quanto à criminalidade, Amélia Russo disse não ser tão grave, tirando alguns casos de vandalismo de cabos eléctricos, roubo de bombas de água e de algumas placas solares, contudo, os marginais já se encontram sob custódia da Polícia e os cabos recuperados. Amélia Russo comunga da ideia dos munícipes de que a falta de iluminação pública em alguns dos bairros é uma das causas da criminalidade que se regista em alguns bairros. “Tudo fica escuro. Devemos trabalhar neste sector para que tudo esteja iluminado”, disse.

Rádio Waku-Kungo sem emissão local

A equipa de OPAÍS visitou a Rádio Waku-Kungo que, desde a sua inauguração a 28 de Julho de 2017, pelo então ministro da Comunicação Social, José Luís de Matos, não emitia localmente, alegadamente por falta de energia eléctrica. No entanto, os munícipes passaram a inteirar-se sobre o que se passa na província, no país e no mundo através das ondas hertzianas da rádio Cuanza-Sul das 6 às 6 horas e 30 minutos, das 12 às 13horas e, à noite, das 20 às 21. Fernando Júlio, funcionário da estação desde a sua inauguração, esclareceu que a mesma funciona apenas com um retransmissor da Rádio Nacional de Angola e que a sua emissão ainda não é local. Para tal, têm de criar condições que façam com que a estrutura funcione, como recursos humanos, custos operacionais, entre outros. Condições estas, segundo conta, que o Conselho de Administração da Rádio Nacional de Angola está a resolver.

“Enquanto não funciona, vamos retransmitindo alguns sinais de todos os canais da Rádio Nacional de Angola, mas estamos a pensar partir para programas segmentários de duas horas por dia, à semelhança das outras rádios municipais, como a Rádio Dondo. A nova estação de rádio foi construída no quadro do Programa de Investimentos Públicos e conta com dois estúdios (um para a emissão e outro para gravações), uma Cabine Técnica Principal (CTP), uma sala que funcionará como redacção e outra como recepção. A Rádio Waku-Kungo tem uma torre de 30 metros e um emissor de seis quilowatts, em FM 97.2, capaz de emitir o sinal hertziano não só para o município da Cela, como também para as zonas do interior como Cassongue, Quibala e Ebo, além do município do Bailundo, na província do Huambo.